Gostaria de ter nascido num país árabe?

14/03/2019 01:33 - Modificado em 14/03/2019 23:51
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Arsénio de Pina

Tendo trabalhado na Mauritânia durante dois anos, procurei informar-me, à semelhança do que aconteceu noutros países onde vivi e trabalhei, sobre a história do país, de o percorrer de lés-a-lés para me inteirar das suas potencialidades e do pensamento do seu povo. Daí nasceu a necessidade de me inteirar da religião aí praticada e das idiossincrasias do seu povo, razão por que, volta-e-meia tenho as religiões à perna. Na Mauritânia, com o Islão, por sinal não radical, relativamente tolerante. E volta-e-meia porque entre nós, já há muçulmanos vindos do continente africano, embora mais tolerantes do que os dos países árabes, mas que vão influenciando o cabo-verdiano a abraçar a religião do profeta Maomé iludidos na amorabilidade da religião.

Claro que eu, se tivesse nascido num país árabe, excluindo a Tunísia, só poderia ter tido a “liberdade” de ser muçulmano, e não agnóstico ou ateu, por esta liberdade não existir em terras árabes. Algo que sempre me intrigou no início, e vim depois a entender, foi que os árabes viveram séculos áureos de sabedoria e desenvolvimento em que até superavam os europeus em praticamente tudo – cultura, ciência e desenvolvimento – e descobriram a civilização grega, pagando aos judeus, com quem viviam em paz e concórdia, para estudar em profundidades essa civilização, que presentearam ao mundo, tendo, posteriormente, regredido no tempo, mormente a partir da sua expulsão da Península Ibérica no século XVI. Tiveram pensadores famosos cujos livros e pensamentos dominaram a Europa durante séculos – Averróis, Avicena, Abn Khaldun, entre outros – e, antes da existência do Islão, Cartago, que deu nascença, após a cristianização, a teólogos como Tertuliano e Santo Agostinho. A regressão árabe deveu-se ao domínio posterior do Islão arcaico, que, ao contrário do Cristianismo, que também viveu séculos de obscurantismo e barbaridades, evoluiu, excluindo o poder temporal da sua prática, confinando-se à espiritualidade religiosa; o Islão manteve-se inalterável sem ter beneficiado das influências do Renascimento, das Luzes, da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. Os cristãos evoluíram com o tempo adaptando-se, embora a custo e contrafeitos, às circunstâncias. O Islão, não, sendo a única religião em que aqueles com outras religiões ou sem religião, são inimigos que a sua fé aconselha a eliminar fisicamente. O Islão desconheceu a modernidade que eliminou a supremacia da religião sobre o Estado.

Diz-nos Hichen Djait, intelectual tunisino, citando Max Weber, que o capitalismo floresceu com o Protestantismo (Calvinismo), não no sentido de aforrar dinheiro pelo prazer de gozar dele, sem discutir os meios, mas pela vontade de Deus. É bem de ver que esta opinião não é consensual, embora seja uma parte da verdade praticada. O poeta sirio-libanês Adonis não atribui culpa ao Islão mas aos árabes, porque outros povos muçulmanos não árabes conseguiram libertar-se das pechas do Islão, vivem harmoniosamente com quem pratica outras religiões ou não professa nenhuma religião, como os africanos, indonésios, malaios e turcos; até árabes, como os tunisinos, mas isso graças a um líder carismático, Burguiba, que teve a coragem de separar a religião do Estado, pôr fim à poligamia e igualar os direitos da mulher ao do homem. O mesmo aconteceu com Ataturk, na Turquia, que até substituiu a escrita árabe pela romana. Tahar Haddad, uma das figuras gradas da Tunísia, antes da independência, que antecedeu a Burguiba, e também pugnou pela libertação da mulher, chegou a afirmar que via “um véu na face de uma mulher como um açaimo no focinho de um cão”.

Creio que os árabes permanecerão nesse impasse religioso enquanto não reformarem o Islão aceitando a existência de outras religiões e reconhecendo o direito de independência do Estado da religião. O Estado islâmico é um retrocesso à Idade Média. O islamismo político só se resolverá com drásticas reformas internas nesses países, a começar pela retirada do aparelho educativo das mãos dos religiosos, pela restauração da verdadeira democracia e a aplicação de reformas económicas profundas, como fizeram Burguiba e Kemal Ataturk. Verificar-se-ia, então, que o fanatismo no Médio Oriente se desmuraria como um castelo de cartas. Infelizmente, é o contrário que se vê: um Ergohan na Turquia a desfazer tudo quanto Kemal construiu, a valorizar o islamismo político, o rei, o príncipe herdeiro, outros príncipes, das centenas existentes, e os banqueiros da Arábia Saudita a cometerem crimes impunemente e a financiar movimentos terroristas, e o Ayatola da Pérsia a bloquear as acções tolerantes e progressistas do presidente da república eleito.

Hoje tudo se modificou por se ter privilegiado uma perspectiva diferente para uma leitura política da religião com os seus dogmas. Azar o dos árabes com uma religião somente viável na Idade Média, a Idade das Trevas, que se mantém imutável impedindo-os de entrar na modernidade. O tunisino Ali Abderrazig (1888-1947), corroborado pelo Prof, Adriano Moreira, afirmou que “o califado (o tal criado pelo DAESH, que existiu no passado longínquo) é uma instituição temporal, o Islão, uma missão e não um poder, pelo que se impõe a separação entre a religião e o Estado”, o que o clero e o poder actuais abominam. Sem essa separação e sem liberdade religiosa, os árabes continuarão a ser o que têm vindo a ser, quase uma nulidade quando vivem nas suas terras, mas diferentes quando libertos das limitações religiosas vivendo no estrangeiro. Os teólogos críticos do Islão só podem viver fora dos países árabes.

Parede, Março de 2019

Arsénio Fermino de Pina (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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