Mar de Cabo Verde é “parque infantil” de baleias-de-bossa

9/04/2019 00:06 - Modificado em 9/04/2019 00:06

A atual época de reprodução da baleia-de-bossa em Cabo Verde está a proporcionar momentos únicos aos biólogos e turistas e este ano contou com o regresso de um cetáceo que não era visto há 20 anos.

Este animal marinho tinha sido avistado pela última vez nas águas de Cabo Verde há 20 anos. Em março, o desenho do interior da cauda – uma espécie de impressão digital das baleias — foi reconhecido e o regresso festejado.

Kátia Lopes, bióloga da associação ambientalista Bios.CV, disse à agência Lusa que, para já, é impossível saber por onde andou esta baleia, nem o que a fez regressar.

Atualmente, existem 270 indivíduos identificados pelas associações ambientalistas que monitorizam a sua passagem pelas águas cabo-verdianas, local escolhido para a época da reprodução e, por isso, uma espécie de “parque infantil” por estes dias, onde as crias podem ser vistas, ao lado das mães.

Através destas visualizações, explicou Kátia Lopes, são registadas as caudas das baleias e catalogadas para a monitorização, que é centralizada em Boston, nos Estados Unidos.

“Não existem duas partes interiores de cauda da baleia iguais”, referiu a bióloga, que desta forma consegue seguir o rastro destes cetáceos, protegidos em Cabo Verde e a nível internacional, tendo em conta o número diminuto de indivíduos.

A baleia-de-bossa, de nome científico (Megaptera novaeangliae), escolhe os mares de Cabo Verde para a reprodução, depois de se alimentar na Islândia e Norte da Noruega. Pelo caminho, cruza os Açores.

Até agora, as águas junto à ilha da Boavista têm sido as preferidas destes cetáceos, mas as visualizações também acontecem na ilha do Maio e este ano, pela primeira vez, na ilha de Santiago, onde já se registaram algumas identificações.

Nesta altura da reprodução, e para protegerem as crias dos predadores e das águas mais fundas, estas baleias aproximam-se mais da costa, permitindo assim a sua visualização.

Por esta razão, está a crescer o turismo de “whale watching” (observação de baleias), mas os ambientalistas lamentam que este não esteja regulamentado.

No entanto, este negócio pode ser “um aliado” das organizações não-governamentais, como a parceria atualmente em curso entre a Bios.CV e uma empresa que permite aos ambientalistas saírem todos os dias para o mar, visualizarem e registarem os cetáceos, além de sensibilizarem os turistas para a necessidade de proteção destes animais.

Kátia Lopes sublinha a importância de estas empresas cumprirem as regras e respeitarem as baleias, pois caso contrário “elas deixam de escolher as águas de Cabo Verde” para a sua reprodução.

Uma baleia-de-bossa adulta pode pesar até 40 toneladas e ter 16 metros de comprimento, características que exigem “uma certa distância”, ironizou, explicando que esta deve ser de pelo menos 100 metros, se for uma mãe com uma cria, e de 60 metros, se estiver sozinha.

Nesta altura do ano, que é “o pico” da época da reprodução, têm sido vistas baleias jovens que provavelmente seguem o trajeto até Cabo Verde, não porque já estejam na época da reprodução, mas porque o grupo o faz.

Tem sido possível observar os jovens aprenderem o canto das sereias dos pais — só os machos “cantam” -, enquanto as jovens fêmeas seguem a mãe com o objetivo de aprender a rota que a levará mais tarde ao local de reprodução.

Segundo Kátia Lopes, com trajetos tão longos são também muitos os perigos a que estes animais estão sujeitos. A observação dos cetáceos tem permitido ver as marcas de colisão com os barcos, algumas muito graves, uma vez que este é um dos maiores perigos nos mares com que as baleias se confrontam.

A poluição também tem deixado as suas marcas nos cetáceos que com frequência ficam com pedaços de rede presos na cauda e barbatanas.

A regulamentação das atividades no mar, nomeadamente durante o período da reprodução, que decorre entre fevereiro e maio, permitirá, na ótica de Kátia Lopes, minimizar os perigos.

“As atividades náuticas, a velocidade dos barcos de pesca e dos serviços de observação para turistas devem estar sujeitas a regras, caso contrário as baleias-de-bossa vão-se embora”, disse.

Atualmente, “quase todos os dias se veem baleias-de-bossa nas águas de Cabo Verde”, afirmou a bióloga, especificando que quando sai para o mar em abril, tem 90% de hipóteses de ver baleias-de-bossa, uma percentagem que diminui para 60 a 70% em maio.

A visualização e monitorização das baleias-de-bossa junto à Boavista é um projeto que conta com a colaboração de parceiros oficiais como a Direção Nacional do Ambiente (DNA) e o Instituto Nacional do Desenvolvimento da Pesca (INDP) e internacionais como a Fundação Loro Parque.

A Bios.CV é uma organização não-governamental cabo-verdiana que tem como objetivos a conservação, o estudo e a proteção do ambiente, a promoção do desenvolvimento sustentável das comunidades locais, bem como iniciativas educacionais e culturais sobre a natureza e cultura de Cabo Verde.

Por Lusa

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