O “negócio” do Ébola: Todos lucram no Congo menos os doentes

5/02/2020 16:44 - Modificado em 5/02/2020 16:44
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As equipas da Organização Mundial de Saúde faturam quase 2 milhões de euros por mês em deslocações no país africano na luta contra o Ébola. E é apenas um exemplo

A Operação “Resposta”, cujo objetivo é parar a progressão do vírus Ébola, conta com um orçamento de 800 milhões de euros e é co-dirigida pelo ministério da Saúde congolês e Organização Mundial de Saúde (OMS).

Na República Democrática do Congo (RDC) já foram identificados cerca de 300 ataques contra os profissionais destas equipas da OMS desde o início da epidemia. Até uma dúzia de trabalhadores de saúde já morreram no terreno. Na raíz de alguns desses ataques, está uma população que acusa os profissionais de saúde de aproveitarem a epidemia de Ébola para enriquecerem às custas dos doentes. Pequenos acordos e arranjos qualificados localmente como “negócio do Ébola”, como conta o jornal francês Libération num artigo de investigação publicado hoje.

A OMS sublinha que essa acusação infundada é a base de uma série de ataques contra a “Resposta”. E insiste que o dito “negócio” do Ébola não passa de um rumor. No entanto, a correspondência e documentos que o Libération encontrou provam o contrário. Funcionários da “Resposta” usaram a sua função para enriquecer, contornando as regras deontológicas da OMS, sublinha o artigo do jornal.

Segundo vários funcionários da OMS, que falaram a coberto do anonimato, a escala do desvio de verbas que eram destinadas ao combate ao Ébola atingiu níveis incomparáveis. “É a loucura”, disse um desses funcionários. Outro logo acrescentou: “A ‘Resposta’ no Congo? É um grande negócio! Todos beneficiam…exceto os doentes”.

A epidemia, que surgiu em agosto de 2018, já matou mais de 2238 pessoas.

Esta viagem ao”negócio” do Ébola levou à constatação de que existem vários tipos de “arranjinhos” em que saem beneficiados quadros da OMS e também quadros do Congo. Por exemplo, a “Resposta” tem 700 viaturas que transportam as equipas. O custo das deslocações é faturado em 2 milhões de dólares (1,8 milhões de euros) por mês à OMS. Mas algumas dessas viaturas são propriedade de funcionários que trabalham para a “Resposta”. Alguns deles chegam a ganhar 3000 dólares por veículo e ainda 3000 dólares de salário por mês. Uma verdadeira fortuna num país onde o salário médio mensal não ultrapassa os 50 euros.

Segundo documentos internos da OMS a que o Libération acedeu, alguns dos proprietários de viaturas alugadas à “Resposta” são funcionários do governo congolês, membros das forças de segurança ou quadros do ministério da Saúde. Todos estão certificados para lutar contra o Ébola.

Em causa, conflito de interesses e procura fácil do lucro. Pelo menos 30% dos automóveis alugados pela organização pertencem a pessoas que trabalham para a missão internacional de luta contra o vírus Ébola conduzida pela OMS.

“Não é aceitável”, criticou, em declarações ao jornal francês, o médico Michel Yao, que coordena a resposta ao Ébola pela OMS. “Se as pessoas que trabalham para a “Resposta” alugam os seus veículos à OMS elas não poderão mais cumprir a sua missão com a probidade necessária”, observou. Michel Yao garantiu não estar a par desses casos mas concede que “é impossível estar 100% seguro de que não existam”.

Outro caso concreto exposto no artigo: Blaise Amaghito, o chefe de segurança da “Resposta” em Butembo, terá encaixado 92 260 dólares pelo aluguer de sete viaturas entre dezembro de 2018 e junho de 2019, segundo documentos da OMS. Contactado pelo Libération, Amaghito negou todas as acusações e remeteu a questão para a coordenação da Organização Mundial de Saúde.

Também os postos de trabalho de pessoal da resposta ao Ébola foram ultravalorizados e são geradores de inveja nas comunidades. Por exemplo, antes da aparição do vírus, um médico de um centro de saúde em Butembo ganhava cerca de 100 dólares por mês. Hoje em dia, um higienista que borrifa água com cloro nos sapatos à entrada do mesmo centro de saúde ganha 300. O suficiente para gerar ciúmes entre a população e reforçar as acusações de negócios do Ébola.

O Libération tentou por diversas vezes obter uma resposta da OMS aos documentos e provas expostos mas a Organização não respondeu.

Por Plataforma

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