Como a China lucra com o boom dos telemóveis em África

3/11/2019 21:18 - Modificado em 3/11/2019 21:19

Cada vez mais africanos usam um smartphone. Calcula-se que em 2021 haja mais de 900 milhões dispositivos no continente. Os chineses são os que mais lucram. Mas empresas africanas preparam-se para lhes fazer concorrência.

Créditos: picture-alliance/AP Photo/B. Curtis

“Não imagino a minha vida sem smartphone”, diz Lafu Baldé. O quotidiano do pai de família de 35 anos é passado nas ruas de Bissau, onde procura trabalho ocasional. Às vezes ajuda homens de negócios a trocar a moeda. Outras vezes faz recados para lojistas.

“Uso o meu smartphone para me manter em contacto com os meus clientes aqui em Bissau, mas também com os meus amigos e conhecidos em todo o mundo. Para mim, o smartphone agora é quase tão importante quanto a eletricidade, água ou pão”, afirma Baldé à DW.

77 por cento dos africanos têm menos de 35 anos. Muitos usam smartphones. “Usamos telemóveis para fazer transferências bancárias, por exemplo. Compramos crédito móvel e enviamos por SMS para parentes e parceiros de negócios no país. Eles podem resgatá-lo em qualquer lugar”, diz Lafu Baldé. Hoje também é possível pagar a conta de eletricidade com um smartphone. Em algumas universidades pode-se fazer a inscrição online. Muitos serviços públicos e do Estado processam documentação na rede virtual.

Smartphones chineses à frente

O mercado de smartphones em África é altamente competitivo, mas poucos dispositivos são pensados para atender às necessidades específicas de clientes africanos. A empresa chinesa Transsion foi das primeiras a reconhecer isso, o que a ajudou a tornar-se líder no mercado africano nos últimos dez anos. Segundo informações da empresa, a Transsion Holdings já vendeu mais de 130 milhões de telefones Tecno e Itel em África.

“É assim mesmo que os smartphones têm de ser”, diz Lafu Baldé. Ele próprio comprou recentemente um telemóvel da Transsion: “Só custou 50.000 francos CFA (cerca de 76 euros) e tem tudo o que precisasmos aqui em África: o acesso às redes sociais mais importantes é pré-instalado, o dispositivo é robusto e a bateria dura vários dias em modo de espera. Só posso agradecer aos chineses por nos terem facilitado o acesso à Internet”. Além disso, os telefones Transsion têm menus de usuário em vários idiomas africanos e geralmente oferecem espaço para dois cartões SIM. Algo muito apreciado pelos clientes.

A Guiné-Bissau não é um caso isolado. Também no Senegal ou na Nigéria, o país mais populoso de África, dominam os telemóveis chineses. Os chineses são também líderes de mercado no segundo maior mercado da África subsariana, a Etiópia. A Transsion foi a primeira empresa não-africana a introduzir fontes amáricas e suporte pós-venda em amárico há quase 10 anos.

A fórmula chinesa para o sucesso

De acordo com informações do programa chinês da DW, poucas pessoas na China estão cientes do grande sucesso dos telemóveis Transsion no mercado africano. A empresa só abriu o capital em finais de setembro, e no primeiro dia na bolsa atingiu uma capitalização de seis mil milhões de dólares norte-americanos.

Segundo a equipa editorial da DW China, a Transsion começou a focar-se em África em 2008. E a estratégia da empresa teve um sucesso retumbante: em 2018 vendeu 124 milhões de telemóveis na África subsaariana. Hoje detém uma quota de mercado africano de quase 50%.

“A arma secreta da Transsion é o baixo preço”, diz o especialista chinês em tecnologia Wang Ting em entrevista à DW. A empresa também analisou cuidadosamente as necessidades dos utilizadores africanos e orientou os seus telemóveis nesse sentido. “Por exemplo, as câmaras da Transsion reconhecem rostos negros em situação de baixo contraste muito melhor do que as câmaras convencionais”, diz Ting. A equipa da Transsion está firmemente enraizada nos mercados africanos e continua a investir fortemente em investigação e desenvolvimento. A empresa chinesa continuará a dificultar a vida a potenciais concorrentes.

A nova concorrência ruandesa

Mas há um primeiro fabricante africano determinado em firmar pé no mercado de smartphones: a Mara Phone. Segundo o Governo ruandês, a empresa é financiada por Ashish Thakkar, um empresário do Dubai. No início de outubro, o Presidente de Ruanda, Paul Kagame, abriu na capital Kigali a primeira fábrica de smartphones produzidos em África. Apenas dez dias depois, seguiu-se a segunda unidade fabril, esta em Durban, na África do Sul.

Os Mara Phones são baseados no sistema operacional Android da Google, que, por exemplo, adapta o acesso a plataformas sociais às necessidades dos utilizadores africanos. Por enquanto está ainda prevista uma produção anual modesta de cerca de 1,2 milhões de aparelhos. Mas isso está prestes a mudar.

“O Governo ruandês apoiou ativamente desde o início este projeto de alta tecnologia para a África, feita em África”, diz Clare Akamanzi, da agência de desenvolvimento estatal ruandesa RDB. “Estamos entusiasmados com este projeto, porque facilita o acesso de africanos a smartphones poderosos.” Segundo dados da RDB, apenas 13% dos ruandeses têm um smartphone. “Estamos decididos a dar um grande salto em frente no desenvolvimento no nosso país e promover a mudança digital”, disse Akamanzi à DW.

O Ruanda está a fazer grandes progressos em termos de digitalização. Há dois anos, a administração pública colocou em linha uma plataforma chamada Irembo (portão), através da qual todos os cidadãos têm acesso digital a todos os serviços públicos, incluindo através de smartphones. “Por exemplo as requisições de bilhetes de identidade podem ser feitas online. Por isso é muito importante para nós que os cidadãos tenham smartphones para que possam usar os nossos serviços online”, diz Akamanzi.

Recarregar o telemóvel permanece um desafio

O interesse em smartphones “made in Africa” também cresce noutros países. “Ouvi falar dos novos telemóveis africanos de Kigali e estou muito curioso para saber quando chegarão aqui a Bissau. Fico orgulhoso de saber que também existe um telemóvel que é produzido inteiramente em África”, diz Lafu Baldé. Ele gostaria de comprar um telemóvel africano se a relação preço/desempenho fosse tão boa como a dos chineses. Mas chegou-lhe aos ouvidos que o dispositivo mais barato da Mara custa à volta de 130 euros, “o que é claramente demasiado”, diz Lafu Baldé.

O que Baldé precisa acima de tudo são baterias mais potentes. A falta de eletricidade continua a ser um grande problema, especialmente nas zonas rurais. “Muitas vezes, os meus parentes no interior do país têm que caminhar vários quilómetros para recarregar o telemóvel”, diz.

Agora, existem pequenos sistemas domésticos de energia solar que são uma solução prática para carregar telemóveis em áreas remotas e sem eletricidade. A empresa queniana M-Kopa vende estes sistemas no Quénia, Tanzânia e Uganda. Eles vêm equipados com os acessórios apropriados, como baterias, cabos de carregamento para todos os tipos de conexões de telefonia móvel, rádios com baterias recarregáveis e lâmpadas LED de longa duração. É um bom modelo de negócio, diz Lafu Baldé: “Em áreas remotas da Guiné, há pessoas que criaram o seu próprio sistema minisolar e ganham a vida a recarregar telemóveis e smartphones”.

Por: António Cascais/DW

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