Cerca de 54 por cento das crianças em Cabo Verde crescem sem a presença do pai

2/04/2019 00:22 - Modificado em 2/04/2019 00:22
Francisco Tavares
Presidente da Associação Cabo-verdiana para a Proteção da Família – VerdeFam

O presidente da Associação Cabo-verdiana para a Proteção da Família – VerdeFam, Francisco Tavares, afirma que cerca de 54% das crianças em Cabo Verde crescem em casa num ambiente sem a presença do pai, figura crucial para o desenvolvimento dos filhos, particularmente, na entrada da adolescência, onde existem vários problemas de comportamento.

Conforme Francisco Tavares, em declarações a Agencia Cabo-verdiana de Noticias, sobre o papel que o pai exerce na triangulação pai-mãe-filho na sociedade que atualmente, conforme disse, está cheia de riscos e onde se torna indispensável examinar o impacto dessa ausência no desenvolvimento psicológico, intelectual e comportamental de uma criança ou adolescente.

“É um tema que desperta especial interesse nos dias de hoje, devido à modificação da estrutura familiar atual, em que se observa a crescente ausência do pai. As principais teorias do desenvolvimento baseiam-se no modelo de família convencional e, possivelmente, as novas configurações familiares repercutem nas relações interpessoais e intrapsíquicas, tornando este tema relevante”, disse.

O mesmo garante que a autoridade paterna é essencial “para que as crianças saibam que há limites e para que tenham referências”. Quando isso não existe o papel do pai fica por ser exercido e é mitigado em parte pela mãe, mas a parte importante da educação fica para a escola cuidar.

“Ninguém deve substituir a família. As crianças que crescem apenas com a mãe em casa ficam mais expostos a problemas na adolescência. A necessidade de se dinamizar um Instituto da Família, para cuidar dos problemas da família, já que a sociedade cabo-verdiana tem muita dificuldade de estabilidade no dia-a-dia da vida” aponta.

Sobre isso, o sociólogo Artur de Pina, segundo a mesma fonte, defende que a presença de ambos numa família “é que permite a criança viver de forma mais natural os processos de identificação e diferenciação”.

“Faltando a figura do pai, ocorre a sobrecarga no papel do outro, gerando um desequilíbrio que pode causar prejuízos na personalidade do filho. Para a criança, a ausência do pai significa que nada se interpõe entre ele e a mãe, mas quando esta começa a impor limites inicia-se uma guerra que acaba com problemas de reconhecimento dos limites e de aprendizagem de regras de convivência social”, declarou.

O comportamento dos pares e a ausência paterna vêm sendo associados como maiores índices de distúrbios do comportamento em adolescentes, assegura o sociólogo.

Por seu turno, a presidente da Associação das Crianças Desfavorecidas (Acrides), Lourença Tavares, considera que Cabo Verde necessita de leis que responsabilizem o pai, assim como existência de serviços e profissionais para fazer a mediação familiar.

Conforme realçou, existindo este serviço, os pais, mesmo não vivendo juntos, teriam um outro olhar sobre a responsabilidade que têm para com os seus filhos.

“A Acrides trabalhou muito essa vertente nos bairros de São Filipe, Achada Grande Trás e Tira Chapéu, pelo que defendemos a necessidade da existência de um serviço social e técnicos para mediação social em vista a trabalharem essa vertente nas comunidades”, disse.

Convidada a comentar o repto lançado por Francisco Tavares, quanto a um real funcionamento do Instituto da Família no país, Lourença Tavares diz apoiar as declarações do presidente da VerdeFam, mas realçou ainda que o Ministério da Família e a Direção Geral de Inclusão Social devem ter uma estrutura que vá ao encontro das famílias dentro das suas comunidades.

“Cabo Verde ratificou uma Convenção de Direitos da Criança que estipula que a fase de criança vai dos 0 aos 18 anos, mas com o regulamento de adolescência, muita coisa se perdeu, quando deveriam ser os pais a encaminhar os filhos a descobrir e a seguir a sua adolescência”, enfatizou.

  1. Dje Guebara

    Nada de estranhar porque aqui em america passa o mesmo.

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