Abraham Lincoln e a abolição da escravatura negra nos EUA – 1ªparte

3/12/2019 01:47 - Modificado em 3/12/2019 01:47

Tenho uma foto do bisavô da minha mãe, de nome Pa Sabino, tirada nos Estados Unidos (EUA), datada de 1800, que me foi ofertada pelo parente Tomas Fermino Benrós, o que me fez presumir ele ter emigrado da ilha Brava, no século XVIII. Lembro-me de ouvir a minha mãe falar dele, mas pouco sei da vida desse meu antepassado. O facto despertou a minha curiosidade em conhecer o meio em que teria vivido nos EUA, bem como os nossos emigrantes, até porque viveu uma velhota, com a minha família, quando era delegado de saúde na ilha Brava, a quem chamávamos Ti Lota, desde a ilha do Fogo, na década de quarenta do século passado, que vivera nos EUA com o marido, de nome Frank, na segunda metade de 1800, regressando ao Fogo na velhice; moravam em casa própria com propriedade em redor, em S. Domingos, tendo o marido sido doente do meu pai, na altura delegado de saúde no Fogo. Após a morte do marido, os anos de crise devido à seca e por na altura os nossos emigrantes que regressavam dos EUA não tinham reforma, a Ti Lota, temendo morrer de fome, passou a viver com os meus pais, cedendo-nos a sua casa e propriedade. Foi a ama das minhas irmãs, que nasceram no Fogo, gestora da despensa e das empregadas domésticas durante todo o tempo em que viveu connosco, bem longo, até falecer com mais de 90 anos.

Na minha curiosidade histórica fixei-me no século XIX, não obstante saber que a emigração para os Estados Unidos começou no século XVII, segundo o nosso historiador A. Carreira, como repete o geógrafo francês e escritor Michel Lesourd no seu livro “État et Société aux Îles du Cap Vert”, Ed. Karthala. Eram marinheiros nos navios baleeiros da Nova Inglaterra (Estados Unidos, após a independência) que pescavam em águas de Cabo Verde  e se aprovisionarem em frescos, água e marinheiros, o que permitia que alguns destes cabo-verdianos ficassem nas terras do Tio Sam. O século XIX foi o século do Presidente Lincoln e interessa-me esse século por ele ter sido o primeiro presidente a interessar-se pela libertação dos escravos negros, interesse e empenho que levaram à guerra civil americana entre os Estados do Norte, abolicionistas, os do Sul, esclavagistas. Os nossos emigrantes para os EUA eram sobretudo das ilhas da Brava e Fogo, das primeiras a serem povoadas após a descoberta, e num segundo tempo, de S. Nicolau, povoada mais tarde. O século XIX foi aquele em que houve maior número de emigrantes. Os primeiros, de 1685, que eram marinheiros dos baleeiros, já se identificavam como cabo-verdianos e não escravos, até porque muitos eram fenotipicamente europeus ou mestiços, sabiam ler e escrever, instrução transmitida pelos missionários católicos para poderem entender as mensagens dos Evangelhos. Fixavam-se sobretudo nos Estados do Norte – Providence, Massachusetts, Pawtucket, nas cidades de New Bedford e Boston – pelo que não deviam ser hostilizados racialmente. O trabalho era duro, tipo braçal, pouco tempo lhes sobejava para outras actividades e para se instruírem, mas conseguiam amealhar algum dinheiro que lhes permitiam construir casa e comprar propriedades em Cabo Verde para o regresso na reforma. Não estranhavam a rudeza do trabalho porque ganhavam relativamente bem, o que lhes permitia garantir melhor vida no regresso à terra natal e não correr riscos de morrer de fome, como acontecia a muitos, nos anos de seca e penúria, por a chamada metrópole pouco se importar com essas mortes. Somente na década de sessenta, devido aos movimentos de emancipação das colónias é que Lisboa passou a tomar medidas que preveniam essas mortes (ver pormenores em “O Processo de Hermano de Pina – subsídios para a história da fome em Cabo Verde). Os emigrantes que podiam passar por brancos, faziam-no, os outros, mais tostados, viviam geralmente nos bairros periféricos em comunidade com os patrícios, evitando os locais frequentados por brancos racistas, escapando assim às formas mais vis de segregação racial.

A Ti Lota era mestiça escura e analfabeta. Conhecia algumas palavras e expressões inglesas e na nossa casa vivia como elemento da família. Fazia baked beans, chouriços e presunto aquando da tradicional matança de porco, nos meios rurais, e pão, pelo que presumo que teria sido cozinheira nos Estados Unidos. Gostava de nos contar histórias vividas nas terras do Tio Sam, de que já não me lembro. Do Pa Sabino praticamente nada sei, até porque nunca regressou à Brava, e certamente passou por branco nos EUA, pelo que não teria sofrido nenhuma segregação racial a que outros mais chamuscados estariam sujeitos.

Abraham Lincoln

Lincoln foi eleito presidente dos EUA em 1860, o que representou para os Estados do Sul um pretexto para a secessão. Vejamos como Lincoln aí chegou, os seus objectivos políticos e a vida nos EUA nessa época para podermos entender como viveriam os nossos patrícios aí. Nasceu em 1809 no Kentucky, para onde foram os pais e avós na primeira leva de pioneiros. Escreveu, mais tarde, que passava boa parte da juventude manejando um machado. O avô foi morto pelos índios. O pai teve vários tipos de actividades, e, à semelhança de muitos pioneiros, era analfabeto. Um primo recorda-se dele sempre a ler nas horas de descanso, romances, gramática inglesa, poesia, Bíblia. Aos vinte e poucos anos, já com as suas características físicas, 2 metros de estatura, seco e vigoroso, começou a dedicar-se à agricultura. Além de ser uma pessoa fisicamente fora do comum, tinha também qualidades mentais acima do normal. Escrevia poemas, lia Shakespeare e Byron; adorava matemática e geometria e interessava-se por Direito passando longas horas nos tribunais a assistir a julgamentos. Era céptico mas acreditava num Deus que controla o destino do homem.

De agricultor passou a guarda-livros, continuando estudar e a qualificar-se. A sua filosofia política baseava-se na Declaração da Independência que afirma categoricamente que todos os homens, independentemente da sua origem, têm direito à liberdade, a conseguir o que a sua capacidade permitir. Citava o slogan da Revolução Americana -“Todos os homens são iguais”-, não deixava dúvidas de que considerava o escravo negro um ser humano.

 Aos 25 anos de idade tornou-se whig cujos ideais progressistas lhe agradavam. Continuou a estudar por querer ter uma profissão, vindo a fazer exame, tornando-se advogado. Trabalhou na Assembleia Estatal durante 4 anos e os seus conhecimentos políticos iam aumentando. Durante uma sessão Legislativa viu-se diante de uma questão que o preocuparia pelo resto da vida: uma questão central para o futuro do país, a da escravatura dos negros. Lembrava-se sempre das palavras de Thomas Jefferson, 3º presidente dos EUA, inscritas na Declaração da Independência, “Todos os homens nascem iguais”. Jefferson, que ainda vivia, dizia que o enchia de pavor a questão da escravatura, “como um alarme de incêndio no meio da noite”.

Lincoln, apesar das histórias, do culto e das homenagens, ainda é uma figura misteriosa. Nunca foi totalmente compreendido. Pessoa difícil, movido por humores e conflitos, bastante solitário e reservado. Venerava o princípio da lei; no entanto, quando presidente, suspendeu certos direitos básicos garantidos pela Constituição Norte Americana. Alguns amigos achavam que não fazia tudo que era necessário para acabar com a escravatura nos Estados Unidos.

Parede, Dezembro de 2019 

Arsénio Fermino de Pina  (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

(Continua)

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