Abraham Lincoln e a abolição da escravatura negra nos EUA – 2ªparte

5/12/2019 01:50 - Modificado em 5/12/2019 01:50
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Os escravos negros concentravam-se sobretudo nas regiões do Sul que viviam da agricultura, sobretudo da cultura de algodão, vendido à Inglaterra, cuja produção dependia da mão-de-obra de escravos negros, praticamente sem direitos, comprados, vendidos e sujeitos a todo o tipo de arbitrariedades e explorações. Como a partir de 1800 houve revoltas de alguns escravos, os legisladores do Sul promulgaram leis que limitavam ainda mais os poucos direitos dos escravos; por volta de 1860, foi criada uma organização terrorista de superioridade branca chamada Klu Klux Klan (KKK ou Klan) que persistiu até 1956, que se encarregava de liquidar, por enforcamento, os negros acusados de alguma acção condenável pelos seus critérios e de lançar fogo a residências destes. A maior parte dos legisladores do Estado de Illinois simpatizava com os sulistas e já tinham decretado leis que proibiam os negros de votar, de ocupar cargos públicos, a participar de júris e até de frequentar escolas públicas; embora em Illinois a escravatura fosse proibida, a Assembleia de Illinois aprovou vários legislações condenando a criação de novas sociedades abolicionistas: 70 deputados votaram a favor, seis contra, entre os quais Lincoln. Este sempre condenou a escravatura; o grande problema era como acabar com ela.  

A Klu Klux Klan só foi proibida em 1956 e imaginamos o terror que espalhou entre os negros. Era contra a música de inspiração negra, afro-americana, como o Jazz, os Espirituais, os Blues, o Soul, a Música Pop, o Rock and Roll e fazia a promoção da Música Country, a que ouvíamos entusiasmados nos filmes de cowboys, cantadas geralmente por um velhinho simpático enquanto os sports (os bons) da fita – desempenhados por John Wayne, Rondolph Scott, Kirk Douglas, Robert Mitchum, Burt Lencastre, Gary Cooper, Alain Ladd e outros – iam matando índios (os maus), na realidade os donos das terras, para as ocuparem. Embora a escravatura já tivesse sido proibida, a segregação racial permanecia, e se negavam os direitos civis aos negros. Os grandes artistas e cantores como Nat King Cole, Paul Robeson, Amstrong, Sammy Davis Junior, Mahalia Jackson, Eartha Kitt, Josephine Baker, Harry Belafonte, entre outros, que tanta fama e dinheiro conquistaram para os EUA, não podiam nem entrar em restaurantes, pernoitar num hotel de brancos, e, no cinema, só podiam desempenhar papéis de criados ou escravos, quando, actualmente, são dos melhores intérpretes do mundo do cinema, e sempre foram da música. Somente com os activistas da defesa dos direitos humanos, em luta pacífica pelo reconhecimento dos seus direitos civis, com o pastor protestante Luther King, Malcolm X, Panteras Negras, que custou a vida aos dois primeiros, é que esses direitos foram reconhecidos.

Embora fosse contra a escravatura dos negros, Lincoln não acreditava que o Governo Federal tivesse o direito de forçar os Estados do Sul a abandonar o sistema esclavagista. A morte por linchamento de um editor abolicionista de Illinois, incêndio dos escritórios do jornal e o lançamento no rio Mississippi da impressora, deu razão aos receios de Jefferson e perturbaram profundamente Lincoln. Ao longo de alguns anos, Lincoln foi exercendo vários cargos oficiais, ganhando experiência política, indo parar a Washington onde retomou a sua actividade profissional de advogado. Em Washington o debate entre nortistas e sulistas em torno da questão da escravatura tornava-se cada vez mais inflamado. Lincoln não poupava críticas aos defensores do esclavagismo, chamando a atenção para “a injustiça monstruosa” que havia num sistema que não dava a certos negros mais direitos do que aos animais. O seu empenho nessa luta e em ser eleito senador whig não surtia efeitos, visto o Estado não estar ainda preparado para eleger um senador anti esclavagista. O Partido Whig estava em decadência, e, em 1854, nasceu o Partido Republicano, que se opunha ao estabelecimento de escravatura nos territórios recém-adquiridos, o qual atraiu a preferência de Lincoln, enquanto alguns Estados do Sul começavam a retirar-se da União. Nas eleições que se seguiram foi James Buchanan o vencedor, por pequena margem, mas o Partido Republicano conseguiu eleger o governador de Illinois e 4 dos 9 deputados, entre os quais Lincoln. Poucos dias depois da eleição, levantou-se uma enorme polémica sobre as decisões de tribunais que retiraram a liberdade ao ex-escravo Dredd Scott que tinha adquirido a liberdade ao vir de Mississippi para Illinois com o seu patrão, onde adquiriu a liberdade, por aí não se reconhecer a escravatura, e, pela morte do patrão, regressou a Mississippi onde havia escravatura. Ao cabo de 9 anos de debate jurídico foi-lhe negada a liberdade por decisão da Suprema Corte de Justiça. Lincoln declarou, num discurso na Assembleia, que a decisão da Suprema Corte estava errada, devia ser revogada e tudo faria nesse sentido dentro das suas capacidades e funções.

Houve luta tenaz entre Lincoln e Stephen Douglas para a eleição para senador por Illinois; sendo Douglas favorável à escravatura, venceu a eleição. Todavia, a polémica persistiu e se agudizou com a condenação e execução de um abolicionista, John Brown, responsável pela revolta de negros e morte de um perfeito, o qual se transformou num mártir pela causa da abolição da escravatura.

Numa disputa eleitoral posterior, Lincoln foi eleito Presidente dos EUA, o que aumentou a determinação do Sul para a secessão, proclamada no ano seguinte, sob a designação de Estados Confederados da América, sendo chefe do Governo Jefferson Davis. No seu discurso de posse, Lincoln precisou, para acalmar os ânimos, que, como prometera, não iria interferir na escravatura nos Estados onde ela já existia, mas isso não impediu a guerra entre o Norte e o Sul.

Na guerra civil que se seguiu, o Norte tinha vantagem numérica: os 22 Estados da União tinham 22 milhões de habitantes, enquanto os do Sul (incluindo Virgínia, Carolina do Norte, Tennessee e Arkansas) tinham 9 milhões de habitantes, dos quais 3 milhões eram escravos. O Norte tinha também um sistema agrícola mais avançado, mecanizado, indústria pesada mais desenvolvida, mais vias férreas e a marinha era muito superior. No entanto, as tropas do Sul travavam luta no seu território e os seus oficiais, liderados pelo General Lee, o mais famoso e experiente do país, eram muito orgulhosos e leais à causa sulista.

A guerra civil americana foi tremendamente mortífera, destrutiva e incapacitou muitos homens. O país perdeu 618.000 soldados, o equivalente ao total das mortes em todas as outras guerras dos Estados Unidos, incluindo a do Vietnam, numa população de cerca de 31 milhões de habitantes. Não me vou deter nas vicissitudes da guerra civil por me interessar, fundamentalmente, entender a luta anti esclavagista, o sofrimento e as injustiças sofridas pelos escravos negros e o ambiente em que teriam vivido os nossos emigrantes.

No início da guerra, o Presidente Lincoln evitou incorporar negros no exército, com receio que certos Estados esclavagistas, mas leais à União, se rebelassem e juntassem aos do Sul, além de achar que os sectores moderados do Norte não estavam intelectual e emocionalmente preparados para uma mudança tão radical. Com o tempo, as pressões favoráveis a uma declaração aberta contra a escravatura, foram aumentando até porque a Inglaterra estava em vias de reconhecer a Confederação como nação independente, visto a União não ter ainda declarado abertamente, como principal objectivo da guerra, lutar contra a escravatura. Um dos líderes abolicionistas, Frederick Douglass, jornalista negro, convenceu Lincoln com argumentos convincentes a mudar de rumo, lembrando-lhe que os negros eram a chave da situação, o pivô em torno do qual girava essa guerra civil. Lincoln esperou uma melhor oportunidade para mudar de rumo, a qual apareceu em 1862 com uma derrota do exército do Sul do General Lee e a retirada deste de Maryland. Proclamou então que a partir do 1º de Janeiro de 1863 “Todas as pessoas tidas como escravos serão livres para sempre”. “Se meu nome algum dia ficar na História, será por este meio”, confessou Lincoln, mais tarde.

À medida que várias regiões do Sul retornavam ao controlo federal, sua população negra passava para o lado da União. A pouco-e-pouco, os negros passaram a integrar o exército. No fim da guerra civil, 200.000 ex-escravos teriam servido no exército da União como soldados, marinheiros e trabalhadores braçais.

As eleições que se seguiram antes do fim da guerra foram renhidas por o oponente de Lincoln ser um general do Norte, importante na victória da guerra civil; duvidava-se que Lincoln pudesse vencê-lo. Um expediente utilizado foi terem convocado os soldados para a votação, o que permitiu a victória de Lincoln. A 31 de Janeiro de 1865, a Câmara dos Deputados aprovou a 13ª Emenda à Constituição, abolindo para sempre a escravatura nos Estados Unidos. Lincoln, apelidado “Libertador Presidencial de milhões de oprimidos”, considerou a 13ª Emenda como uma “grande victória moral”. No seu discurso de posse, falando da guerra civil concluiu que “esse imenso flagelo foi o preço que a nação teve de pagar, tanto o Norte quanto o Sul, pelos séculos de injustiça infligidos à raça negra”.

No fim da guerra civil, Lincoln deixou bem claro que ninguém seria punido, não haveria vinganças. “Que voltem para as suas fazendas e lojas, que jurem lealdade aos Estados Unidos, que estabeleçam os governos estatais e fiquem em paz”.

Quando o Presidente fazia planos, com a esposa e filhos, de viagens e passeios pelo país para se recuperar de tanto trabalho, canseiras e recompensar a família pelas suas ausências do lar, não lhe passava pela cabeça que iria ser morto com um tiro na cabeça, por um actor esclavagista extremista enquanto assistia a uma peça de teatro com a esposa.

 Para finalizar direi que ao longo da história houve muitas ocasiões em que os Estados Unidos foram tentados pelo lado negro da força e violência, sendo o genocídio dos índios, os primeiros habitantes da América do Norte, inqualificável; em defesa dos seus interesses actuaram de forma desprezível e moralmente condenável. Mas houve muito mais ocasiões em que agiram do lado certo, outras em que, agindo mal, achavam que estavam a fazer pelo bem. É por isso que, recentemente, o secretário de Estado da Marinha norte-americana, Richard Spencer, se demitiu, declarando: “Os nossos aliados têm de saber que continuamos a ser uma força do bem, e, por favor, tenham paciência connosco, enquanto passamos por esta época” – claro que se referia à época de Donald Trump.

Parede, Dezembro de 2019                                                             

Arsénio Fermino de Pina                       (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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