A força do poder e a hipocrisia (2ªparte)

5/11/2019 22:01 - Modificado em 5/11/2019 22:01

Vejamos o comportamento dos países ocidentais, particularmente os Estados Unidos, Reino Unido e Israel relativamente ao Próximo Oriente, América do Sul e Central, África e Ásia, a fim de podermos entender a animosidade de tantos povos conta os ocidentais, a reacção violenta destes povos e o que se passa actualmente no mundo.

O primeiro país a fornecer tropa aos Estados Unidos para o Afeganistão foi a Turquia. E porquê? Por gratidão, porque os Estados Unidos foram o único país interessado a prestar sólido apoio e a fazer vista grossa às impressionantes atrocidades cometidas no Sudeste da Turquia contra os curdos. Milhões de curdos foram expulsos das suas casas, destruídas aldeias e um número incalculável de pessoas foi morto e submetido a torturas bárbaras. Clinton facilitou o envio de armas para a Turquia, bem como a Alemanha, os dois países que mais financiam a Turquia do presidente Erdogan, na altura, primeiro-ministro.

Deixo de lado as barbaridades cometidas pelos Estados Unidos no Vietnam do Sul e do Norte, onde, no Sul, na década de sessenta, bombardearam todos os locais onde presumiam existirem guerrilheiros vietcongs e seus apoiantes, lançando gases venenosos à base de dioxinas, o produto de base do Agente Laranja, produtos que destruíram florestas e plantações, liquidavam pessoas no imediato e no futuro; no Norte destruíram barragens, pontes, estradas e edifícios, não se sabendo ao certo o número de mortos provocados. Utilizaram toda a sua panóplia de armas contra os vietnamitas, menos a arma atómica, mas foram vencidos e escorraçados do país por um povo pobre sem aviões nem helicópteros ou porta-aviões.

Em África, que sofreu todos os tipos de violência servida com molhos franceses, ingleses, belgas e portugueses, sem falar na tragédia da escravatura (aqui é bom saber que os primeiros esclavagistas foram os árabes, africanos também capturavam irmãos que eram vendidos aos esclavagistas europeus e árabes), do colonialismo, a política do Apartheid do regime racista da África do Sul que eliminou milhões de negros no país e nos países vizinhos, também na passividade do Ocidente que ia auxiliando e comerciando com o país; somente muito tardiamente, pela exigência dos países africanos que ganharam a independência, foram impostas sanções que facilitaram a libertação dos presos políticos, incluindo Mandela, que, sem vinganças, estabeleceram um novo país plurirracial. A destruição da Líbia com morte de Kadafi levou a que a Líbia se tenha transformado numa Somália, sem rei nem roque, local de treino dos extremistas islâmicos que estão criando graves problemas no Mali, Burkina Faso, Níger e Chade e se vão espalhando pelo continente. Os extremistas islâmicos do Boko Haram (=a educação ocidental é pecado) já mataram cerca de 27.000 pessoas e provocaram a fuga 3 milhões de habitantes desses países africanos.

E, no Próximo Oriente? O que se passa com a ocupação de territórios da Palestina habitados antes por palestinos e judeus? Havendo, como vimos, leis internacionais que proíbem isso e países encarregados de aplicar as respectivas sanções, como se explica que desde 1967 persiste esse crime, incluindo colonatos com colonos israelitas protegidos pelo exército israelita, muros de separação, destruição de culturas palestinas, e, diariamente, toda a casta de arbitrariedades impedindo a criação do Estado Palestiniano? Simplesmente porque os Estados Unidos apoiam incondicionalmente Israel. Sem o apoio deste tipo, Israel jamais procederia como vem fazendo; apoio em dinheiro e material militar, e a nível das Nações Unidas com o seu veto quando aparece alguma moção que eventualmente possa prejudicar o terrorismo de Estado de Israel. Todas as vezes que há possibilidade de acordo com os palestinos, os Estado Unidos resolvem dirigir o “processo de paz”, uma tática para arruinar qualquer possibilidade de acordo.  É bom esclarecer que os árabes com a nacionalidade israelita têm sido tolerados; ultimamente foi-lhes retirada a cidadania por decisão do actual primeiro-ministro Netanyahou, o que está criando sérios problemas por haver outros povos, como os drusos, não muçulmanos, com cidadania israelita que também a perderam e vinham vivendo pacificamente no país. Só beneficiam dos direitos de cidadãos os judeus puros. O governo israelita continua a querer criar bantustões na Cisjordânia, semelhantes aos da África do Sul do Apartheid.

Saddam Hussein foi, durante largos anos muito bem visto pelo Ocidente, sobretudo pelos Estados Unidos. Usou armas químicas de destruição maciça contra os iraquianos curdos, e nada lhe aconteceu por ter tido apoio de Bush pai e dos britânicos, por interesse petrolífero, visto o Iraque ser o segundo maior produtor mundial de petróleo. Somente quando Saddam, bem enganado e iludido, resolveu ocupar o Koweit, aí, por a família Bush ter grandes interesses nesse país, caiu-lhe o Carmo e a Trindade de riba. Bush pai ainda poupou o homem, depois de dominar o país, mas o filho quis completar o trabalho do pai, o que levou à morte do ditador e a extinção das forças armadas do país, o que foi uma grande asneira, visto elas terem ido fortificar o Daech (Estado Islâmico) em formação, baralhando todo o sistema do Próximo Oriente, tanto no Iraque como na Síria, e também no Líbano e Jordânia com a chegada de refugiados em grande número, com reflexos na Europa, sobretudo na Grécia e Itália. De assinalar que a França de Chirac não aprovou a invasão do Iraque e liquidação de Saddam, precisamente por, na companhia da Rússia, beneficiar do petróleo iraquiano.

Há algo relativo à invasão e matanças em Timor que nunca vi escrito ou falado em Portugal. O Japão protegia tanto a Indonésia que tudo fez para evitar testemunhos nas Nações Unidas que comprometessem a Indonésia aquando das atrocidades cometidas em Timor. A Indonésia é uma fonte de recursos tanto pata o Japão como para os Estados Unidos. Ainda estamos lembrados do golpe de Estado contra Sukarno e a subida ao poder de Suharto, com eliminação física de tudo que fosse de esquerda, por esquadrões da morte dependentes das forças armadas, que utilizavam listas de pessoas a eliminar fornecidas pela CIA.

A acção do governo de Israel na Palestina é mesmo de agressão pura que devia ser tratada como crime à semelhança dos crimes julgados em Nuremberg. Aí os americanos deveriam também ser julgados, juntamente com os israelitas, segundo opina Chomsky, porque sempre os apoiaram e sem esse apoio havia muito tempo que o problema da Palestina tinha sido resolvido. É difícil contabilizar os crimes cometidos por Israel. Em 1985, por exemplo, um carro armadilhado foi colocado à saída de uma mesquita matando 80 pessoas e ferindo duzentas e cinquenta. As pistas conduziram à CIA e os serviços secretos britânicos. Outro acto terrorista atingiu Tunes, uns meses mais tarde, bombardeado por aviões israelitas, matando cerca de 75 pessoas, tunisinos e palestinos civis. A Esquadra Americana estava nas imediações e detectou os aviões israelitas mas não avisou a Tunísia do facto. O secretário de Estado americano Shultz felicitou Israel por esse acto bárbaro. Outro acto terrorista – terrorismo de Estado – passou-se no Sul do Líbano, que provocou enorme mortandade. E depois interrogam-se porque os muçulmanos odeiam os americanos, ingleses e israelitas. Foi por essa altura que apareceu o primeiro homem-bomba muçulmano, isto é, muçulmanos com coletes com explosivos que explodem no meio de forças israelitas e americanas ou de civis dessas nacionalidades. Obviamente que ninguém aprova ou defende tais actos, mas quem não tem cão (poder e força), caça como gato.

Na década de 90 ao ano 2002, no regime do Presidente Clinton, a Turquia levava a cabo uma autêntica guerra contra os curdos, que constituem quase um quarto da população turca, concentrados no Sudeste, calculando-se que essa guerra tenha provocado cerca de 3,5 milhões de refugiados e cinquenta mil mortos. Foi precisamente por os Estados Unidos terem continuado a fornecer armas à Turquia e a fechar os olhos a esse tipo de terrorismo de Estado que a Turquia de Erdogan, em reconhecimento, forneceu tropas para o Afeganistão.

Chomsky esclarece que falando do terrorismo de Israel inclui também os Estados Unidos, dado que tudo o que Israel faz é praticado dentro dos limites que os Estados Unidos apoiam e autorizam. Por isso, as atrocidades cometidas são americano-israelitas. Diz ainda mais: “Israel é um dos Estados que, tal como a Turquia, controlam militarmente a região do Próximo Oriente no interesse dos Estados Unidos. Os palestinos não oferecem nada; não têm qualquer poder, não têm qualquer riqueza e, por isso, não têm quaisquer direitos. Israel constitui uma base offshore para o poderio dos Estados Unidos”.

 Em 1967, Israel prestou um importante serviço aos Estados Unidos: esmagando o nacionalismo árabe, destruiu Nasser. Com a queda do Xá da Pérsia em 1979, Israel passou a substituir o Irão do Xá. O “Eixo do Mal” passou a ser os Estados Unidos, Israel e a Turquia, pertencendo este país à NATO. Embora não o declarem publicamente, os dirigentes dos Estados árabes ricos são, a certo nível, pró-Israel, porque percebem que Israel faz parte do sistema que os protege dos seus próprios povos. Nos últimos tempos, a Arábia Saudita e os Emiratos árabes unidos aproximaram-se bastante de Israel e da Turquia.

Mais recentemente, a invasão da Síria pela Turquia de Erdogan põe em causa os princípios fundamentais das Nações Unidas, mas como a Turquia goza da simpatia e protecção dos Estados Unidos, nada se fará que se assemelhe ao que aconteceu ao Iraque quando invadiu o Koweit.

Não me vou deter muito sobre o terrorismo de Estado praticado pelos Estados Unidos e seus vassalos no poder na América latina, dado que consideram esses países pertences seus, o seu quintal, onde põem e dispõem “jardineiros”, utilizam as melhores terras agricultáveis para as suas empresas do tipo United Fruit e apoderam-se (por privatizações) das melhores empresas nacionais. Golpes-de-estado apoiados pela CIA no Chile, na Nicarágua, El Salvador, Haiti, Colômbia, etc. Na Guatemala as barbaridades cometidas foram piores do que em Nicarágua. Os Estados Unidos ajudaram a liquidar a Teologia da Libertação que dava prioridade aos pobres. Destacados intelectuais e jesuítas foram assassinados pelas forças de elite armadas e treinadas pelos Estados Unidos. Em 1999 a Colômbia substituiu a Turquia como receptora de equipamento militar dos Estados Unidos. Um dos maiores crimes cometidos nesse país (Colômbia) foi a fumigação de extensas regiões, como uma guerra contra a droga, que destruiu culturas, matou gente e animais dos camponeses, forçando estes a abandonar as suas terras, posteriormente aproveitadas para exploração mineira por estrangeiros. Chomsky, consultando os arquivos secretos (top secret papers) publicados, deu-se conta de que estava protegido em Nova York um dos maiores criminosos – Emmanuel Constant – responsável pelo assassinato de cerca de quatro a cinco mil pessoas no Haiti, no princípio da década de 90, crimes por terrorismo da força paramilitar, dependente das forças armadas, quando Bush e Clinton apoiavam a junta militar do Haiti.

Afinal, vivemos num mundo de hipocrisia dirigido por quem dispõe de poder, maior força e vem mentindo sem grandes consequências. A luta dos pobres chama-se terrorismo, o terrorismo de Estado dos fortes chama-se contra-terrorismo, guerra legítima, luta justa de autodefesa. Quem tem poder e força pode terrorizar à vontade que não é terrorismo, é contra-terrorismo; os fracos, se ripostarem, são terroristas. Não é de admirar que os povos subjugados, e até os outros povos já se cansaram dessa hipocrisia, desonestidade e corrupção; sendo maioritariamente trabalhadores, funcionários públicos e desempregados, já não se sentem identificados com os deputados, seus representantes, e governantes, deixaram de acreditar neles e nos políticos, alguns governantes autênticos sociopatas, o que explica a confusão que vai por esse mundo fora, no Chile, Argentina, Bolívia, Venezuela, Colômbia, Hong Kong, Brasil, Próximo Oriente, Espanha, Inglaterra, Itália, Grécia, Mali, Nigéria, Níger, Líbia, Iémen, Somália, etc. Não é de estranhar o populismo dominante que campeia por esse mundo fora que toma a forma de nacionalismo, o qual faz da nação um valor sagrado, o que é uma forma de idolatria, numa modalidade mais forte, como o nazismo e o estalinismo noutros tempos e o islamismo. Teme-se o futuro face às ameaças, aos riscos e aos desafios que temos hoje. Remédio para isso, desconheço. Há que inventar o futuro com os progressos da tecnologia e inteligência artificial para podermos excluir a revolução popular que leve tudo de roldão.

Parede, Novembro de 2019 

Arsénio Fermino de Pina Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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