Abraão Vicente sobre a retirada dos quadros de Tchalê Figueira da exposição na AN: “Nenhum artista deve adaptar a sua obra aos contextos expositivos”

15/01/2019 15:23 - Modificado em 15/01/2019 15:23
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Reagindo a notícias sobre a retirada de dois quadros do artista plástico Tchalê Figueira, que faziam parte de uma exposição na Assembleia Nacional, o Ministro da Cultura e Industrias Criativas, Abraão Vicente, explica que tal decisão não partiu do Ministério nem da sua equipa técnica. “Isso tem de ficar claro”, rebate o ministro, sobre quaisquer acusações de que o MCIC esteve por detrás de tal decisão e portanto “é necessário que cada instituição assuma as suas responsabilidades”.

De acordo com o governante, o caso da retirada dos quadros do artista plástico Tchalê Figueira é uma excelente oportunidade para debater vários temas deste a educação artística, educação sexual, pedagogia, passando pelo papel das instituições na promoção da arte, da pedagogia do gosto e da estética, aos tabus da sociedade cabo-verdiana, entre outros

Para o ministro Abraão Vicente, Tchalê Figueira fez aquilo que é o papel do artista, romper paradigmas, provocar debate, sacudir o politicamente correto. “Só quem não conhece a obra e o percurso de Tchalê Figueira pode ficar escandalizado pelos dois quadros. A sexualidade, o erotismo, a provocação sempre estiveram presentes na obra de Tchalê. Isso quer dizer que se se está a procurar um culpado nessa “polémica”, o culpado é quem promoveu a exposição”, afirma o ministro num post na sua página do facebook.

Que neste caso, reconhece, é o próprio Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas que fez a curadoria através da Direção Geral das Artes e Indústrias Criativas. E no seu entender, nem Tchalê Figueira, nem qualquer outro artista deve adaptar a sua obra aos contextos expositivos. “A obra do artista deve ser um hino à liberdade de expressão e de pensamento”, considera Abraão Vicente, afirmando, no entanto, que são as instituições que tem de se preparar para aceitar de forma aberta todas as formas de manifestação artística e para isso é preciso que tenham pessoal técnico e estrutura preparado para tal.

“Estar preparado significa também estabelecer ad inicium regras próprias e comunica-las. O que não se pode é promover a retirada de quadros de uma exposição já inaugurada sem que ninguém assuma a responsabilidade deixando um limbo onde todas as divagações demagógicas são permitidas. O artista merece o nosso respeito e tem de ser tratado com toda a dignidade”.

Por outro lado, “tenho a convicção de que não podemos resumir um debate desta importância ao ‘gosto’ de cada um dos intervenientes ou à moral ou nível de cultura dos cabo-verdianos. Também não podemos ceder à simplificação do debate em rótulos fechados. Isso de parte a parte”, sublinha.

No entanto, diz que o debate não pode ser aos gritos em que uns chamam outros de hipócritas, incultos e falsos moralistas, enquanto outros colam a imagem de imoralidades, depravação e obscenos ao artista e aos que o apoiam. “Ab alio expectes, quod alteri feceris”, o que fizeres, encontrarás. “Estamos em pleno sec. XXI a intolerância é Intolerável”, critica.Defende ainda a posição política, alegando que não se pode ceder a essa tentação de tentar arrastar para o campo político tudo o que seja debate público em Cabo Verde. “É preciso ser claro e que cada instituição assuma a sua responsabilidade e que neste caso não há nenhuma conotação ou sentido de decisão que seja ou possa ser conotada com determinações políticas”.

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