Diálogo secreto entre as tripas e o cérebro

1/02/2020 18:29 - Modificado em 1/02/2020 18:29
| Comentários fechados em Diálogo secreto entre as tripas e o cérebro

Vejam lá! Até entre o cérebro, órgão nobre e superior, e os intestinos, órgão que digere alimentos e canaliza fezes, há diálogo íntimo e secreto, quando alguns líderes políticos se recusam a dialogar com outros líderes por birra ou estupidez! Difícil de entender, não? Vamos falar da relação entre os intestinos e o cérebro. Há muito tempo que venho publicando artigos sobre o cérebro, na base de descobertas da Neurociência. Parece que os intestinos nada têm a ver com o cérebro. Afinal, há uma relação íntima entre estes dois órgãos, mas sem termos consciência disso, isto é, relação inconsciente, automática. É um pouco disso que vamos tratar neste artigo.

Temos cerca de dez milhões de neurónios (células nervosas) autónomos presentes no interior das paredes dos intestinos, e centenas de biliões de bactérias que vivem com o que resta da nossa digestão dos alimentos. A esse conjunto de bactérias que habitam os intestinos chama-se microbiota, herdadas das nossas mães logo após o nascimento, sendo 85% boas, e 15 % nem por isso, que convém manter dominadas com uma alimentação correcta por serem potencialmente perigosas. A função dessas bactérias é alimentar as nossas células e protegê-las de invasões indesejáveis. Já eram conhecidas as suas funções na digestão e protecção imunitária, mas hoje sabe-se que também têm funções sobre as emoções e o comportamento, de que tratei noutros artigos.

Os intestinos não são, portanto, um tubo somente de passagem de alimentos e digestão, que o digere e transforma de modo a entrarem na corrente sanguínea para uso das  células e elimina os resíduos não aproveitáveis pelo organismo. Têm outras funções, como alertas para o cérebro com o qual estão permanentemente em comunicação através da medula e do nervo vago. As informações transmitidas dos intestinos ao sistema nervoso central são descodificadas e implicam reacções do cérebro, tudo isso sem a intervenção da nossa vontade e consciência, isto é, inconscientemente.

Quando chega aos intestinos algo indesejável, prejudicial ao organismo ou tóxico, as células nervosas (neurónios) assinalam isso ao cérebro e este trata de o expulsar emitindo ordem para para os intestinos aumentarem os movimentos de expulsão (diarreia ou vómito).

O estudo das doenças chamadas autoimunes como a artrite reumatoide, lupus eritematoso agudo, doença de Crohn, doença celíaca, colite ulcerosa, etc, caracterizadas por uma resposta imunitária errada contra os próprios tecidos e células da pessoa, resultando em inflamação prolongada e subsequente destruição dos tecidos, chamou a atenção para a importância dos intestinos, por aí se localizarem cerca de 70% do sistema imunitário. Daí o interesse de afastar da alimentação todas as proteínas capazes de alterar o seu estado tornando-os porosos, como o gluten, a gliadina e a caseína. O intestino poroso permite a passagem para a corrente sanguínea de bactérias e de partículas de alimentos mal digeridos que se aderem às células e tecidos, o que leva o sistema imunitário de defesa a atirar-se a elas e às células ou tecidos a  que estão aderentes, como se fossem corpos estranhos ao organismo, aumentando o número de moléculas inflamatórias na corrente sanguínea. 

A melhor maneira de combater essa inflamação sistémica é alcalinizar a alimentação e valorizar as bactérias benéficas dos intestinos com os chamados probióticos contidos no alho, abóbora, beringela, couve, cebola, nabo, pepino, etc. Os prebióticos são ácidos gordos de cadeia curta não digeríveis que ajudam as bactérias benéficas a desenvolverem-se, contidos na aveia, feijão, cebola, espargos. Uns e outros são promovidos por ácidos gordos essenciais do Omega 3 (EPA e DHA).Produtos fermentados como o yogurte, o choucroute e o kefir ajudam a repovoar os intestinos dessas bactérias benéficas. Há um grande aliado dessas bactérias, a nossa babosa (Aloes vera) que  encontramos à venda, na Europa, sob a forma de xarope, cápsulas e pílulas, por conter inúmeros oligo-elementos (ferro, magnésio, etc), aminoácidos e vitaminas. Em tempos encontrávamos pílula de babosa na lista de medicamentos disponíveis na farmácia do Estado em Cabo Verde; um amigo residente na Praia informou-me de que ainda se encontra disponível, mas no plurim (mercado) para combater a prisão de ventre. Se saiu da lista oficial farmacêutica, há que  a recuperar.

Não restam dúvidas quanto ao relacionamento da alimentação com o estado de saúde; uma alimentação pobre em fibras, vitaminas e oligo-elementos, muito rica em açucares, adoçantes artificiais, quanto há adoçantes naturais sem  calorias extraídos da planta stevia, e gordura, refeições copiosas, álcool e tabaco, são muito prejudiciais à saúde. A produção intensiva agrícola e animal com o uso e abuso de adubos químicos, pesticidas  contra  insectos, de hormonas nos animais que consumimos,  também vêm prejudicando a saúde, por os elementos  nocivos dos pesticidas, adubos e hormonas se fixarem permanentemente nos nossos órgãos destruindo-os ou modificando-os gravemente.

Os nossos antepassados de antes da sua sedentarização com a descoberta da agricultura, para sobreviverem, caçavam e alimentavam-se do que encontravam e procuravam: raizes, folhas, frutos e tubérculos, sendo obrigados a marchar todo o tempo. Essa vida não dava para engordar, devido ao exercício físico e à exiguidade da comida; eram seres magros mas resistentes. Actualmente, e cada vez mais, as pessoas quase que não andam a pé mas de automóvel, transportes públicos e motas, comem de tudo sem terem de andar em busca deles como os antepassados (caçadores e recolectores), o que explica a existência de tantos gordos, obesos e de doenças associadas a esse tipo de vida e alimentação

Para mais informações a este respeito recomendo a leitura de uma série de 5 artigos  que  publiquei no Notícias do Norte intitulada “Sugestões para a melhoria e preservação  prolongada da saúde e da qualidade de vida”, em Maio de 2018.

Parede, Fevereiro de 2020                                                         

Arsénio Fermino de Pina                                                                         

(Pediatra e sócio honorário da Adeco)

Os comentários estão fechados.

Publicidades
© 2012 - 2022: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.