A memória que se faz necessária: Olívio Pires revisitado por Germano Almeida, Pedro Pires e companheiros de luta

17/01/2026 21:05 - Modificado em 17/01/2026 21:05

O livro “A Memória que se faz Necessária”, de Olívio Pires, foi apresentado num ato marcado pela emoção, pela fraternidade e pelo reconhecimento público do percurso de um dos protagonistas centrais da luta de libertação nacional de Cabo Verde. A apresentação contou com intervenções de Germano Almeida, Pedro Pires e Álvaro Tavares, entre outros, que traçaram diferentes retratos do comandante, do militante, do intelectual e do homem.

Germano Almeida, que apresentou a obra, começou por recordar a relação de amizade construída com Olívio Pires após a abertura política ao pluripartidarismo, em 1991. Apesar de já saber quem era Olívio, os dois só passaram a conviver mais de perto quando ambos foram eleitos deputados nas primeiras eleições pluripartidárias, Olívio pelo PAICV e Germano Almeida pelo MPD.

O escritor confessou sempre ter nutrido grande admiração pelos homens e mulheres da luta de libertação nacional, lamentando nunca ter conseguido juntar-se a eles. Essa admiração levou-o a estabelecer uma relação cordial com Olívio Pires, que se prolongou depois em São Vicente, na composição de vários livros.

“A Memória que se faz Necessária” é uma obra organizada por Olívio Pires e pela doutora Isabel Louro e reúne intervenções, discursos e entrevistas produzidas entre 1971 e 2021. Não se trata de uma biografia militar clássica, mas de textos que, pela sua natureza, acabam por assumir um caráter autobiográfico, refletindo as experiências, ideias e inquietações do autor ao longo de mais de cinco décadas de intervenção política e cívica.

O livro é enriquecido por dois textos considerados incontornáveis: o prefácio do embaixador Luís Fonseca e o posfácio do comandante Pedro Pires.

Germano Almeida destacou ainda quatro entrevistas incluídas na obra, concedidas aos jornalistas Leopoldo Amado e José Pereira e ao académico Graciano Nascimento, como essenciais para quem deseja aprofundar o conhecimento sobre o percurso pessoal e político de Olívio Pires.

No prefácio, Luís Fonseca sublinha que Olívio Pires ocupa um lugar de destaque entre as figuras-chave do processo que conduziu Cabo Verde à independência, contribuindo para a construção de um Estado que, apesar da herança colonial adversa, conseguiu criar instituições, promover o desenvolvimento e garantir estabilidade interna e credibilidade internacional.

Pedro Pires, por sua vez, considera a obra necessária por permitir conhecer, em primeira pessoa, as motivações, os combates e as inquietações de um dos principais atores da luta de libertação, com quem partilhou essa jornada histórica.

Segundo Luís Fonseca, os textos do livro podem ser organizados em três períodos: de 1971 a 1975, correspondente à fase colonial; de 1975 a 1990, após a independência; e de 1990 a 2021, com a abertura ao pluripartidarismo. Nos textos mais antigos, Olívio Pires traça um retrato crítico de Cabo Verde, contestando a ideia de uma pobreza inevitável e denunciando soluções como a emigração massiva, que considerava beneficiar mais os interesses externos do que resolver os problemas estruturais do país.

Nesses escritos, o autor enumera os valores económicos históricos de Cabo Verde, desde a Cidade Velha ao Porto Grande do Mindelo, passando pelo aeroporto do Sal, defendendo que o país não é desprovido de recursos. Destaca o potencial das energias renováveis e do turismo, alertando, já há mais de cinco décadas, para a necessidade de infraestruturas adequadas, nomeadamente transportes interilhas, para combater o isolamento e promover o desenvolvimento.

A segunda parte do livro acompanha o período pós-independência, marcado pelo entusiasmo popular, mas também por desafios e contradições. Olívio Pires reflete sobre acontecimentos como o golpe de Estado na Guiné-Bissau e a rutura da unidade sonhada por Amílcar Cabral, bem como sobre a Reforma Agrária, cujos objetivos nobres nem sempre foram plenamente compreendidos ou aceites.

Com a introdução do pluripartidarismo em 1991, os textos assumem um tom mais crítico. Enquanto deputado da oposição, Olívio Pires denuncia perseguições políticas, processos disciplinares e despedimentos, além de criticar duramente as políticas de liberalização e privatização levadas a cabo nos anos 1990. Numa intervenção de 1995, alerta para os riscos de um liberalismo exacerbado que favorece interesses privados em detrimento do bem comum e da defesa do património do Estado.

O evento contou ainda com uma intervenção marcante de Pedro Pires, que recordou momentos decisivos da luta de libertação, incluindo o juramento prestado em Cuba, em 1967, perante Amílcar Cabral, do qual Olívio Pires fez parte. Para o antigo Presidente da República, mais do que amizade, o que unia aqueles combatentes era uma profunda fraternidade forjada na partilha de sacrifícios, riscos e sonhos.

Pedro Pires traçou um retrato detalhado do percurso de Olívio Pires, desde a sua juventude marcada por episódios de discriminação colonial, passando pela formação militar em Cuba e na União Soviética, pela atuação como combatente na Frente Leste do PIGC, até às missões políticas e de mobilização junto das comunidades emigradas na Europa. Destacou ainda o seu papel na organização do PAICV, na formação de quadros e na criação do Instituto Amílcar Cabral.

Por razões de saúde, Olívio Pires não pôde estar presente na cerimónia, mas foi alvo de uma homenagem sentida. Pedro Pires revelou ter estado com ele recentemente, sublinhando que, entre os antigos combatentes, mais do que amizade, existe um laço de fraternidade que permanece vivo.

Álvaro Tavares, presidente da Associação dos Combatentes da Liberdade da Pátria, encerrou as intervenções com um testemunho pessoal, destacando o papel decisivo de Olívio Pires no recrutamento e esclarecimento de jovens cabo-verdianos na Bélgica e na Holanda para a luta armada. Sublinhou a seriedade, a honestidade e o sentido de responsabilidade com que Olívio apresentava a realidade da luta, sem ilusões nem promessas fáceis.

“A Memória que se faz Necessária” surge, assim, como um contributo essencial para a preservação da memória histórica, oferecendo às novas gerações um olhar direto sobre os ideais, os sacrifícios e as escolhas que marcaram a luta de libertação e a construção do Estado cabo-verdiano.

NN

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