Menos mísseis não significa fraqueza: o que pode estar por trás da nova estratégia do Irão

17/03/2026 08:52 - Modificado em 17/03/2026 08:53
Direitos de autor Iranian Army via AP

Dados indicam forte redução nos lançamentos iranianos, mas analistas dizem que Teerão ainda mantém capacidade significativa de ataque.

Desde o início da guerra entre Irão, Israel e os Estados Unidos, um dos sinais mais visíveis da evolução do conflito tem sido a queda acentuada no número de mísseis e drones lançados por Teerão. No entanto, especialistas alertam que essa diminuição não significa necessariamente que a capacidade militar iraniana tenha sido eliminada.

De acordo com dados compilados pela Al Jazeera com base em informações do Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, o Irão lançou cerca de 167 mísseis (balísticos e de cruzeiro) e 541 drones nas primeiras 24 horas do conflito contra alvos na região. Já no 15.º dia da guerra, o número de ataques teria caído para quatro mísseis e seis drones.

A redução coincide com declarações da Casa Branca, que afirmou no sábado que os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel reduziram drasticamente a capacidade militar iraniana. Segundo Washington, a capacidade de mísseis balísticos do Irão estaria “funcionalmente destruída”, enquanto a marinha do país teria sido considerada “ineficaz em combate”.

O presidente norte-americano Donald Trump afirmou ainda que os ataques destruíram grande parte da capacidade de produção de drones do Irão.

Apesar dessas afirmações, episódios recentes mostram que Teerão continua capaz de lançar ataques. Na segunda-feira, o Qatar anunciou ter intercetado mísseis disparados a partir do território iraniano, enquanto Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein emitiram alertas de defesa aérea. Um dos projéteis atingiu um veículo em Abu Dhabi, provocando uma vítima mortal.

Mudança de estratégia?

Para vários analistas, a queda no número de mísseis disparados pode refletir mais uma mudança de estratégia militar do que um colapso completo da capacidade ofensiva iraniana.

O Irão possui um dos maiores arsenais de mísseis do Médio Oriente, incluindo sistemas balísticos capazes de atingir alvos a longa distância. Muitos desses equipamentos estão dispersos ou armazenados em bases subterrâneas, o que dificulta a sua destruição total através de ataques aéreos.

Especialistas citados por analistas militares internacionais indicam que Teerão pode estar a preservar parte do seu arsenal para fases posteriores da guerra, evitando expor todos os sistemas de lançamento enquanto continua sob forte pressão militar.

Outra possibilidade é que o país esteja a reorganizar os seus meios de ataque após bombardeamentos intensos contra infraestruturas militares e fábricas de drones.

A guerra indireta

Uma das características da estratégia militar iraniana nas últimas décadas tem sido o uso de aliados regionais e forças indiretas. Grupos armados aliados do Irão atuam em vários pontos do Médio Oriente, incluindo no Líbano, Iraque, Síria e Iémen.

Essa rede permite a Teerão exercer pressão militar sobre adversários sem recorrer sempre a ataques diretos a partir do seu próprio território.

Pressão sobre rotas energéticas

Outro fator central nesta fase da guerra é a segurança das rotas energéticas no Golfo Pérsico. Analistas alertam que qualquer escalada envolvendo o Estreito de Ormuz — corredor por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente — poderia desencadear uma crise energética mundial.

Mesmo sem um bloqueio efetivo, a simples ameaça de perturbação na região é suficiente para provocar nervosismo nos mercados e pressão sobre governos dependentes da importação de energia.

Um conflito ainda imprevisível

A evolução recente da guerra sugere que o conflito entrou numa fase mais complexa, em que declarações políticas, ataques seletivos e estratégias indiretas se combinam com operações militares diretas.

Embora Washington afirme que as capacidades militares iranianas foram severamente degradadas, os acontecimentos no Golfo mostram que o país ainda mantém meios suficientes para continuar a responder.

Num cenário regional já marcado por múltiplas frentes de tensão, a redução no número de mísseis pode representar não o fim da capacidade ofensiva iraniana, mas sim o início de uma nova fase estratégica da guerra.

NN

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