José Filomeno: O Estado não se ostenta: serve-se!

8/12/2025 22:30 - Modificado em 8/12/2025 22:30
Foto reprodução Facebook de José Filomeno Monteiro

Por: Eduíno Santos

Há pessoas que passam pelos corredores da diplomacia com o peso das funções e o silêncio dos protocolos, e há outras que passam e deixam rasto. José Filomeno Monteiro, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, foi desse raro segundo tipo de homem público: discreto, mas inesquecível; diplomata de profissão, e cúmplice de humanidade por vocação.

Conheci-o em 1999, em Hong Kong fazia a cobertura para a Radio  e TV , para a RTC, de uma visita do então primeiro ministro Carlos Veiga  ao  Hong Kong , Singapura , Macau . Eu jornalista deslumbrado com o  frenesi asiático onde os arranha-céus tocam o céu e o tempo corre mais depressa que a respiração. Ele, cônsul-geral de Cabo Verde, figura respeitada no mundo formal das relações internacionais. Nesse encontro improvável, perceberíamos rapidamente que a distância entre o microfone e o gabinete não era um abismo: bastava aproximação e verdade. Bastou uma conversa – dessas em que o assunto oficial perde importância e o humano toma o lugar de anfitrião. Ali, sem rituais de pompa, nasceu uma cumplicidade “para todas as vezes que fosse preciso ”. Desta e daquelas que viriam. Sem aviso prévio, sem cerimónias. Era só aparecer, e ele estava lá. Até hoje não entendi por que eu gostava tanto do Zé Filomeno e ele também  de mi . O seu sorriso grande como o dia de amanhã e “monzada” vigorosa que me dispensava sempre que nos encontrávamos derrubava a barreira entre o jornalista  e o politico. Ao contrário de alguns “ilustres”, que vestem a pele da pátria para exibir ego, José Filomeno era o oposto: servia Cabo Verde — servia mesmo. Não precisava inflar o peito para parecer grande; era grande por dentro. Carregava o Estado sem teatralidade, fazia diplomacia sem estrondo e defendia o país sem plateia. Era desses que não empurram portas: abrem-nas e deixam-nas abertas, porque sabem que o futuro também chega depois deles.

Quem o acompanhou ao longo da vida pública viu a firmeza. Eu, que o reencontrei no improviso dos aeroportos, nas conferências apressadas, nos cafés roubados à agenda, pude ver a outra face: a disponibilidade sincera, o respeito sem cálculo, o gesto que não precisava de decreto. E sim — fica a memória dessa marca pessoal que guardo comigo: um sorriso largo e um coração ainda maior. Recordo-o assim, e é assim que Cabo Verde deve lembrar-se dele.

A sua morte encerra uma biografia, mas não fecha o livro da sua utilidade. O país precisa de gente com essa compostura rara: que represente Cabo Verde sem gritar, que honre o Estado sem se servir dele, que faça da política uma continuação da dignidade — não um palco para exibicionismo.

No tempo em que todos querem protagonismo, José Filomeno Monteiro deixará saudade porque nunca parecia ator. Era, simplesmente, aquilo que os bons servidores públicos deveriam ser: cidadãos exemplares. Ficará para sempre como referência discreta e sólida. Uma espécie de bússola moral, silenciosa e precisa.

E enquanto fechamos este capítulo, talvez reste uma lição que ele deixa, sem jamais tê-la dito: o Estado não se ostenta; serve-se.

Essa é a herança que devemos proteger. E agradecer.

— Eduino Santos

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