
Por : Eduino Santos
A cerimónia dos Óscares de 2026 ficou marcada por um dos discursos mais fortes e politicamente carregados da noite. Ao receber a estatueta de Melhor Documentário, o realizador e protagonista Pavel Talankin deixou um apelo simples, mas profundamente perturbador na sua clareza:
“Em nome do nosso futuro, em nome de todas as nossas crianças, parem todas estas guerras agora.”
A frase, dita diante de milhões de espectadores em todo o mundo, ecoa muito para além de Hollywood. É um grito que atravessa fronteiras e confronta a consciência global num momento em que múltiplos conflitos continuam a devastar comunidades inteiras.
Entre eles está a guerra na Ucrânia, mas também a tragédia humanitária que se desenrola em Gaza, onde milhares de civis, incluindo um número devastador de crianças, continuam a pagar o preço mais alto da violência. As imagens que chegam diariamente daquela região mostram cidades reduzidas a escombros, hospitais sobrecarregados e famílias inteiras obrigadas a sobreviver entre ruínas.
O discurso de Talankin recorda algo que, por vezes, o ruído político e mediático tenta diluir: nenhuma guerra é boa. Não existe guerra limpa, não existe guerra justa para quem perde a casa, a família ou a infância.
Ao pedir o fim das guerras “em nome das crianças”, o realizador não falou apenas como artista ou documentarista. Falou como cidadão do mundo, lembrando que cada conflito armado representa uma falência colectiva da humanidade.
Há, porém, outra dimensão que torna as suas palavras ainda mais incómodas: o silêncio. O silêncio das instituições, o silêncio da comunidade internacional e, muitas vezes, o silêncio das próprias sociedades que assistem à destruição à distância.
Porque o silêncio também tem peso moral. Quando a devastação se torna rotina nos ecrãs e a indignação desaparece, corre-se o risco de normalizar o inaceitável. E quando isso acontece, todos nos aproximamos perigosamente da condição de cúmplices.
Dizer não à guerra é, por isso, mais do que um posicionamento político. É uma afirmação ética. É a recusa em aceitar que a violência seja apresentada como solução inevitável.
A história mostra que nenhuma guerra termina sem deixar gerações marcadas pela perda, pelo trauma e pela reconstrução dolorosa do que foi destruído.
Talvez por isso a frase pronunciada na noite dos Óscares tenha ressoado com tanta força. Porque, no fundo, ela recorda uma verdade que a humanidade insiste em esquecer:
não existe nenhuma guerra boa — e permanecer em silêncio perante a guerra é permitir que ela continue.