Rui Águas: “Na convocatória haverá novidades e regressos” – Exclusivo

25/09/2019 23:55 - Modificado em 26/09/2019 00:07

Nesta  entrevista exclusiva ao NN, o selecionador nacional de futebol, Rui Águas, analisa diversas questões referentes à equipa de todos nós: falta de jogos amigáveis, renovação da seleção, regresso de antigos jogadores, formação e apuramento.

Notícias do Norte- A seleção nacional começa em novembro deste ano os jogos de apuramento para a CAN 2021. O facto de a seleção não ter aproveitado a pausa concedida pela FIFA para jogos de seleções, poderá vir a condicionar o desempenho da seleção nos primeiros dois jogos?

Rui Águas- Finalmente vamos disputar dois encontros amigáveis, muito úteis nesta fase de transição, onde é preciso experimentar novos jogadores e diferentes sistemas táticos. Quando se trata de jogos oficiais a margem de erro é muito curta e não nos permite esse tipo de experiências. O facto de não termos desde o mês de maio do ano passado jogos amigáveis não é bom, mas tem de se aceitar, devido as dificuldades económicas que nós sabemos que Cabo Verde e a Federação têm.

NN-O processo de renovação da seleção nacional é um dos pontos que sempre tem vindo a referir. Acredita que a falta de jogos particulares possa ser um entrave para que o processo de renovação seja feito da melhor forma possível?

RA- É uma questão sempre presente e que nós devemos ter em conta. Olhar para o imediato, mas olhar também para o futuro da seleção. O que me parece fundamental é não olharmos só para as idades, mas também para o momento que os diferentes jogadores atravessam, o seu rendimento e aquilo que possam ainda trazer à nossa equipa.

Para haver uma renovação mais geral, os jogadores mais jovens têm que mostrar que podem fazer melhor, e nós estamos atentos se o justificarem. A questão do nível competitivo onde estão inseridos é também algo que nos preocupa de facto.

Olhamos à volta e não vemos, nesta fase, muitas alternativas. Como tal, tentaremos equilibrar entre o lançamento de novos jogadores e o respeito pelo valor e utilidade que ainda têm os jogadores mais experientes. Vejamos o caso do Cristiano Ronaldo cujo rendimento, embora tenha já uma idade muito considerável, continua sendo aquilo que nós sabemos. Não faz sentido que quem tem um bom rendimento e quem compete num bom nível de repente deixar de servir só porque tem mais ou menos idade.

“A experiência é reconhecidamente importante tal como a vontade de continuar”

NN-A maioria dos atletas que ao longo dos anos foram crucias para o desempenho da nossa seleção já ultrapassaram a barreira dos 33 anos de idade. Nisto, acredita que a experiência destes jogadores poderá ser ainda determinante nesta qualificação?

RA- A experiência é reconhecidamente importante tal como a vontade de continuar. Por outro lado os abandonos são sempre algo marcante. São casos muito específicos e que devemos considerar individualmente. Por exemplo, o Fernando Varela comunicou- nos recentemente o fim da carreira internacional, porque tem problemas crónicos nas costas e nos sintéticos onde nós temos jogado e as viagens longas que temos feito, no caso dele acabam por ser muito pesadas. O Varela teve um grande trajeto na seleção, de sucesso e dedicação. Mas chegou a altura, segundo ele, e é perfeitamente legitimo achar que é altura de descansar e ter um percurso mais tranquilo e fisicamente mais fácil de enfrentar. Por isso a minha homenagem particular para ele e para outros jogadores que deram o seu esforço pela seleção nacional.

NN- Acredita que é desta que Cabo Verde voltará a marcar presença na prova rainha em África?

RA- Nós temos sempre aspirações de participar novamente. As pessoas às vezes esquecem-se da falta de condições que temos, mas o que nós não temos falta é de vontade de o conseguir e dar novamente uma grande alegria aos nossos adeptos.

Em relação há última qualificação, começar em casa com uma derrota é sempre penalizador e em África os jogos em casa são muito importantes. Nos outros cinco jogos que a mim dizem propriamente respeito, podíamos de facto de ter feito bem melhor. Vivemos algumas situações negativas que nos fragilizaram, mas que agora não faz sentido referir. Fiz e entreguei à FCF um relatório claro e objetivo, relativamente a situações que não podem acontecer e que acabam por prejudicar o rendimento desportivo. Agora o que realmente interessa é não repetir os erros neste novo ciclo.

“Há clubes que não ajudam, de todo, os jogadores em relação às suas seleções”

NN- Desde que está em Cabo Verde como tem analisado a evolução da formação de jogadores e a aposta na formação.

RA-O processo de formação, do qual falamos no último congresso realizado na cidade da Praia, é fundamental. É um projeto já antigo, interrompido não só pelas mudanças na direção da Federação, mas também novamente pela falta de recursos.

Temos o plano pedagógico estruturado e a noção da importância dos treinadores cabo-verdianos para o melhor desenvolvimento dos jogadores. Também a melhoria dos campeonatos locais é obrigatória para o melhor desenvolvimento dos jogadores, sendo uma luta que nos merece muita atenção. O plano existe, mas falta o mais importante que é dinamizá-lo. Julgo saber que o pior já lá vai e que as coisas estão a normalizar em termos financeiros. O investimento na formação poderá ser feito dentro em breve. É isso que espero.

NN- O apuramento já está à porta e neste momento é óbvio que já tem em andamento o processo de análise dos jogadores que vão integrar as convocatórias. Há novidades para a próxima convocatória?

RA- Haverá novidades, incluindo regressos. Os jogadores têm fases das suas carreiras mais felizes e menos felizes. Por isso é uma gestão que os próprios devem ir fazendo de acordo com o que julgam melhor para eles mesmos. Há clubes que não ajudam, de todo, os jogadores em relação às suas seleções. Ao contrário, pressionam e ameaçam os atletas, o que leva os jogadores a pedir dispensa pelo desgaste emocional e físico a que são sujeitos. Entendo que as coisas devem ser bem explicadas e que os jogadores que queiram de facto regressar e ajudar a sua seleção serão bem-vindas.

NN-Pelo início de época que Zé Luís está fazendo ao serviço do Futebol Clube do Porto, acredito que esteja “debaixo do olho” do selecionador nacional. Existe da parte da equipa técnica a intenção de chamar o jogador?

RA– Zé Luís como outros atletas cabo-verdianos de grande capacidade, são jogadores que nós temos logicamente de considerar. Para a convocatória de um atleta é necessário que ele esteja em um bom momento, que jogue num bom nível e que queira representar a seleção, e este é o caso do Zé Luís e o caso de outros jogadores que estamos a contactar, no sentido de fortalecer a equipa. No fundo é isso. A vontade de querer voltar e de contribuir é fundamental e obrigatória.

Há momentos em que a pressão dos clubes sobre os atletas se torna insustentável e difícil de contornar, bem como momentos mais difíceis que vão atravessando nas suas vidas pessoais. Conhecemos cada uma das histórias dos jogadores e em cada jogador está um homem, uma família. As pessoas por vezes criticam levianamente sem conhecer as verdadeiras razões que levam por vezes determinados atletas a pedir para não vir. Há momentos em que é preciso recuar, pelo menos temporariamente. É legítimo e deve ser respeitado.

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