Santo Antão: O Paraíso do Trekking e o Desafio da Sustentabilidade – Entrevista com o Presidente da Aguisa

24/07/2023 23:26 - Modificado em 24/07/2023 23:26

A época alta do turismo em Santo Antão, conhecida por sua beleza natural e rica cultura local, encerrou recentemente com um aumento significativo no número de turistas, em comparação aos anos anteriores.

Em entrevista exclusiva, ao Notícias do Norte, Odair Gomes, presidente da Associação de Guias de Turismo Profissionais de Santo Antão (Aguisa), revelou que a temporada 2022/2023 foi marcada por um recorde pós-pandemia de visitantes.

O destaque foi o aumento do turismo de cruzeiro, que trouxe um número considerável de “cruzeiristas” diretamente ao Porto Novo. Entretanto, o sucesso da temporada também trouxe desafios, especialmente no que diz respeito à segurança dos turistas, resgate em caso de acidentes e questões ambientais, como a crescente preocupação com o lixo nas trilhas e comunidades visitadas.

A Aguisa tem buscado enfrentar esses desafios, visando garantir a qualidade dos serviços prestados e promover práticas sustentáveis para o futuro do turismo em Santo Antão. Os guias estão otimistas em relação à próxima época alta e esperam melhorar ainda mais a experiência dos visitantes, buscando parcerias e iniciativas que impulsionem o setor de forma positiva.

Noticias do Norte (NN) – Como presidente da Aguisa, qual é a sua avaliação geral sobre a época alta do turismo que acabou recentemente em Santo Antão? Houve um aumento significativo no número de turistas em comparação com anos anteriores?

Odair Gomes (OG) – Em relação aos anos anteriores, de fato, houve um aumento significativo de turismo. Não sei se compara com 2019, mas é que no pós-pandemia temos visto um aumento significativo de turismo para Santo Antão, para a prática não só de trekking, como também outros tipos de turismo. Se formos compara-lo com a época 2021/2022, então a época 2022/2023, sem dúvida, foi um ano record pós-pandemia.

NN – Quais foram os principais destaques e marcos alcançados pela Associação durante a época alta do turismo? Houve alguma iniciativa específica que contribuiu para melhorar a experiência dos visitantes?

OG – A associação não está a fazer aquilo que lhe compete porque a maior parte dos guias estão a trabalhar e isso condiciona muito aquilo que é o trabalho da associação. De qualquer forma temos estado ativos e a ajudando na resolução de algum problema. Um dos marcos que temos notado em Santo Antão é o aumento de turismo de cruzeiro na época passada. Portanto, muitos dos turistas que chegam a Santo Antão através dos muitos barcos de cruzeiros que chegam diretamente ao Porto Novo deixaram em terra uma quantidade significativa de cruzeiristas. Isso tem sido um marco e é por essas e por outras que nós temos apelado e muito naquilo que é o melhoramento das condições portuárias do Porto Novo para que, de fato, esse número venha a aumentar no futuro.  

NN – Durante essa temporada, quais foram os principais desafios enfrentados pelos guias de turismo profissionais em Santo Antão? Como a Aguisa lidou com esses desafios para garantir a qualidade dos serviços prestados?

OG – Na prática, os guias enfrentam diariamente vários desafios. Uma das quais tem que ver com a segurança, não só do próprio guia, mas também dos turistas que venham a Santo Antão. Sabemos que temos a segurança em Santo Antão em que os próprios bombeiros são a maior parte voluntários. Quando temos acidentes na montanha demora e muito para o resgate. Portanto, a segurança dos turistas tem sido o maior desafio, apesar dos primeiros socorros serem prestados pelos guias, mas não chega. Nós temos notado uma insegurança na realização do nosso trabalho. Portanto, é só melhorar aquilo que é o resgate com alguma facilidade que passa por soluções mais estruturais, querendo as próprias câmaras e os próprios bombeiros melhorarem este tipo de serviço.    

NN – Quais foram os segmentos de turistas mais proeminentes nesta temporada? Houve um aumento no interesse por atividades específicas, como trilhas, turismo ecológico ou cultura local?

OG – Na temporada anterior, o segmento que continua a prevalecer em relação ao turismo de Santo Antão, são as caminhadas, que continua a ser o produto mais consolidado da ilha. De qualquer forma temos notado alguma diversificação na oferta, nomeadamente os segmentos turismo desportivo (mergulho), mas também se tem notado em algumas infraestruturas alguma dinâmica cultural que tem que ver com aquilo que é animação turística, carecendo naturalmente de alguma melhoria, como música ao vivo em alguns estabelecimentos. Isto é ótimo, mas também a própria gastronomia dentro do turismo, na qual muitos turistas aproveitem alguns programas oferecidos por algumas agências e muitas vezes por guias. Programas que incluem a aprendizagens da confeção de alguns pratos típicos de Santo Antão. Isso é significativamente bom.

NN – O feedback dos turistas é essencial para a melhoria contínua da oferta turística. Quais foram os principais elogios recebidos pelos guias da Aguisa e em que aspetos os visitantes esperam melhorias?

OG –Arriscaria dizer que não há nenhum turista que vem a Santo Antão que não elogia a nossa ilha. Dizem claramente que é a ilha mais bonita de Cabo Verde. Os próprios turistas levam imagem de Santo Antão e têm estado a fazer marketing e promoção da ilha no seu país. Nós temos turistas que fazem a promoção da ilha nos países europeus e nas Américas. Já temos trabalhado com outros países africanos que ficam também encantados com a ilha. Algumas empresas têm promovida a nossa ilha denominando-a de paraíso de trekking. Este feedback nos motiva a continuar um trabalho mais profissional, de maior qualidade em relação a prestação de serviços. Não somente os guias que têm trabalhado na qualidade do serviço, como também todo o setor de uma forma geral.

NN – A sustentabilidade do turismo é uma preocupação global. Como a Aguisa trabalhou para promover práticas sustentáveis durante a época alta do turismo em Santo Antão?

Muito se tem falando sobre a sustentabilidade do turismo em Cabo Verde. Não há efetivamente uma sustentabilidade do turismo neste país. Aquilo que há muitas vezes é ações pontuais de sustentabilidade. Temos que dizer claramente que sem controlo não há sustentabilidade. A parte económica nem todos têm tirado benefício do turismo, portanto ainda se precisa trabalhar a parte social, que naturalmente ainda está difícil de avaliar, e a parte ambiental, este está a piorar. Santo Antão já não é o que é há 10 anos. Portanto, a quantidade de lixo só tem aumentado e as ações para solucionar esta preocupação deste problema ainda está muito aquém. De qualquer forma temos que trabalhar todos juntos, mas a maior responsabilidade deverá ser sempre de quem toma as decisões.

NN – Com a temporada de turismo chegando ao fim, quais são os planos futuros da Aguisa para atrair mais turistas na próxima época alta? Existem novas iniciativas ou parcerias sendo planejadas?

OG – Nós, os guias, estamos expetantes em relação a nova temporada. Pela demanda que tivemos este ano, a nova temporada será melhor para Santo Antão. Os números só vão aumentar, mas a própria demanda do turismo depende de alguns setores, nomeadamente, o dos transportes. Se houver alguma melhoria significativa no setor dos transportes, obviamente que teremos uma época alta espetacular em Santo Antão. Estamos expetantes em relação ao turismo de cruzeiros, turismo internacional e o turismo doméstico para a ilha, como acontece todos os anos. Nós olhamos para o futuro da ilha com alguma expetativa, otimismo. Os guias estão preparados e temos estado a fazer algumas reciclagens em relação a aquilo que é os primeiros socorros, a segurança dos turistas, o estudo daquilo que é a cultura e a história e que tem atraído muitos turistas para formações feitas em parceria com a associação. Já estamos a preparar para a próxima época. 

NN – Além dos aspetos positivos, você poderia compartilhar quaisquer desafios específicos que precisam ser abordados para aprimorar ainda mais a indústria do turismo em Santo Antão?

OG – Os desafios do turismo de Santo Antão passam pela capacitação do setor hoteleiro, ou seja, muitas vezes o atendimento hoteleiro deixa muito a desejar nalguns estabelecimentos. Há rececionistas e pessoas dentro do estabelecimento não têm a base do turismo e isso impede a incomunicabilidade entre os hotéis e os turistas. Um outro aspeto que é um desafio enorme tem que ver com o ambiente. Portanto, a quantidade de resíduos sólidos nos trilhos e nas comunidades por onde passam os turistas, é preocupante. Temos chamado atenção para juntos resolvermos esta situação e isso passa por campanhas de limpeza e sensibilização das próprias comunidades no sentido de melhorar este aspeto, senão os trilhos vão perder a essência e vão ficar degradados, colocando em causa aquilo que é a prática do turismo na ilha. O desafio seria junto trabalharmos num plano para a limpeza dos resíduos sólidos, colocação de alguns caixotes de lixo por onde passa os trilhos, e sensibilização com placas. A própria recolha do lixo que deve ser mais ativa e regular, evitando assim amontoados.   

AC – Estagiária

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