A força do poder e a hipocrisia (1ª parte)

3/11/2019 23:19 - Modificado em 3/11/2019 23:19
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Arsénio de Pina

Quando se lê encontram-se factos e presunções espantosas. Nas minhas leituras evangélicas, encontrei uma famosa definição de hipocrisia, repetida pelo linguista, activista, escritor e professor no MIT, Noam Chomsky: “hipócrita é a pessoa que recusa fazer a si próprio o que faz aos outros”. Tomem nota porque é o próprio Chomsky, que é um dos mais conceituados intelectuais americanos, que o afirma: “ Todo o comentário e discussão sobre a chamada ´Guerra contra o Terrorismo` é pura hipocrisia, praticamente sem excepção”. O mesmo Chomsky dá-nos alguns exemplos incontestáveis no seu livro “Poder e Terror”, publicado em 2002, traduzido em 2003 em português, pela Ed.Inquérito, retirados dos Dossiers Secretos americanos, revelados ao público ao fim de 25 anos por força da lei americana, e do seu conhecimento pessoal; o jornal O Público também corrobora isso ao tratar da luta dos curdos, pelas penas de Álvaro Vasconcelos e Rui Tavares. Irei basear-me fundamentalmente no livro de Chomsky. Não obstante a minha curiosidade relativamente a estes assuntos e o conhecimento que já tinha de alguns, surpreenderam-me outros, razão por que achei de interesse apresentar aos leitores alguns factos.

Em 1987, as Nações Unidas (N.U.) aprovaram a sua mais importante declaração sobre o terrorismo, condenando-o em todas as suas formas, apelando a todos os países do mundo que fizessem tudo o que estava ao seu alcance que pudesse aniquilar essa terrível chaga. Não foi aprovada por unanimidade: as Honduras abstiveram-se, dois países votaram contra, Israel e os Estados Unidos. Quando os Estados Unidos votam contra uma resolução, é bem sabido que ela não é noticiada e desaparece da história, o que foi exactamente o que aconteceu à mais importante resolução das N.U. contra o terrorismo. O que levou os Estados Unidos a votarem contra foi um parágrafo da resolução que dizia que “nada na presente resolução pode, de forma alguma, prejudicar o direito de autodeterminação, liberdade e independência, como deriva da Carta das N.U. de povos forçosamente privados desse direito … particularmente de povos sob regimes coloniais e raciais, ocupações estrangeiras ou outras formas de domínio colonial, nem … o direito desses povos a lutarem por esse objectivo e procurarem e receberem apoio”.

As célebres Convenções de Genebra são de aplicação obrigatória e os Estados Unidos fazem parte dos países que as fazem aplicar. A Quarta Convenção de Genebra aplica-se aos territórios sob ocupação militar. Será que deve ser aplicada aos territórios ocupados por Israel? O mundo inteiro acha que sim; Israel diz que não; os Estados Unidos abstêm-se, desde Clinton. Claro que a abstenção dos Estados Unidos mata esse princípio, o que quer dizer que não se fala mais nele. Pelas Convenções de Genebra, quase tudo quanto os Estados Unidos e Israel fazem nos territórios ocupados é ilegal: colonatos, tropa, é tudo ilegal. Mas, como os Estados Unidos se abstêm, a ilegalidade mantem-se e Israel continua a receber apoio americano em dinheiro e material militar para poder garantir essa ocupação.

As acções de terrorismo na Américas Central, do Sul, no Próximo Oriente, na África do Sul, no Vietnam no passado, etc., não constam como actos de terrorismo na literatura académica. Constam não como terrorismo de Estados, mas como “contra-terrorismo”, ou como guerra justa, porque cometidos pelos Estados Unidos, Israel e países europeus. Guerra justa para trazer a civilização aos bárbaros do Sul. Não sei se ainda se lembram da justificação para a produção da bomba atómica pela França, feita pelo Primeiro-Ministro Debré, do tempo de de Gaulle, de a França necessitar dessa arma para se defender na eventualidade de invasão pelos Bárbaros do Sul.

Após o horror do 11 de Setembro, George Bush interrogou-se, “Por que é que eles nos odeiam, quando somos tão bons?” Todavia, já antes, uma investigação jornalística tinha concluído que dos árabes, somente os muçulmanos endinheirados – banqueiros, príncipes, advogados, gestores de filiais de multinacionais norte-americanas – é que gostavam dos americanos, europeus e até de Israel, o que era evidente, por serem protegidos pelo Ocidente contra a canalha pobre ingrata. Bush e os jornalistas de investigação esqueceram-se de ter em conta que os Estados Unidos e o Reino Unido apoiaram Saddam Hussein nas suas piores atrocidades e continuaram a apoiá-lo a desenvolver armas de destruição maciça, nada fazendo para o impedir de gasear os nacionais curdos. Saddam foi sempre poupado e nada lhe aconteceu quando conseguiu quebrar o domínio anglo-americano sobre os seus recursos petrolíferos, o que não aconteceu com outro regime (Irão) quando, em 1953, um primeiro-ministro competente e honesto (Mossadegh) tentou fazer algo semelhante, pois um golpe-de-estado patrocinado pelos americanos e ingleses o derrubou, voltando a governar o Xá que acabou com um sistema democrático constitucional que passou a totalitário, mas um bom amigo do Ocidente.

O presidente Eisenhower tinha reconhecido existir “uma situação de ódio contra os americanos, não dos governos, mas do povo”, como declarou. O Conselho de Segurança dos Estados Unidos explicou o fenómeno por existir na região a “sensação de que os Estados Unidos estão a apoiar regimes cruéis, brutais e corruptos e a bloquear os caminhos para a democratização e desenvolvimento, porque queremos manter o controlo sobre os recursos energéticos da região”, o que não era mentira e continua a ser verdade.

Foi o grande estadista Churchill quem declarou, referindo-se a gases asfixiantes que espalhavam o terror e não deixavam efeitos permanentes sérios na maior parte das vítimas, que se houvesse necessidade de salvar vidas britânicas, havia que os utilizar. Esta declaração de Churchill constava dos arquivos secretos revelados após a expiração do tempo de segredo, mas sabe-se que os segredos mais execráveis são apagados definitivamente antes de os dossiers serem publicitados.

Outro famoso e respeitado estadista, Lloyd George, felicitou o governo em 1932 por ter evitado, mais uma vez, qualquer impedimento ao uso do poder aéreo. Afirmou: “Nós insistimos em preservar o direito de bombardear os negros”, referindo-se à acção em África. Essas atitudes não se limitam aos Estados Unidos e Reino Unido; estendem-se aos belgas, alemães, holandeses, franceses ou portugueses, com “direito de exterminar a população indígena”, como aconteceu com os índios, nos Estados Unidos, e na Tasmânia, na Austrália, o que fazia parte do dever de civilizar e evangelizar as raças inferiores (Ferry).

Em 2001, o Conselho de Segurança tentou apresentar uma moção da União Europeia pedindo o envio de observadores internacionais para os territórios ocupados por Israel, a fim de evitar a violência. Os Estados Unidos vetaram a moção. De resto, o mesmo aconteceu quando Israel invadiu o Líbano e vinte mil pessoas foram mortas, houve um novo veto dos Estados Unidos, porque, para eles, só há violência e terrorismo quando alguém faz algo contra Israel. Pelo Tratado de Lausanne de 1923 para a resolução do problema das populações do Império Otomano derrotado na Primeira Guerra Mundial, os curdos, sendo maioritariamente muçulmanos e não árabes (são arianos) foram considerados turcos e as populações cristãs passaram a ser consideradas gregas. A população curda é de cerca de trinta milhões de habitantes, têm uma longa e antiga história e alguns professam uma região sui generis inspirada na religião hebraica e cristã. A maioria, 14 milhões, vive no sudeste da Turquia, os restantes espalhados pela Síria, Iraque, Islão, Arménia e outros países vizinhos. A Arménia teve a sorte de ser considerada uma nação; o mesmo poderia ter acontecido aos curdos por terem uma língua comum, rica história, hábitos e costumes diferentes dos turcos e árabes, mas ninguém se importou com eles e continuam apátridas.

(Continua)

Parede, Novembro de 2019

Arsénio Fermino de Pina (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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