A DESIGUALDADE EXCESSIVA LEVA À REVOLUÇÃO E MATA! (1)

17/01/2019 00:31 - Modificado em 17/01/2019 00:39

Há uns bons anos que venho lendo Jean Ziegler, esse sociólogo, ex-deputado suíço, escritor e ex-redactor especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, que tem tido a coragem de denunciar e desmascarar as patifarias e crimes das poderosas multinacionais, agora chamadas transcontinentais por actuarem, quase instantaneamente, devido às facilidades de comunicação, em todos os continentes, incluindo os “respeitosos” bancos suiços. Houve um tempo em que deixou de fazer essas denúncias vigorosas em virtude de essas empresas e bancos terem passado a levá-lo à justiça separadamente, a fim de o obrigarem a gastar cada vez mais dinheiro e a perder tempo em tribunais. O primeiro livro dele que adquiri foi Uma Suiça Acima de Qualquer suspeita, quando integrei a equipa de Cabo Verde à Assembleia Mundial de Saúde, em 1978; a partir daí, passei a coleccionar as suas publicações.

Arsénio de Pina

                Acabo de ler “Le capitalisme expliqué à ma petite-filhe”(O capitalismo explicado à minha neta), o seu mais recente livro, que me vai dar pano para as mangas que já cosi em artigos anteriores, dado o manancial de informações de interesse que esclarecem os aspectos mais odiosos do capitalismo financeiro globalizante e o seu fabuloso poder. Como não é a primeira vez que escrevo sobre o capitalismo selvagem, irei resumir algo já escrito e apontar as informações mais importantes desse privilegiado escritor e ex-funcionário das Nações Unidas que teve a oportunidade de visitar vários países e conviver com pessoas e instituições de referência.

Algumas definições e factos impressionantes

                A população mundial é actualmente de 7 biliões de seres. Cerca de 4,8 biliões vivem no Sul, a maioria mal, e cerca de 2 biliões são classificados pelo Banco Mundial (BM), de extremamente pobres, mesmo miseráveis. Não vivem, sobrevivem quase por milagre, enquanto cerca de 1% da população mundial vive na extrema abundância, numa fartura mesmo escandalosa.

                O modo de produção capitalista caracteriza-se por uma vitalidade e criatividade impressionantes, graças às revoluções industriais, científicas e tecnológicas que beneficiaram a electrónica, informática, farmácia, medicina, energia, aeronáutica, astronomia, etc. Graças, também, à liberdade de que gozaram os habitantes do Norte, que estimula iniciativas, premeia o mérito, excluindo os países comunistas sujeitos a regimes de partido único e ditadura do proletariado, onde a liberdade é uma ficção, e o Estado privilegia mais as forças armadas e a segurança política, secundariamente a saúde, a educação e o alojamento, como acontecia na União Soviética, acontece em Cuba e Coreia do Norte.

                Deixo de lado os antecedentes do capitalismo e as respectivas épocas bem descritas neste livro. Foi a nível das cidades, como nos relata Karl Marx, por volta do século XVI, mais evidente no século XVIII, que uma série de revoluções tecnológicas e a mecanização do trabalho permitiram o enriquecimento de uma certa camada da população, denominada burguesia. A pouco-e-pouco, a posse de ferramentas e máquinas passou a ser mais importante do que a posse de terras, por produzir mais valores; passou a dominar a burguesia cuja riqueza e poder se reforçaram mais a partir da Revolução Francesa, consolidando-se o capitalismo.

                Segundo Karl Marx, a produção capitalista iria aumentar cada vez mais, e os trabalhadores cada vez mais explorados e pobres, impossibilitados de adquirir as mercadorias produzidas, levaria à destruição do capitalismo – proclamava que o capitalismo continha em si o germe da sua própria destruição -, o que não aconteceu, dada a sua habilidade em contornar as dificuldades e as formas aguerridas de luta dos trabalhadores – greves organizadas por sindicatos – conseguiram impor o reconhecimento dos seus direitos e melhorar a sua condição de vida.

                Karl Marx descreve outra maneira de acumulação de capital além da mais-valia dos patrões da indústria, do comércio e dos serviços do seu tempo no Ocidente, a que chamou de acumulação primitiva. Dessa modalidade de acumulação de capital foram os povos de África, América latina e Ásia as vítimas: escravatura dos negros, utilização das riquezas naturais desses países – matérias-primas, minérios valiosos de ouro, prata e outros minerais, joias, diamantes, desde o início dos descobrimentos, com imposição de um pacto colonial que impedia as colónias de fabricar qualquer produto, devendo as matérias-primas ser encaminhadas para as respectivas metrópoles onde eram transformadas, valorizadas e vendidas nas colónias e outras partes. Com toda essa fortuna, nasceram na Inglaterra grandes fábricas de têxteis, a metalurgia e aumentou a marinha mercante. Os belos monumentos e outros edifícios que admiramos no Ocidente foram todos construídos graças ao ouro, prata, diamantes, marfim, açúcar, madeiras preciosas, tráfego de negros, etc., provenientes da África, Ásia e América latina onde deixaram a vida milhões de negros e índios. Os povos de cultura Azteca, Inca e Maia eram cerca de 70 a 90 milhões no fim do século XV; um século mais tarde ficaram reduzidos a 3,5 milhões devido à sua exploração desumana e vítimas de doenças infecto-contagiosas levadas pelos europeus contra as quais não tinham defesas.

Os multibilionários ou plutocratas

                A tendência à multinacionalização e à monopolização do capital constitui o modo de produção capitalista, o que se intensificou com a implosão da União Soviética que, como costumo dizer, funcionou como o gongon do capitalismo, um freio para o exagero da exploração capitalista. Essa implosão levou à falência e descrédito do comunismo. Por outro lado, os progressos da electrónica, informática e telecomunicações permitiram contactos praticamente instantâneos com qualquer ponto do globo. As grandes empresas multinacionais ou transcontinentais como a Nestlé, Rio Tinto, Danone e outras dispõem, na sua sede, de painéis com luzes sinalizando todas as suas sucursais, fábricas com as suas produções a cada momento, podendo daí dar ordens e directrizes. O activo dessas multinacionais é superior ao PIB de muitos países: do ExxonMobil, superior ao da Austria, o da General Motors, superior ao da Dinamarca, da Toyota superior ao de Portugal e assim por diante, donde a dificuldade dos países em combate-las, dado o seu poder económico e financeiro que subordina e corrompe muitos governantes.

Alguns factos elucidantes do poder das empresas multinacionais e plutocratas                

Como redactor principal das Nações Unidas, Jean Ziegler visitou vários países esmiuçando as condicionantes da fome e da alimentação. Na Guatemala, por exemplo, que conta com 15 milhões de habitantes, duas costas marítimas (com o Pacífico e o Atlântico), fronteira norte com o México, cujos habitantes são descendentes da antiga civilização Maia, possui terras bastante férteis e clima propício a várias culturas agrícolas. Nunca se fez o cadastro nacional das propriedades e 67% dessas terras de boa qualidade pertencem a multinacionais privadas – United Fruit, Del Monte Foods, Unilever General Food, etc., – que produzem bananas, abacate, kiwis, tomate, melões, ananases, etc. para exportação, em número de 47 imensas propriedades; 90% dos proprietários autóctones tentam sobreviver cultivando em menos de um hectare. O relatório de Ziegler apresentado às Nações Unidas propondo a solução da situação degradante das populações locais foi chumbado sob a suspeita de ser de inspiração comunista, contrária à liberdade de posse de propriedade privada e do livre jogo do mercado. A UNICEF publicou depois, em 2015, o relatório anual oficial sobre a situação da criança na Guatemala, onde se constata a morte de 112.000 crianças com menos de dez anos de subnutrição e suas consequências.

Continua

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2019: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.