A RAIVA DOS ÁRABES NUM MUNDO EM DECOMPOSIÇÃO (2)

27/06/2019 01:12 - Modificado em 27/06/2019 01:15

O comportamento do Ocidente relativamente aos árabes foi completamente diferente daquele consagrado à Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, que beneficiou com o Plano Marshall, a Coreia Sul e o Japão também fortemente apoiados. É bem provável que, se os árabes tivessem sido apoiado pelo Ocidente e obtido o que lhes tinha sido prometido após a derrota Otomana, do tempo de Laurence d´Arábia, eles tivessem aceitado sem problema a criação do Estado de Israel, até porque até aí as relações entre judeus e árabes eram perfeitamente cordiais, por serem primos semitas e viverem em harmonia. Se assim os ocidentais tivessem procedido, o Médio-Oriente seria um paraíso de paz e concórdia.

O Movimento de Libertação da Palestina (OLP), criado para expulsar os israelitas, por se considerar com direito a toda a Palestina, só conseguiu instalar-se no Líbano, tendo falhado a sua tentativa para ter uma retaguarda na Jordânia, por o rei Hussein –“ o pequeno rei” – se ter oposto decididamente contra, expulsando os elementos que aí já se tinham infiltrado. A vítima foi o Líbano, o que alterou completamente a vida no país do cedro com lutas intestinas e o exército sírio ocupando o país, por acordo com o governo. Ter em conta que Arafat e Hafez Assad detestavam-se, o que não facilitava as coisas ao governo libanês.

A animosidade árabe e muçulmana contra os americanos e os europeus tem a sua razão de ser. Devemos estar lembrados de que, em 1965-1966, do tempo do presidente Sukarno da Indonésia, o país com o maior número de muçulmanos e de orientação socialista, quadros do ensino, estudantes, artistas, jornalistas, sindicalistas, etc., foram massacrados, muitos com as respectivas famílias por suspeita de serem comunistas, após um golpe de Estado. Documentos revelados em 2017, confirmaram participação da CIA, que fornecia a esquadrões da morte listas das pessoas a serem eliminadas. O que o Ocidente estrangulou na Indonésia, em nome da luta contra o comunismo, foi a possibilidade desse grande país de maioria muçulmana moderada conhecer um futuro de modernidade, progresso, diversidade e pluralismo. Tudo resultado da obsessão americana contra o comunismo.

Injustiças e traições clamorosas cometidas contra os árabes e não nenhum atavismo desse povo ou a sua religião, explicam a raiva e ódio contra os europeus e americanos, pois outros muçulmanos interpretam o Islão de modo mais progressista, sem extremismos. Somente o desespero e a humilhação poderão explicar as barbaridades do extremismo islâmico. O que poderíamos chamar de revolução neoliberal de Margareth Tatcher e R. Reagan, essencialmente conservadora e de favorecimento dos ricos, contribuiu para o recuo de forças progressistas, das medidas que criaram o Estado Providência e o investimento na educação. A posterior implosão da União Soviética, o falhanço do comunismo e a mudança da política económica de Deng Xiaoping, louvaram a excelência e vitória do capitalismo sobre o comunismo e levaram à morte do sistema dirigista do centralismo democrático. Foi Reagan quem afirmou, “O Estado é o problema”, que havia que o limitar diminuindo as despesas com a educação, a saúde e os apoios sociais, ter um Estado mínimo e diminuir os impostos dos ricos. Com o tempo veio a provar-se que sendo “o Estado o problema”, como disse Reagan, sem Estado ou com Estado mínimo, portanto, sem o controlo do Estado, sem regulação da economia, há aumento do poder dos ricos, do número de pobres e de desempregados, portanto, cresce a desigualdade (publiquei recentemente artigo com o título “Desigualdade excessiva leva à revolução e mata”). As fracturas sociais causam, obviamente, injustiças obscenas como as que vemos na actualidade.

Essa desigualdade criada pelo neoliberalismo de rédea solta agravou e generalizou tensões identitárias, nacionalismos que afectam muitas sociedades humanas em diferentes países: EUA, Israel, Afeganistão, Paquistão, Polónia, Hungria, etc. O início dessa revolução conservadora foi em 1979, com Tatcher, Reagan e Khomeiny. Ter também em conta o chamado choque petrolífero que antecedeu esses acontecimentos, deu força e encheu de dinheiro as monarquias teocráticas do Golfo Pérsico, a Arábia saudita à cabeça e a Pérsia do Xa, este derrubado em 1979, com a proclamação da República Islâmica do Irão pelo ayatola Khomeiny, que amedrontou as monarquias do Golfo e Israel, e com razão, porque apoiou todos os movimentos subversivos armados como a OLP, Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, os houthis do Yémen e os que combatiam os russos no Afeganistão onde nasceu o Al Qaeda do saudita Bin Laden.

Nesse mesmo ano fatídico de 1979, um comando de militantes islâmicos sauditas assaltou a Grande Mesquita de Meca, que terminou num banho de sangue; 79 desses terroristas foram detidos e enforcados. Este facto levou a Arábia Saudita a tornar-se mais rigorosa no caso da vigilância, segurança e punição. Algo semelhante aconteceu em Teherão onde estudantes invadiram a embaixada americana e prenderam os funcionários, ocupação que durou 15 meses, tendo falhado uma tentativa militar para libertar os funcionários americanos, isso na presidência de Carter, o que lhe valeu não ser reeleito. Somente com Reagan é que os americanos presos foram libertados, no dia da sua tomada de posse, o que intrigou muitos observadores e deu motivo a especulações e acusações, presumindo-se que os EUA tinham um acordo secreto com os xiitas, até porque vendeu armas, em segredo, aos iranianos, dinheiro utilizado no apoio aos anti sandinistas da Nicarágua, na obsessão americana anticomunista, do que resultou um escândalo apelidado “Irangate”.

 De tudo que acabámos de relatar e de outras razões que podemos presumir com base nisso, é lícito concluir que entre os factores determinantes das mudanças, agravamento e turbulências políticas e morais que atingiram o mundo árabe desde a sua grande derrota em 1967, agravados por volta de 1979 com a revolução conservadora do Oriente e Ocidente e a partir do 11 de Setembro de 2001, fizeram derrapar todo o planeta provocando reacções em cadeia que, hoje, nos conduzem rumo ao desconhecido, muito provavelmente para o naufrágio.

Parede, Junho de 2019                                               Arsénio Fermino de Pina – (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

  1. Criolo

    Bom Dia Dr Arsénio.
    Excelente! Mt saúde e felicidades para o senhor.

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