O partido marca eleições internas e começa a disputa pelo controlo do futuro.

Durante anos, o MpD viveu numa espécie de estabilidade política raríssima em Cabo Verde: liderança forte, sem contestação, poder governativo, máquina partidária disciplinada e a sensação permanente de que Ulisses Correia e Silva continuaria naturalmente no centro do sistema ,pelo menos mais cinco anos.
As eleições de 17 de Maio acabaram com essa quimera, por dois deputados à mais para o PAICV. E agora começou oficialmente aquilo que os partidos mais temem depois de perder o poder: a luta silenciosa pela sucessão.
A Comissão Política Nacional decidiu marcar para 9 de Agosto as eleições para presidente do partido e delegados à Convenção Nacional. Já a Convenção deverá decorrer nos dias 4, 5 e 6 de Setembro.
Formalmente, trata-se apenas do calendário interno do partido. Politicamente, é o início da nova era do MpD.
Uma era onde o partido terá de reaprender a existir sem o conforto institucional do governo, sem a autoridade estabilizadora de Ulisses e sem aquela vantagem psicológica que os partidos no poder normalmente confundem com popularidade eterna.
Durante a reunião da Comissão Política Nacional, Ulisses Correia e Silva reafirmou a decisão de abandonar a liderança do partido — uma saída que, apesar de anunciada na noite eleitoral, continua a produzir efeitos sísmicos dentro da estrutura democrata.
Porque a verdade é simples: o MpD não está apenas à procura de um novo presidente.
Está à procura de identidade.
E isso costuma ser muito mais complicado.
A Direção Nacional deverá agora nomear um presidente interino para conduzir o processo interno até à Convenção. Tradução política: alguém terá de gerir as sensibilidades, controlar os egos, evitar fracturas prematuras e impedir que o partido transforme a sucessão numa guerra civil em versão cabo-verdiana.
Tarefa simples. Naturalmente.
Até agora, apenas Paulo Veiga e Orlando Dias assumiram publicamente disponibilidade para liderar o partido.
Mas em política cabo-verdiana existe sempre uma curiosa diferença entre os candidatos declarados e os candidatos reais.
Os primeiros anunciam-se. Os segundos movimentam-se.
E é precisamente nesta fase que começam os telefonemas discretos, os encontros “informais”, os apoios cuidadosamente ambíguos e aquele desporto nacional chamado “esperar para ver quem fica mais forte”.
Ainda assim, há um dado impossível de ignorar: o MpD entra neste processo interno numa situação politicamente delicada.
Porque perdeu o governo. Perdeu o controlo da narrativa. E perdeu sobretudo aquela aura de inevitabilidade política construída ao longo dos últimos dez anos.
Durante demasiado tempo, muitos dentro do partido começaram a comportar-se como se governar fosse quase um direito natural de gestão do país. As legislativas de Maio lembraram brutalmente que democracias não funcionam assim.
E talvez esteja aí a grande ironia do momento.
O mesmo partido que durante anos se habituou a organizar o país terá agora de reaprender primeiro a organizar-se a si próprio.
A sucessão de Ulisses será, por isso, muito mais do que uma simples disputa interna. Será um teste à maturidade política do MpD pós-poder. Porque perder eleições é relativamente normal em democracia.
O difícil é descobrir quem realmente somos depois da derrota.
Eduino Santos