Por: Eduino Santos

Há guerras que começam com um PowerPoint e acabam num cemitério. Outras começam com um tweet e terminam num aperto de mão forçado entre líderes que, semanas antes, juravam destruir-se mutuamente. Para quem observa de longe, tudo pode parecer estratégia, diplomacia ou geopolítica. Para quem está do lado errado do míssil, a realidade é sempre a mesma: morte, destruição e vidas que nunca voltarão a ser reconstruídas.
O mundo gosta de fingir que existem bombas mais educadas do que outras. Fala-se de intervenções “cirúrgicas”, de guerras “humanitárias” ou de operações “necessárias”. A linguagem muda, os discursos tornam-se mais sofisticados, mas o resultado permanece brutalmente simples: cidades destruídas, populações deslocadas e gerações inteiras condenadas a viver com as cicatrizes da violência.
O Iraque foi talvez o grande espetáculo contemporâneo da mentira bem penteada. Sob a liderança de George W. Bush, e na continuidade da política estratégica norte-americana para o Médio Oriente, apresentou-se ao mundo a narrativa das armas de destruição massiva. Essas armas nunca apareceram, mas serviram de justificação para uma invasão que destruiu um país e provocou centenas de milhares de mortes. A guerra, como tantas vezes acontece, foi apresentada como uma necessidade moral. O tempo revelou que era sobretudo uma decisão política.
Mas as vítimas da guerra não ficam apenas nos campos de batalha. Elas regressam também para casa, invisíveis, carregando uma guerra interior que ninguém vê. Um estudo do projeto Costs of War, da Universidade Brown, estima que mais de 30 mil militares norte-americanos e veteranos das guerras pós-11 de setembro morreram por suicídio, um número muito superior aos cerca de 7 mil soldados mortos em combate nesses conflitos.
É uma estatística silenciosa, mas devastadora: a guerra continua a matar muito depois de terminados os combates.
O Afeganistão foi a versão longa da mesma tragédia. A intervenção começou com a promessa de libertação, transformou-se numa missão de “construção da democracia” e terminou com uma retirada apressada que deixou um país exausto e profundamente instável. Vinte anos de guerra, biliões de dólares gastos e milhares de vidas perdidas provaram uma realidade que a história já conhecia: a democracia não se exporta em tanques.
Depois veio a Líbia, apresentada como uma intervenção necessária para proteger civis. A linguagem foi mais suave, os discursos mais cuidadosos, mas as bombas tiveram a mesma eficácia destrutiva. O resultado foi um Estado fragmentado, milícias armadas e uma instabilidade regional que ainda hoje se prolonga.
E é neste cenário que a política internacional revela uma das suas maiores hipocrisias. O mundo parece tolerar melhor a mentira bem articulada do que a verdade dita de forma crua. Prefere discursos elegantes sobre valores universais, mesmo quando esses discursos acompanham intervenções militares devastadoras.
Mas existe uma verdade simples que nenhuma retórica consegue esconder: nenhuma guerra é limpa. Nenhuma guerra é verdadeiramente “cirúrgica”. E nas guerras modernas as principais vítimas raramente são os que decidem travá-las. São civis. São famílias. São crianças.
Segundo organizações humanitárias, nos conflitos contemporâneos a maioria das vítimas são civis — e entre eles predominam mulheres e crianças. São eles que morrem sob os escombros, que fogem das cidades bombardeadas ou que crescem em campos de refugiados.
A guerra pode mudar de justificação, de tecnologia ou de linguagem política. Mas nunca muda de natureza. Continua a ser a mesma tragédia humana que atravessa a história.
Por isso, perante cada nova escalada militar que surge no horizonte internacional, a pergunta essencial continua a ser a mesma: até quando aceitará a humanidade que a política internacional seja resolvida com bombas?
Porque no final, quando o pó assenta e os discursos desaparecem, resta apenas a contabilidade da tragédia.
E essa contabilidade escreve-se sempre da mesma forma: em nomes gravados em lápides.