So mas um solim, Luís!

12/12/2019 00:54 - Modificado em 12/12/2019 00:54
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So mas um solim, Luís no ano em que a UNESCO reconheceu  a morna como património imaterial da humanidade. So mas um solim, Luís no dia  em que o Estado de Cabo Verde, personificado nos seus dirigentes, veio que “nem peru intxod” catar os grãos que artistas como tu semearam para que a morna chegasse onde chegou: património da humanidade.

So mas um solim, Luís para dizer que a única coisa que resultou neste País foi a música. Resultou por que o Estado, para o bem e para o mal, nunca interferiu. Quanto o Estado investiu na tua formação, na de B.Leza, Eugénio, Bana, Cesária, Manuel de Novas, Ildo Lobo, Paulino Vieira, Titina, Zeze  de nha Reinalda, Catchas, Nhela Spencer, Betu e tantos, tantos outros que não caberiam neste texto?

Quanto investiu o Estado na promoção da vossa obra? Onde estava o Estado quando Cesária Évora morria à míngua nas ruas de Mindelo? Onde estava o Estado no tempo “que até cagarra tava canta na rotcha” limitando a morna às noites cabo-verdianas e dando –lhe o estatuto  de “música de fralda” ?

So mas um solim, Luís para que o Estado baile e rebole na certeza que o povo tem memória curta, que os fanfarrões botem discurso na UNESCO. Que o Estado recolha, neste momento, as migalhas do pão amassado mil vezes pelo Diabo que os músicos, os interpretes, os compositores, os produtores da morna comeram para a morna chegar a património da humanidade. Que o Estado se lambuze das migalhas servidas à luz do holofotes do mundo. Que o Estado seja a morna. Mas depois, por favor, deixem o palco para os nossos artistas. Afinal, a raiz da morna está fincada na sua seiva.

So mas um solim, Luís?

Sim, mas um solim para ti dear Luís, tu que capturaste na tua música a alma mindelense para eternizá-la. Para ti, Luís apesar do Governo não ter decretado feriado nacional quando morreste; apesar da CMSV insistir em não te homenagear como mereces; apesar da nossa querida Zau ter dado a uma praça da cidade o nome de um Luís de Portugal e não o teu; apesar de não haver uma rua com o teu nome no Mindelo que tanto amaste, apesar de não haver um busto teu na ilha onde nasceste, nós não te esquecemos no sopro do teu clarinete que por estes dias invade as nossas vidas, na saudade, no aperto no coração sempre que ouvimos BOAS FESTAS. Mas também na alegria do teu sorriso eterno, nos milhares de abraços apertados ao som do teu clarinete. Ah, Luís! e da crioula linda no peito quente ao som de um bolero ou de uma cumbia saído do teu clarinete sabe… sabe moda intentason. Não te esqueceremos, nunca… So mas um solim, Luís?

Eduino Santos

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