Da natureza dos políticos e do espectro partidário

12/11/2019 01:06 - Modificado em 12/11/2019 01:09

Opinião: Adriano Miranda Lima

Com alguma frequência, se ouve dizer que os políticos “são corruptos” e “são todos iguais”, discurso normalmente localizado em conversa de rua ou de café, mas dele servindo-se a extrema-direita para subsidiar a sua estratégia de pôr em causa a democracia. Este propósito de denegrir e descredibilizar a classe política das democracias ocidentais, principalmente na Europa, junta-se à oratória neofascista que explora um suposto sentimento de insegurança colectiva que desde logo é directamente associado às migrações, às minorias étnicas e às comunidades islâmicas.

Contudo, não se pode dizer que o fenómeno esteja a produzir grande efeito entre nós, como, aliás, ficou bem patente nas últimas eleições para a Assembleia da República. Se é certo que os dois partidos que se reclamam de um ideário de direita mais ostensivo – “Chega” e “Aliança Liberal” – conseguiram, cada um, sentar no hemiciclo um deputado, a verdade é que tanto um como outro conquistou apenas 1,29% dos votos. E seria falacioso e gratuito especular sobre um evolucionismo favorável a essa tendência.

Naturalmente que há políticos corruptos, mas não o são na sua grande maioria e nem são todos iguais. Por outro lado, bons ou maus, os políticos espelham as idiossincrasias pátrias e as circunstâncias do meio social de onde provêm, visto que o seu ADN identificativo é o do organismo nacional. A tendência para generalizar com base em casos isolados tem de ser rejeitada porque a generalização é perigosa e é mais nociva que o preconceito, uma vez que este pode ser derrubado com a atitude racional, ao passo que aquela conduz a crenças absolutas que, uma vez instaladas, não são fáceis de demolir. Vivendo em democracia, assiste-nos ao menos o dever olhar com respeito cívico para os que dão a cara e concorrem aos pleitos eleitorais, sujeitando-se a um contínuo escrutínio no exercício dos cargos a que se candidatam, e muitas vezes com devassa da sua vida privada. De resto, é hipocrisia pura querer avaliar os políticos e a política por um crivo moral ou moralista, porque se entra em terreno opaco onde não é fácil vislumbrar quem está em condições reais ou virtuais de estabelecer ou impor uma bitola classificativa. O importante é a clarificação ideológica, a escolha dos melhores cidadãos, e uma renovação da prática e do discurso políticos, banindo-se a insanidade de linguagens rasteiras e indignas em sede parlamentar e outros espaços em que se debatam ideias. É a única forma de regenerar a imagem da política e dos políticos.

O universo político português parece delineado e praticamente inamovível nos seus contornos essenciais. A emergência de forças de expressão minoritária fragmentadas nos extremos do espectro partidário não parecem abalar minimamente a área eleitoral do chamado “Centrão”, em que a tendência é incluir o PS, o PSD e o CDS, mas quanto a mim sem que haja actualmente razão para nele figurar o último. Tradicionalmente muleta do segundo daqueles partidos, o CDS perdeu muito com o nóvel estilo populista e de oposição sistemática da sua actual liderança, e hoje pouco mais lhe resta senão disputar o espaço político à direita com os seus actuais concorrentes extremistas. Entra pelos olhos dentro que a herança deixada pelos seus prestigiosos fundadores e militantes foi delapidada pela imaturidade e falta de lastro político e cultural dos seus actuais dirigentes.

Quanto ao “Centrão”, a saúde da nossa democracia só será garantida se for completamente irradiada a ideia de uma qualquer aglutinação ou convergência ideológica dos partidos que o enformam, pois seria o mesmo que reeditar uma espécie de “União Nacional”, o que naturalmente não é desejável. Talvez por partilhar essa percepção é que o veterano da política Santana Lopes fundou o seu partido “Aliança”, mas com resultados tão desastrosos que nem sequer conseguiu eleger um único deputado, ficando aquém de concorrentes minoritários cujos líderes eram praticamente desconhecidos. Deste modo, será importante que o PS se afirme cada vez mais como partidário de um socialismo democrático, ou social-democracia, não importando a precisão do jargão político, e que o PSD não tenha rebuço em identificar-se como o partido da democracia liberal que genuinamente é, despindo o adereço social-democrata que nunca se ajustou ao seu feitio nem parece ser do agrado dos que actualmente disputam a liderança a Rui Rio. Só uma real diferenciação ideológica dará sentido à alternância na governação, ainda que se possa sempre invocar o efeito condicionante de factores externos nas políticas macroeconómicas.

Com o actual elenco governativo, e conforme o seu programa, o PS vai ter de encontrar a linha de equilíbrio entre uma justa e condigna distribuição dos recursos disponíveis e a criação de condições materiais e psicológicas para a sua produção, o que não será fácil porquanto uma coisa é a política no seu real e outra é a política em artes de teatrologia.

Adriano Miranda Lima

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