Dja nô bsu?

8/08/2019 00:32 - Modificado em 8/08/2019 00:32

Comemorou-se a 28 de Julho o Dia Nacional Português da Conservação da Natureza instituído em 1998 para, então, assinalar os 50 anos da Liga para a Protecção da Natureza, a mais antiga associação de defesa do meio ambiente portuguesa, um pouco mais cedo do que a criação da nossa Associação dos Amigos da Natureza (AAN), nascida em S. Vicente, que vem realizando obra de vulto na reflorestação de S. Vicente, adaptação de espécies animais e produção de rações alimentares para animais, entre outras actividades, iniciativa da sociedade civil apoiada pela carolice do eng. António Canuto (Shell), Filinto Martins, Adriano Brito (Dul), outros sanvicentinos e apoio técnico do Ministério da Agricultura.

Há cada vez mais vozes a proclamar que vivemos em estado de emergência ambiental com esgotamento dos recursos do Planeta, oficialmente declarado em Julho de 2019, o que quer dizer que já vivemos a crédito da Natureza, cujos juros são incalculáveis, do tipo dos juros cobrados pelos chamados Fundos Abutres, de que tratei num dos meus artigos.

Não obstante a evidência do esgotamento dos recursos naturais, do desperdício e dos efeitos devastadores do aquecimento global, há cépticos quanto às causas desses efeitos, que, em boa verdade, só defendem os seus interesses económicos, justificando-se haver sempre soluções tecnológicas, o que é um paradoxo por os progressos tecnológicos serem resultado dos avanços da ciência e não acreditarem nos cientistas que há muito vêm denunciando os desregramentos no uso dos recursos da Natureza sem as cautelas que o bom senso recomenda e a evidência exige.

Ninguém já duvida de que a causa de todo esse desregramento é da responsabilidade do capitalismo selvagem predominante que, para funcionar – a lógica capitalista – necessita que consumemos cada vez mais com enorme desperdício, o que não faziam os nossos avós e pais, que sabiam poupar e evitar desperdícios. Muitos dos que me lêm, os do meu tempo, se lembram de que quando jovens usavam os livros dos irmãos mais velhos e até as roupas que já não lhes serviam, e a nível rural, ou nos bairros periféricos das cidades, os restos de comida e da hortaliça, o farelo do milho da cachupa e do cuscuz iam para o tchuc ou a cabra no quintal. O que agrava mais tudo isso é a existência de líderes políticos do tipo do Trump, Putin, Bolsonaro, alguns da Europa vindos do Leste, traumatizados pelo comunismo da União Soviética, e os da extrema-direita da Itália vocacionados para o fascismo, que vêm destruindo tudo que de bom se fez no mundo no último meio século.

Chegámos a uma fase de destruição do meio ambiente, da biodiversidade, que, mesmo que se apliquem todas as recomendações e se abandonem as atitudes negativas, o mal já feito reserva-nos um futuro sombrio, com desaparecimento de algumas ilhas (no Pacífico), de países (por exemplo, o Bangladesh), grandes cidades costeiras, devido à subida do nível da água do mar devido ao degelo dos glaciares dos polos e montanhas. Onde irão parar as populações desses países e cidades, se actualmente alguns países europeus e os EUA põem obstáculos em aceitar imigrantes que fogem da guerra e da miséria nos seus países, guerra e explorações que o Ocidente provocou, tendo-se o Mediterrâneo transformado em mais um muro, onde já morreram centenas de milhares de africanos e árabes tentando chegar à Europa?

As soluções, conhecemo-las de longa data e raramente se aplicam por afectarem o crescimento económico de alguns países ricos cujo desenvolvimento lhes permitiria viver à grande mesmo com um crescimento zero e melhor distribuição da sua riqueza acumulada. Ninguém duvida ser imprescindível pensar e aplicar a reforma do sistema que se mostra nocivo à sustentação da vida no nosso Planeta. Para tal reforma necessitaríamos de cabeças com ideias como as de Erasmo, Thomas More, Lutero, Damião de Góis e Garcia de Orta, todas do Renascimento. Persistindo a política que vem sendo seguida, o mais certo é a interrogação do título passar a realidade (estamos tramados!).

Parede, Agosto de 2019

Arsénio Fermino de Pina (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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