Das energias renováveis

8/09/2019 20:32 - Modificado em 8/09/2019 20:32

Em complemento do artigo anterior Dja Nô Bsu? abordarei, mais uma vez, as energias renováveis e os progressos do continente africano na sua produção. No rol dessas energias, temos a energia solar ou fotovoltaica, eólica, das ondas do mar, hidro-electricas e as geotérmicas de que pouco se fala. Em Cabo Verde, dada a nossa fartura em vento e Sol, utilizamos a eólica e solar, com certo atraso, quando poderíamos estar quase autossuficientes no usufruto dessas energias, com grande poupança de combustível fóssil (petróleo). Segundo informações que me foram fornecidas pelo engenheiro Daniel Graça, as energias renováveis compartilharam, em 2018, com cerca de 20% da produção total de electricidade de Cabo Verde, sendo 18% eólica e 2% de origem fotovoltaica. O início da utilização das energias renováveis nas ilhas de Santiago, S. Vicente e Sal foi em 1985. Projectos eólicos tecnicamente maduros só foram executados em 1995 nas ilhas de S. Vicente (KW9), Sal e Santiago (KW9). Projectos significativos surgiram em 2010 – solar, na Praia, de 5.000 KW, solar, no Sal, de 2.500 KW, novamente na Praia, em 2011, eólico, de 9.350KW, 5.950 em S. Vicente, 7.750 KW, no Sal e 2.550, no Boavista. Os países árabes produtores de petróleo estão investindo intensamente nessas energias por saberem que o petróleo acabará um dia e necessitarem de manter o seu nível e qualidade de vida, utilizando, inclusive, energias renováveis na produção de água para consumo doméstico e agricultura a partir da água do mar.

Quando falamos de poluição, aquecimento global e suas consequências, referimo-nos ao uso e abuso dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gaz) em fábricas, automóveis, comboios, aviões e outros consumidores de energia fóssil. A acrescentar a esse tipo de poluição, o plástico – derivado do petróleo – que encontramos em todo o lado, incluindo no mar, onde já há mais plástico do que peixes, afectando também as aves que se alimentam de peixes, por confundirem o plástico da superfície do mar com peixe e o deglutirem ou darem aos filhos. A quantidade de anidrido carbónico no ar atmosférico já passou os limites que poderão ser geridos pela Natureza, o que vem agravando o clima, motivando alternâncias de frio e calor intensos, temporais, ciclones, subida do nível da água dos oceanos levando, num futuro próximo, ao desaparecimento de ilhas do Pacífico, cidades costeiras e grande parte de Bengladeche, chuvas torrenciais com inundações e deslizamentos de terreno, incêndios de florestas e redução da extensão dos glaciares, etc., tudo agravado pela destruição de florestas substituídas por culturas de rendimento e para pastagem do gado bovino, como acontece na Amazónia e nas florestas da Indonésia.

 Há países africanos que vêm apostando em grande em energias renováveis, com Marrocos à cabeça, com o seu imenso “Complexo Noor”, África do Sul, Argélia, Egipto, Burkina Faso e Tunísia, havendo também grandes investimentos em Djibuti, Senegal e Níger. A energia solar ou fotovoltaica cobre, em Marrocos, 42% das suas necessidades energéticas. A gigantesca estrutura fotovoltaica de Noor – a primeira fase a funcionar desde 2016 e a segunda fase prevista para 2020 – será a maior do mundo; prevê-se que em 2020, 52% das necessidades energéticas do país serão cobertas pelas renováveis. A componente eólica está operacional desde 2014.

A energia geotérmica depende da natureza do subsolo do país, sendo a Islândia o exemplo mais conhecido da sua utilização, e uma parte da África Oriental; perfurando a 1.500 ou 2.000 metros de profundidade atingem-se temperaturas da ordem de 250 graus centígrados, o que permite transformar a água em vapor a grande pressão e fazer funcionar turbinas que geram electricidade. Já há países africanos beneficiários desse tipo de energia, como o Quénia, com um potencial de 10.000 KW, Etiópia, com um potencial de 5.000, Djibuti, com 1.200 KW e Ruanda, com 7.000 KW. Nairobi já beneficia, desde 2018, com 700 MW. Desconheço a nossa potencialidade nesse tipo de energia, embora exista, devido à origem vulcânica de algumas ilhas. Contaram-me, numa visita feita a Santo Antão, que num dos furos na Ribeira Grande em busca de água, esta veio muito quente; receosos, taparam o furo. Na ilha do Fogo, creio que, na região de Chã das Caldeiras, obter-se-iam temperaturas elevadas a menos profundidade. Não há nenhum estudo significativo, segundo informação do Eng. Daniel Graça, sobre energia geotérmica entre nós. Devido ao elevado custo das prospecções e às incertezas quanto ao potencial existente, o Plano Director de Energias Renováveis não prevê nenhum projecto de energia geotérmica no horizonte 2020/2030; porque não utilizar a experiência chinesa, dada a excelência da nossa cooperação com a China?

A maior parte desses países está sendo apoiada pela China na construção de fontes de energias renováveis, apoio que oferece garantia por a China se ter empenhado a descarbonizar completamente a sua economia, começando pela electrificação da sua rede de transportes; num ano, na cidade de Shenzhen, todos os autocarros e táxis passaram a operar electricamente. Interessante é a China ter passado a favorecer a cooperação multilateral, em vez da unilateral, nos projectos de desenvolvimento africano, tendo como parceiros sobretudo a França e o Reino Unido, não rejeitando outros, até pela extensão do trabalho a empreender, tendo o Presidente chinês avisado os seus homólogos, no último Forum, em Pekin, que os investimentos serão unicamente para infraestruturas e instituições que beneficiem toda a população e não de luxo e elefantes brancos, como aconteceu com alguns empréstimos sem juros iniciais no passado.

Em próximo artigo falaremos da acção chinesa em África no apoio ao seu desenvolvimento, focalizado na criação de estruturas que potencializem o aproveitando dos seus recursos humanos e riqueza em matérias-primas.

Parede, Agosto de 2019                                                               Arsénio Fermino de Pina (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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