A DESIGUALDADE EXCESSIVA LEVA À REVOLUÇÃO E MATA! (2ªparte)

20/01/2019 22:52 - Modificado em 20/01/2019 22:53
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Arsénio de Pina

A província do Kivu no antigo Zaire de Mobutu, agora RDC, há um minério raro, o coltan, mais precioso do que o ouro, utilizado em certas peças de aviões, telemóveis, computadores, smartphones e outros instrumentos sofisticados. Como o coltan fica a dez e vinte metros de profundidade em terreno friável, as galerias para o alcançar são estreitas, o que leva a utilização de crianças franzinas na sua exploração, morrendo muitas com o desmoronamento das galerias, havendo necessidade de raptar crianças nas vizinhanças para o efeito. O presidente Obama, tendo tido conhecimento dessa tragédia, proibiu a importação de coltan da RDC. Trump, ao chegar ao poder, revogou a lei de proibição de Obama, estando-se nas tintas pela morte das crianças de Kivu. “América first” é quanto basta; não importa se o Príncipe herdeiro da Arábia saudita manda esquartejar na sua embaixada na Turquia um jornalista incómodo, nem que a Arábia, que compra centenas biliões de dólares em armas, munições e aviões de combate aos EUA, esteja bombardeando o Iémen por motivos religiosos e políticos e milhares de crianças tenham morrido da guerra e de fome.

                As roupas requintadas, lindas T-shirts e sapatilhas vendidos no Ocidente em lojas de luxo, como Lacoste, Puma, Gucci, Guess, Tenezis, Adidas, Prada e muitas outras, são feitas em “zonas de produção” na China, Bangladesh, Filipinas e Indonésia, em edifícios com fábricas enormes construídos com pouca segurança e sem as mínimas condições higiénicas, onde milhares de raparigas passam horas e horas manejando máquinas de costura, por salários miseráveis e sem segurança social; em caso de acidentes essas multinacionais não são responsáveis, por o negócio de fazer pelo sistema de empreitadas executadas por naturais desses países. Somente em Bangladesh há cerca de 6.000 fábricas desse tipo. Em 2016, o salário mínimo legal era de 51 euros mensal (cerca de 5 contos CV). Segundo a Federação Sindical Asia Floor, seria necessário estabelecer um salário mínimo de 272 euros para assegurar o mínimo vital a uma família de quatro pessoas. Em 2013 o prédio Rana Plaza, uma velha fábrica de dez andares, desabou, na capital Daca, enterrando 1.138 pessoas no seu escombro. Nenhum responsável foi incomodado!          

                  A ordem capitalista do mundo é mesmo canibal. Não é de estranhar que povos explorados por essas multinacionais e os governantes corruptos desses países, que pouco se incomodam com a falta de estruturas condignas de educação e de saúde visto educarem os filhos no exterior e serem tratados nas melhores clínicas do Ocidente, migrem para os países do Norte. Veja-se o que se passa com os hondurenhos – as Honduras ficam a sudeste da Guatemala – que estão a caminho dos EUA, tendo de atravessar a Guatemala e o México para chegar às fronteiras da América do Norte, e também os sírios e africanos da região do Sahel que atravessam o deserto do Sahará para chegar à Líbia, onde muitos são escravizados, e atravessam o mar Mediterrâneo para atingir a Europa, morrendo aos milhares no deserto de sede e fome ou no mar afogados. Fogem dos seus países devido à guerra, a perseguições políticas e religiosas, à exploração, ao desemprego. Se o Ocidente deixasse de explorar infamemente os seus países, não protegesse os ditadores e não facilitasse a corrupção dos seus e de governantes, se auxiliasse na instalação de indústrias de transformação das suas matérias-primas e lhes vendesse equipamentos agrícolas para o desenvolvimento da sua agricultura, em vez de material bélico, seguramente que esses migrantes prefeririam viver nos seus países.

                Obviamente que essa ordem mundial do capital financeiro só pode funcionar com a complacência e a corrupção dos governantes dos países explorados, protegidos e mantidos nos seus postos pelos países do Norte que disso beneficiam. Aqueles que se opuseram a essa ordem foram fisicamente eliminados ou afastados por golpes de Estado preparados e apoiados, quando não executados, pelos serviços secretos dos países do Norte, como foram os casos de Lumumba, Sankara, Modibo Keita, Eduardo Mondlane, Moumé, Nkruma, Cabral, entre outros. Os ditadores viveram e vivem bem e morreram ou morrem de doença ou refugiaram-se, ou poderão vir a refugiar-se, noutros países levando com eles os cofres das finanças – Hissan Habré, ainda no Senegal sem ser condenado, Idi Amin, que se converteu ao Islão e fugiu para a Arábia saudita onde morreu na paz de Alá, Ali da Tunísia, refugiado na Arábia saudita e Mengistu, da Etiópia, na África do Sul.

Sociedade de consumo

                A sociedade de consumo é fundada sobre princípios simples: os seus membros são clientes incitados a comprar, consumir e substituir os bens antigos fora de moda por novos. Ao contrário de antigamente, os bens actuais são fabricados para durarem pouco tempo, avariando-se rapidamente. Veja-se a variedade de telemóveis existentes no mercado! Cada ano aparece novo tipo com mais uma aplicação. Novos desejos são criados, instalados nos cérebros dos consumidores. Para isso existe o marketing e a publicidade utilizando todos os tipos da comunicação social, os quais, de resto, na grande maioria, são propriedade de multinacionais e grandes empresas que limitam ao máximo a liberdade dos seus jornalistas e dispõem de comentadores políticos profissionais contratados, muitos pertencendo a escritórios de advogados, malabaristas da palavra que se encarregam de entreter os ouvintes com assuntos de lana caprina, horas e horas de futebol e de seus comentadores – a que chamo de catedráticos da bola – em todos os canais televisivos e de assuntos de treta. Esses comentadores são autênticos mercenários do marketing e da publicidade.

A destruição do meio ambiente

                Não me detenho nisto por já o ter tratado detidamente noutros artigos. A OMS informou que cerca de 60% dos casos de cancro são provocados pelos efeitos nefastos de um sistema ecológico desregulado ou de uma alimentação inadequada. Actualmente, as florestas tropicais só cobrem 2% da superfície da Terra, embora abriguem cerca de 70% de todas as espécies de vegetais e animais, tendo desaparecido, entre 1995 e 2015, 50.000 espécies. Além da destruição da floresta é o uso intensivo de pesticidas e o lançamento no meio ambiente de resíduos tóxicos a causa desses males.

A desigualdade na sociedade

 Segundo o BM, as 500 sociedades transcontinentais privadas mais poderosas, controlaram, em 2017, 52,8% do produto mundial bruto – mercadorias, brevets, serviços, capitais – produzidos durante um ano. Os dirigentes das empresas escapam a todos os controlos estatais, dos sindicatos e parlamentos. A sua estratégia é produzirem cada vez mais-valias, mesmo à custa do sofrimento humano. Afinal o que é isso de mais-valia de que se ouve tantas vezes falar? Um exemplo para se compreender melhor a safadeza das multinacionais: essas roupas e sapatilhas lindas e caras que compramos na Tenezis, Gucci, Guess, Lacoste, Adidas, Chico, entre muitas outras lojas, são feitas nos países pobres por empresas transferidas do Norte precisamente por aí os salários serem miseráveis, não haver protecção social dos trabalhadores e ninguém ser responsável por acidentes nem falências (geralmente fraudulentas) das mesmas, num sistema de subcontratação e empreitada. Os produtos confeccionados nesses países, que saem das fábricas por preços irrisórios, são vendidos no Ocidente com lucros fabulosos, imorais em função do seu custo real na origem. É a esses lucros obscenos, portanto, à diferença entre o preço à saída da fábrica e o que o cliente paga no Ocidente, que se chama mais-valia, que, geralmente, é transferida para os paraísos fiscais ou offshores (=em pleno mar, geralmente em ilhas, extraterritorial), que são sucursais de bancos conhecidos e que gozam de regalias especiais: contas secretas numeradas, que não pagam impostos, cujos donos são praticamente impossíveis de detectar. O escândalo dos “Panama Papers”, “Paradise Papers” e “Lux Leaks” só puderam vir a público por denúncia de alguém trabalhando nesses paraísos fiscais a jornalistas de investigação. Aquando da crise económico-financeira de 2007/2008, houve reunião dos responsáveis governamentais dos países mais ricos para tomar medidas que pudessem prevenir a repetição de tais crises; uma das medidas foi a extinção dos paraísos fiscais, o que nunca aconteceu

Continua

Arsénio Fermino de Pina

(Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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