
A recente comunicação do Primeiro-Ministro sobre o impacto da crise energética procura transmitir preparação e controlo. Contudo, quando cruzada com a realidade do mercado e com o debate público recente, levanta uma questão essencial: monitorizar basta quando os sinais de choque já estão à vista?
Por Eduino Santos
Uma crise anunciada
Na comunicação feita ao país sobre os impactos da crise no Médio Oriente no mercado internacional de energia, o Primeiro-Ministro destacou a subida acelerada do preço do petróleo, que passou de cerca de 70 dólares para mais de 90 dólares por barril em poucos dias, podendo ultrapassar os 100 dólares caso o conflito se prolongue.
O chefe do Governo assegurou que o Executivo está a acompanhar diariamente a evolução dos preços através de uma equipa técnica permanente e que existem medidas preparadas para proteger famílias e empresas caso os preços internos sofram aumentos anormais.
Entre as medidas apontadas estão a suspensão temporária do mecanismo de atualização de preços dos combustíveis, a compensação às petrolíferas pelo eventual défice provocado por essa suspensão, a aplicação de descontos equivalentes ao aumento da receita do IVA gerado pela subida do combustível importado e a redução de impostos sobre produtos petrolíferos.
À primeira vista, trata-se de uma mensagem de prudência e preparação.
Mas a questão que se impõe é outra: será suficiente?
Medidas preparadas… mas ainda não acionadas
O ponto central da comunicação governamental é que as medidas “estão prontas para serem acionadas”.
Ou seja, ainda não foram acionadas.
Esse detalhe não é menor. Pelo contrário, é o elemento que revela a fragilidade principal da estratégia comunicacional do Governo. Num contexto de volatilidade extrema no mercado energético internacional, limitar-se a monitorizar a situação pode ser interpretado como prudência — mas também como hesitação.
A economia cabo-verdiana é particularmente sensível às oscilações do preço do petróleo. Pequenas variações no mercado internacional repercutem-se rapidamente no custo dos combustíveis, dos transportes, da eletricidade e, inevitavelmente, no preço dos bens essenciais.
Nesse contexto, esperar que os impactos sejam plenamente visíveis para depois reagir pode significar agir tarde.
Entre a gestão da comunicação e a gestão da crise
A comunicação do Primeiro-Ministro também procurou reforçar a narrativa de continuidade da ação governativa, recordando que desde 2017 o país tem enfrentado sucessivas crises e que o Governo tem protegido as famílias através de políticas de inclusão energética, como a redução do IVA da eletricidade e descontos nas tarifas para famílias de baixa renda.
São medidas importantes e que merecem reconhecimento.
Contudo, evocá-las num momento de crise pode também funcionar como um recurso retórico para deslocar o foco do presente para o passado. A questão central que se coloca hoje não é o que foi feito em crises anteriores, mas o que está a ser feito agora perante uma nova pressão energética global.
A vulnerabilidade estrutural
A crise atual volta a expor uma realidade conhecida: Cabo Verde continua profundamente dependente da importação de combustíveis fósseis.
Essa dependência faz com que qualquer turbulência geopolítica no Médio Oriente ou em outras regiões produtoras tenha impacto direto na economia nacional.
O Governo destaca a aposta na transição energética, com metas de mais de 35% de energias renováveis este ano, mais de 50% em 2030 e mais de 80% em 2040. Trata-se de uma estratégia essencial para reduzir a vulnerabilidade estrutural do país.
Mas essa transição, por mais necessária que seja, não resolve os choques imediatos.
A crise energética é, antes de mais, um teste à capacidade de reação dos governos.
Monitorizar ou antecipar?
A comunicação oficial transmite uma mensagem clara: o Governo está atento, preparado e pronto para agir se necessário.
Contudo, num contexto de forte instabilidade internacional, a linha que separa prudência de atraso pode ser muito ténue.
A verdadeira questão política que emerge deste debate é simples:
numa crise energética previsível, basta monitorizar ou seria preferível antecipar?
A resposta a essa pergunta determinará não apenas a eficácia da política energética no curto prazo, mas também a confiança dos cidadãos na capacidade do Estado para proteger a economia em momentos de turbulência global.