A RAIVA DOS ÁRABES NUM MUNDO EM DECOMPOSIÇÃO (1)

24/06/2019 01:44 - Modificado em 24/06/2019 01:44
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Conhecia, por referência de outros autores, o escritor egipto-libanês Amin Maalouf; somente agora o li no seu extraordinário ensaio “Le Naufrage des Civilisations”, da Ed. Grasset. Como jornalista visitou grande número de países e viveu situações e épocas as mais diversas e complicadas, de que nos dá conta, tentando encontrar uma explicação para essas situações. Vivi algumas dessas épocas e situações cujas causas presumia com os dados de que dispunha, o que vim a confirmar através da excelente e objectiva descrição do escritor nestes ensaios. Não resisto à tentação de descrever como algumas se processaram, e as considerações que implicam no que se passa no dia-a-dia actual, resultado do extremismo islâmico desencadeado pelas injustiças sofridas, humilhações e traições cometidas pelos ocidentais.

Ao longo dos meus oitenta e tal anos vivi e presenciei, de perto e de longe, uma série desses acontecimentos que venho relatando e interpretando para os outros antes de prestar conta ao destino de todos os seres vivos. Não somente a minha vivência, mas de alguns outros que me merecem confiança e crédito. Sem pretender aterrorizar as pessoas que me lêem com certas perspectivas, irei dar conta aos leitores de algumas para que possam prevenir tragédias após o alerta e a tentativa de explicação.

O relacionamento entre os países árabes e os ocidentais começou a deteriorar-se por volta de 1936, quando a Inglaterra, detentora de uma enorme império, estabeleceu com o Egipto um acordo para colocar no Canal do Suez uma força militar, o que não causou grande escândalo, dado que a Itália de Mussolini tinha ocupado a Etiópia e havia a ascensão política e militar de Hitler na Alemanha. No fim da Segunda Guerra Mundial, o Egipto pediu à Inglaterra que retirasse as suas forças militares, por já não haver razão para tal ocupação. Esse grande estadista chamado Winston Churchill, admirado por todos pela sua determinação durante a Segunda Guerra Mundial, obcecado com a manutenção do Império Britânico e os interesses da Coroa Britânica, em vez de retirar as suas forças, aumentou-as, o que criou um ambiente de revolta nos egípcios. O que interessava a Churchill era preservar os interesses da Coroa Britânica, o que viria, também, a acontecer, mais tarde, na Pérsia, relativamente ao Primeiro-Ministro Mossadegh; como se veio a saber, convenceu os EUA a organizar um golpe de Estado para o depor, o qual teve consequências catastróficas a prazo. Mossadegh chefiava um regime patriótico com ideais modernistas e democráticos que queria defender os interesses do país. A justificação para o golpe de Estado foi que os conselheiros de Mossadegh tinham orientação comunista, uma autêntica fábula.

A revolta no Egipto contra os ingleses foi aumentando com actos de sabotagem e destruição de bens e instituições britânicos que tiveram uma resposta desproporcionada dos ingleses, transformando-se numa autêntica guerra, seguida de incêndio da parte central da cidade do Cairo, o que levou à demissão do Primeiro-Ministro egípcio e a transformação do jovem rei Faruk no bode expiatório dos revoltosos. Seis meses depois desses acontecimentos, os “Oficiais Livres”, comandados pelo coronel Gamal Nasser, apoderaram-se do governo, pondo fim à monarquia egípcia.

A deposição de Mossadegh, um moderado que defendia melhor retribuição ao país do rendimento da sua riqueza em petróleo e os acontecimentos no Egipto, contribuíram para a emergência do nacionalismo árabe na sua versão xenófoba e autoritária. Esse desprezo dos europeus e americanos pelos interesses dos egípcios e iranianos e o clima de rejeição criado, levaram à inimizade dos árabes e persas e à expulsão dos europeus e judeus do Egipto, por ordem de Nasser. Mais tarde, com o conflito israelo-palestiniano no Líbano, que era um paraíso de paz e harmonia entre povos e religiões, o país transformou-se num autêntico inferno dominado, durante anos, pela Síria do clã Assad. Nasser não era Nelson Mandela e a expulsão dos não egípcios prejudicou imenso o Egipto, por eles serem portadores de saber, cultura, experiência, contactos com o exterior e riqueza. De resto, o mesmo tinha acontecido em França no tempo de Luis XIV, em 1685, com a expulsão dos protestantes huguenotes, e na Península Ibérica com a expulsão dos judeus e também de mouros, tendo os judeus ido beneficiar a Holanda, Alemanha e Inglaterra mais tolerantes. Mandela, que tanto sofreu com o regime de Apartheid que o manteve preso durante 27 anos, teve a sabedoria para entender que o país perderia muito com a expulsão dos europeus e aceitou-os com os mesmos direitos dos negros, reconvertendo o exército e a polícia, o que deveria ter feito Bush filho, no Iraque, preservando a unidade e harmonia do país, em vez de ter expulsado os militares do exército e os elementos da polícia, o que os levou a integrar o Daech.

As pessoas expulsas do Egipto refugiaram-se no Líbano, onde a capital Beirute rivalizava com Cairo e já começava a suplantar a capital egípcia. O Líbano funcionou durante largas décadas como terra de asilo dos mal-amados do Médio-Oriente, â semelhança do Egipto até aos anos quarenta; o Egipto dessa época era um paraíso de harmonia. Até os sunitas e xiitas se entendiam de modo satisfatório, sem extremar as diferenças doutrinárias. Nasser, sunita, era casado com uma xiita. O mesmo já não se podia dizer da Síria, dado que teve pouco tempo de paz e harmonia. Já em 1949 sofreu o seu primeiro golpe de Estado.

Como antes esses países estavam sob o domínio do Império Otomano, vencido na Primeira Grande Guerra, tinham representações dos vários países europeus e dos EUA, vencedores dessa Guerra, devido a acordos desiguais, como, por exemplo, se algum inglês cometesse algum crime só poderia ser julgado na Inglaterra. Em 1964, a pedido de Washington, os militares americanos instalados na Pérsia (Irão) não podiam ser julgados nos tribunais locais. Chama-se a isso abuso do poder. Interessante é o Líbano nunca ter permitido a aplicação de tais acordos abusivos. Conastou-me que o mesmo acontece agora em Cabo Verde, com o acordo com os EUA, o que não deixa de ser intrigante nos tempos que correm. Nasser tomou posse do poder e aboliu o sistema monárquico, com o apoio dos Irmãos Muçulmanos. Contou num comício que o líder supremo dos Irmãos Muçulmanos lhe propôs o uso do véu no Egipto a todas as mulheres. A reacção da assistência foi uma gargalhada geral. Hoje isso seria impensável; nenhum líder político teria a coragem de contar isso e nem seria de esperar gargalhadas. Como sabemos, Nasser foi a grande esperança e orgulho do mundo árabe e muçulmano de lhes restituir a dignidade. Com o seu insucesso na guerra contra os israelitas, a desgraça da chamada Guerra dos sete dias de 1967, nunca mais apareceu ninguém que pudesse restituir a honra e esperança aos árabes. Todos esses ressentimentos negativos contribuíram para o extremismo islâmico e político que vivemos nos últimos anos. A derrota nessa guerra funcionou como o choque que os americanos tiveram na tragédia de Pearl Harbor, pior ainda, porque os EUA tinham recursos para superarem o golpe, o que não era o caso do Egipto, que ficou sem a força aérea destruída nos aeroportos e o exército teve de se render por não ter protecção aérea que permitisse cobertura para a sua contra ofensiva. O nacionalismo árabe deu, então, lugar ao islamismo político como ideologia dominante. A descida ao inferno tinha começado em 1948 com o nascimento do Estado de Israel e o não cumprimento da promessa dos britânicos após a Primeira Grande Guerra Mundial da criação de um reino árabe nos territórios conquistados ao Império Otomano. O desespero e a humilhação árabes teriam nascido com a derrota de 1967.

Os árabes tentaram recuperar-se da derrota de 1967 com o apoio dos russos em armamento, em 1973, altura em que obtiveram algum sucesso, mas tiveram de assinar um acordo – já no tempo de Sadate – visto os EUA terem feito gorar o sucesso com apoio maciço aos israelitas, o que agravou o seu ódio aos americanos.             [continua]

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