Da hipocrisia do nosso tempo

1/03/2019 00:55 - Modificado em 1/03/2019 00:57
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Arsénio de Pina

Vive-se uma época esquisita, em que predominam as notícias falsas (fake news) oriundas de individualidades e instituições antes respeitáveis que baralham a realidade e nos induzem em erros de apreciação; a comunicação social, que domina o mundo devido aos avanços da tecnologia, sobretudo a audiovisual, perdeu a sua respeitabilidade devido ao domínio das administrações sobre a independência anterior das redacções, que antes tinham liberdade, administrações dominadas pelos interesses de grandes empresas (multinacionais) a quem interessam grandes audiências conquistadoras de mais publicidade paga; administrações que eram fiáveis e prezavam a informação correcta e fidedigna à propaganda e informação enganosa; actualmente a administração investe mais no populismo, nos escândalos, nos horrores e desastres, na erotização da mulher, sobretudo no futebol, jogos e comentários que nunca acabam ocupando largas horas e todos canais televisivos, nas horas nobres de difusão, em detrimento dos programas de interesse real e educativos que passam para horas em que as pessoas já estão a dormir. E o pior de tudo isso é que a maior parte das pessoas já está de tal modo viciada, pela persistência de maus hábitos e pela falta de alternativa, que vai suportando toda essa patifaria escrita e audiovisual confundida com a realidade, até apadrinhada por comentadores comprometidos julgados idóneos, sujeitando-se os jornalistas a isso para não serem despedidos.

 Vejamos alguns exemplos de informações que levaram a decisões cujo móbil, bastas vezes, nos escapa e tiveram consequências desastrosas, embora não estejam servindo de exemplo para o predomínio do bom senso, mesmo depois de esclarecido o móbil.

 A invasão do Iraque, liquidação do seu presidente da república, Sadam, e destruição do país, baseou-se numa falsa notícia, a existência de armas de destruição maciça nas mãos de um ditador perigoso, que se comprovou depois ter sido invenção do Vice-Presidente Bush e de homens da sua confiança para se apoderar do petróleo iraquiano, cujo controlo escapava aos EUA visto o ditador ter passado a vendê-lo não obrigatoriamente em dólares mas em qualquer outra moeda. Também se dizia que havia que implantar a democracia no Iraque. Destruiu-se um país e criaram-se enormes problemas na região que permitiram, não a criação da democracia, mas o surgimento de extremistas islâmicos e do DAECH (Estado Islâmico) cavalgado sobre parte do Iraque e da Síria. Claro que o petróleo iraquiano passou a ser vendido em dólares e continua a pagar a despesa tida com a invasão.

A liquidação do ditador Kadafi e a destruição da Líbia foi obra do presidente Sarkozy, com apoio logístico dos EUA, por Kadafi também estar a vender o seu petróleo em qualquer moeda, aproveitando a chamada Primavera Árabe iniciada na Tunísia, depois do ditador ter saído do rol dos inimigos do Ocidente e sido recebido em França em visita oficial com todas as pompas de chefe de Estado. Só que Kadafi desmascarou Sarkozy antes de ser morto, confessando ter apoiado com dinheiro a sua campanha eleitoral. Também aqui não houve implantação da democracia mas uma somalização e domínio do país por milícias islâmicas e instalação de campos de treino de extremistas para diversas partes do mundo, sobretudo para a região do Sahel: Mali, Rep. Centro Africana e Nigéria.

 A liquidação do ditador da Síria, Bashar al-Assad, não poude ser levada a cabo por a Rússia, sua aliada, ter apresentado alternativa ao bombardeamento da capital do país, e o Irão propiciado apoio militar contra os contestatários do regime sírio, o que não agradou ao Governo de Israel, inimigo figadal do Irão. A luta limitou-se a combater o DAECH, que se tinha instalado em regiões desestabilizadas do país e do Iraque, tendo-se o exército sírio mantido firme ao lado do Governo sírio em luta contra os pseudo revolucionários sírios que tinham declarado querer implantar a democracia no país, quando, afinal, pretendiam instalar uma república islâmica, em substituição do regime sírio laico.

 Não seria muito melhor ter deixado em paz esses ditadores, procurando desestabilizá-los de outros modos, não bélicos, do que ter esses países destruídos, com sofrimento atroz das suas populações obrigadas a migrarem para outros países da região (Líbano e Jordânia) e para a Europa, perdendo todos os seus bens com inúmeros mortos vítimas dos bombardeamentos e das acções do DAECH. E dizia-se que toda essa luta era para levar a democracia a esses países, quando é bem sabido que a democracia não se exporta! Levaram, afinal, o caos à região, abrindo uma autêntica Caixa de Pandora.

Quem é que se preocupa com o que se passa no Iémen, exceptuando a Secretaria Geral das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários? A guerra aí existente é de índole religiosa, da Arábia Saudita contra o Iémen, com apoio dos EUA em material militar, tendo o governo do Iémen apoio do Irão. Milhões de iemenitas continuam a enfrentar condições terríveis, estimando-se que 85 mil crianças terão morrido de fome desde 2015. Dos 20 milhões de pessoas que precisam de ajuda para garantir alimentos, quase 10 milhões estão a um passo da fome, perto de 240 mil enfrentam níveis catastróficos de fome, e mal conseguem sobreviver, segundo um relatório da Secretaria Geral das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários. Vítimas, portanto, do bombardeamento da Arábia Saudita, essa monarquia teocrática cujo príncipe herdeiro ordenou a morte e o esquartejamento de um jornalista saudita crítico do regime saudita na embaixada do país na Turquia, que lá tinha ido para recuperar documentos para o seu casamento. Exceptuando a terrível notícia que ocupou a comunicação social durante algum tempo, nada aconteceu ao príncipe, não obstante as pesquisas americanas e turcas terem confirmado a implicação do príncipe no assassínio e destruição do cadáver. Imagine-se o que teria acontecido se fosse Maduro, ou o Yatola do Irão, a ordenar o mesmo a algum jornalista a fazer a cobertura da crise venezuelana ou de visita ao Irão! Esse tratamento privilegiado à Arábia Saudita por parte dos EUA deve-se a um acordo de longa data de o petróleo ser vendido exclusivamente em dólares, o que a OPEP aprovou, além de a Arábia Saudita ser o maior importador de material de guerra americano, o que é quanto basta para o Governo de Trump não se preocupar com esse crime.

As Nações Unidas lutam com grandes dificuldades para socorrer os iemenitas devido à escassez de recursos fornecidos pelos doadores, quando, para a Venezuela, há fartura de meios fornecidos pelos EUA e a União Europeia, mas levados pelos doadores, quando os EUA são responsáveis pelo bloqueio comercial e congelamento dos fundos venezuelanos depositados em bancos americanos, uma das causas da crise económica na Venezuela. Aceitar ajuda humanitária de inimigo não me parece muito curial. Por que não fornecer a mesma ajuda através da Cruz Vermelha Internacional ou a Secretaria Geral das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários, como sugeriu o historiador Fernando Rosas, que são organismos neutros? Por que não suspender o bloqueio económico para que o diálogo seja possível? Não se pense que defendo Maduro que é ditador igual a outros, que se poupam somente por serem amigos. Talvez assim Maduro aceite a ajuda, sem se sentir humilhado por aqueles que bloqueiam o país, não lhe permitindo vender nem comprar no exterior. Nem a Ex União Soviética, nem a Espanha e Portugal aceitaram o Plano Marshall, visto isso implicar o controlo regular pelos EUA da utilização dos fundos, o que esses países contestaram por isso brigar com a sua soberania, na realidade, por serem ditaduras e temerem a democracia. O assunto não é assim tão simples como o pretendem vender, ou talvez a resolução seja relativamente fácil na ausência de hipocrisia e na base do diálogo. Será que Maduro é mais ditador do que o príncipe ou o rei da Arábia Saudita, os presidentes do Sudão, da Guiné Equatorial e de outras paragens? Por que nada se faz contra esses últimos que desrespeitam os mais elementares direitos humanos?

Realmente, a extrema-direita já não é uma força marginal detestável, uma espécie derrotada. Está bem presente na Hungria, Polónia, Rep. Checa, Itália, Brasil e noutras paragens mais longínquas, apoiada ou tolerada pelo presidente da maior potência mundial e com boas esperanças de maior extensão, dada a passividade de outras nações.

Parede, Março de 2019                                                  Arsénio Fermino de Pina

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