Há anúncios que soam como conquistas. E há conquistas que ainda vivem apenas no anúncio. A recente celebração do Primeiro-Ministro José Ulisses Correia e Silva sobre a escolha de Cabo Verde para acolher um evento do calibre do Web Summit encaixa, com elegância discursiva, nas duas categorias.
Por : Eduino Santos

Diz-nos o Governo que o país está a ser reconhecido pela sua “transformação digital”. E nós, cidadãos comuns — esses seres ainda dependentes de Wi-Fi instável, pago a 4.880.00 por mês , dados móveis mais caros e serviços públicos que ora são digitais, ora pedem uma fotocópia autenticada — perguntamos: transformação para quem?
Não se trata de negar o mérito. Trazer um evento internacional desta dimensão para um arquipélago com limitações estruturais é, de facto, relevante. Coloca Cabo Verde no mapa — ou, pelo menos, num slide de PowerPoint entre Lisboa e São Paulo. Mas convém não confundir palco com bastidores.
Porque enquanto se fala de startups, inovação e inteligência artificial, há ilhas onde a “cloud” ainda depende mais do céu do que da fibra ótica. Enquanto se promovem painéis sobre o futuro digital, há cidadãos que continuam a navegar entre balcões físicos e plataformas online que, em dias menos inspirados, simplesmente não funcionam.
A narrativa oficial é sedutora: Cabo Verde como hub entre continentes, ponte tecnológica, plataforma de oportunidades. Mas a realidade — essa teimosa — lembra-nos que uma ponte não se faz apenas com geografia e vontade política. Faz-se com infraestrutura robusta, capital humano qualificado e, sobretudo, consistência.
O risco, como sempre, é o de transformar exceções em regra. Um evento internacional não faz um ecossistema digital. Tal como uma conferência sobre inovação não substitui políticas públicas eficazes e continuadas. O brilho dos holofotes pode facilmente esconder a fragilidade dos alicerces.
Há, sim, sinais positivos. Há jovens talentosos, iniciativas promissoras e uma ambição legítima de posicionar o país na economia digital global. Mas há também um certo entusiasmo governamental que parece correr mais rápido do que a própria realidade que pretende descrever.
No fundo, Cabo Verde está num ponto curioso: suficientemente avançado para sonhar alto, mas ainda demasiado limitado para viver plenamente esses sonhos. E talvez o maior desafio não seja organizar eventos internacionais, mas garantir que, quando os convidados forem embora, fique algo mais do que fotografias, discursos e promessas recicladas.
Até lá, continuaremos neste exercício coletivo de fé tecnológica — onde se fala de futuro em alta velocidade… enquanto o presente ainda carrega.
E, como sempre, o país vai estando. Entre o clique e o atraso. Entre o digital anunciado e o analógico persistente.