Notas soltas em torno do conceito de tolerância

5/07/2019 16:00 - Modificado em 5/07/2019 16:00

Assunto cujo interesse não se esgota, mormente nos tempos actuais de intolerância e extremismos. Já dizia Voltaire que aquele que impõe a sua loucura por assassínios é um fanático e o que confunde visões e sonhos com realidades, um alucinado. A tolerância apareceu tarde na História, a última virtude entre as virtudes. Ela não se destina a substituir os bons costumes mas a acompanhá-los.

A tolerância está ligada à aversão (como veremos mais adiante) não sendo outra coisa que uma indulgência que pode ser inspirada pela simpatia, pela empatia, pelo saber-viver, uma benevolência verdadeira ou o desejo de viver em paz. A tolerância exigida em regime democrático vai além disso, por conter debate de opiniões. Na ausência de discussão, esquece-se, não somente dos fundamentos da opinião, mas, bastas vezes, também do seu próprio significado. Sem rival, a opinião é vazia de sentido; a crença que reina sozinha chama-se dogma, que é um poço fundo e escuro da vida espiritual.

Referi-me acima à aversão, que tem um primo, a repulsa, o grau superior da aversão; a repulsa, ao contrário da aversão, não é um movimento racional, é um reflexo que faz recuar, uma acção instintiva, primária, desordenada. A aversão, ao contrário, é consciente e deliberada.

 A Revolução Francesa reivindicou a tolerância como um bem positivo, não como uma simples concessão ao erro. Os deputados da Assembleia Constituinte inscreveram na lei o que a Enciclopédia tinha apresentado como “uma regra geral”: “Respeitai a inviolabilidade dos direitos de consciência em tudo quanto não perturbe a sociedade”.

O reconhecimento da liberdade de consciência, nascido nas Luzes, foi formulado da seguinte maneira: a liberdade de outrem em matéria de opinião religiosa deverá ter prioridade sobre o sentimento da verdade, mesmo das verdades ditas reveladas. É na Europa e na China onde há o maior número de ateus ou não crentes. O mundo que se liberta do fardo da transcendência permite a cada um viver segundo a sua consciência, permitindo os seus proveitos e prazeres. A apostasia e a blasfémia são consideradas crimes passíveis de pena de morte no Islão. Segundo Rushdie (autor dos “Versos Satânicos”, condenado à morte pelo ayatolah Khomeiny) afirmou, com certa razão, que onde não há crença não pode haver blasfémia, o que, se tivesse sido aceite pelos teólogos do Islão, ilibaria muitos condenados de condenação. Somente os católicos fundamentalistas e judeus ortodoxos é que se assemelham aos muçulmanos na intolerância religiosa.

Os protestos dos huguenotes (protestantes), perseguidos por Luís XIV da França, impuseram a ideia moderna de tolerância nas Luzes. Dois filósofos, John Locke e Pierre Bayle defenderam e publicaram, quase simultaneamente, trabalhos sobre a tolerância por volta de 1686. Voltaire, grande apreciador de Bayle, bebeu muito das ideias deste. Todos esses filósofos evitaram pôr em causa a existência de Deus, condenando o ateísmo, até porque, nesses tempos, isso era muito arriscado, punido pela Inquisição. A Igreja só admitiu a liberdade de consciência com o Concílio Vaticano II, e foi a República que pôs a Igreja no seu lugar, recorrendo à resposta de Jesus, “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

O Islão não reconhece a liberdade de cada um professar ou não uma religião, rejeitando opiniões de teólogos muçulmanos progressistas. No Paquistão, por exemplo, o ateísmo ou a conversão de um muçulmano a outra religião é punido com a morte. A questão do fundamentalismo islâmico põe-nos o mesmo problema enfrentado por Locke e Bayle no século XVII quanto ao Catolicismo: devemos tolerar uma religião intolerante? Obviamente que não, porque a bondade desarmada é um autêntico suicídio, mas, cautelosamente, abstiveram-se de o declarar. Se a Arábia saudita, o Paquistão e o Irão não permitem outras religiões e igrejas, possuindo até uma polícia chamada dos costumes para os fiscalizar, um código vestimentar imitando a vestimenta do profeta Maomé e controlando o comportamento das mulheres; porque tolerar, por exemplo, como acontece em França, onde existem 2.200 mesquitas, que em Paris e em certas cidades, algumas ruas fiquem intransitáveis porque ocupadas por muçulmanos a rezar às sextas-feiras? Se as mesquitas são insuficientes, porque não rezar em casa, em vez de duplicar o seu número, como estão exigindo, por haver financiamento ofertado pela Arábia saudita? A Noruega, por exemplo, rejeitou o financiamento da Arábia, visto este país não aceitar templos não muçulmanos.

O tratamento reservado às mulheres muçulmanas é degradante, aviltante, mesmo que a mulher diga que usa o véu ou a burka voluntaria e livremente, bem como roupas que tapam tudo que seja pele e cabelo (será que o muçulmano confunde cabelo com pintelheira?), que não se importa da exigência de ser acompanhada por um homem para sair à rua; isso não pode deixar de ser declarado uma forma de agressão, dado que a insanidade não faz lei. Os homens muçulmanos obrigam as suas mulheres a isso para significar que não querem viver como outras mulheres, o que é inteiramente falso: quando viajam para o Ocidente, é frequente mudarem de indumentária e retirarem o véu antes de desembarcarem. Um argumento do Islão para essas atitudes é evitar que a beleza ou exuberância da mulher provoque o homem e a sua líbido. O que o muçulmano deveria fazer é conter-se, como os outros homens, por não ser nenhum animal irracional. Devemos guiar-nos pela nossa consciência e razão que são insubstituíveis. Não há que condenar nem resistir a certas paixões, como se fazia da Antiguidade até ao século XVII, porque os progressos da neurociência nos garantem que as emoções, a afectividade, são essenciais para a constituição e o funcionamento da nossa vida mental como seres pensantes. Será que as muçulmanas são mais virtuosas do que as europeias, africanas, americanas e asiáticas? As suecas, por exemplo, lutaram durante anos para não usar soutien nas piscinas, obtendo a autorização legal em 2016, e as sul-africanas zulus sempre dispensaram soutiens.

A Igreja Católica eliminou a violência para levar à conversão, impor a fé ou punir, o que não aconteceu ao Islão. Interessante constatar que o fanatismo surgiu com as religiões monoteístas, pela sua intolerância quanto à existência de vários deuses, visto os politeístas serem tolerantes e até adoptarem deuses e costumes de outras religiões.

As ideias retrógradas que prevalecem no Islão e a barbaridade do extremismo islâmico e político têm a sua explicação, não, obviamente, justificação. A conversão do nacionalismo árabe em extremismo político e religioso teve início no Levante precisamente na região onde nasceu a Civilização Ocidental e a sedentarização dos humanos através do início da agricultura, há cerca de doze mil anos, da descoberta da escrita e do uso da moeda, há cerca de cinco mil anos O Egipto, a Síria, o Líbano e a Pérsia eram países onde viviam em perfeita harmonia muçulmanos, judeus, cristão e seitas, se respeitavam e admiravam as culturas de cada povo, onde escritores, poetas e artistas se manifestavam livremente. Toda a barbárie do extremismo islâmico se iniciou devido ao abuso do poder dos Ocidentais nessa região, e na Líbia, com o conflito israelo-palestiniano, a derrota dos árabes na Guerra dos Seis Dias, a queda do Xá da Pérsia, a implantação da República Islâmica do Irão, com o ayatolah Khomeiny, a invasão e ocupação do Iraque, o aparecimento do Daech e a imigração em massa de refugiados para os países vizinhos e a Europa.

Referi-me no último artigo intitulado “A Raiva dos Árabes num Mundo em Decomposição” ao nascimento do nacionalismo-populista chauvinista em certos países europeus quando já pensávamos, por experiências trágicas anteriores, que tinha desaparecido para sempre, conservando o ódio ao estrangeiro, ao imigrante, que levou ao Brexit inglês, ao Trumpismo americano, a um mundo de duros, partidários da força e da coerção que só vê inimigo no outro.

Parede, Junho de 2019  Arsénio Fermino de Pina (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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