Opinião – A tempestade em São Vicente destapou o que o poder insiste em esconder – Por Guy Ramos

14/08/2025 23:43 - Modificado em 14/08/2025 23:43
A tempestade em São Vicente destapou o que o poder insiste em esconder – Por Guy Ramos

A tragédia que assolou a ilha de São Vicente na madrugada de 11 de agosto não me surpreendeu. Quem conhece de verdade esta ilha — para além dos cartões-postais e discursos políticos — sabe que a catástrofe era apenas uma questão de tempo. As águas da tempestade não fizeram mais do que arrastar para a superfície uma verdade crua e incómoda: a pobreza estrutural, a desigualdade gritante e o abandono sistemático das populações mais vulneráveis.

Cada vez que volto à ilha, procuro olhar com atenção redobrada para os bairros de barracas, aquelas comunidades improvisadas que abrigam centenas de pessoas excluídas, esquecidas, empurradas para as margens da dignidade. São essas vidas, que só existem para engordar relatórios e justificar esmolas internacionais, que se tornam vítimas duas vezes: da tempestade da natureza e da tempestade social fabricada por um sistema que há muito as abandonou.

Sempre tive um medo calado: o de uma chuva forte, uma enxurrada, uma tragédia que não só ceifasse vidas, mas que também desnudasse o que os nossos governantes teimam em camuflar. Infelizmente, esse dia chegou.

As chuvas foram intensas, mas mais intensa ainda foi a revelação da negligência, da impreparação, da ausência de políticas públicas eficazes. O que aconteceu não foi apenas um desastre natural, foi também o resultado de uma governação que falhou.

E agora, com as eleições à porta, será curioso — para não dizer revoltante — assistir ao desfile de promessas vazias. Que retórica irão usar agora os mesmos políticos que assistem há décadas ao crescimento dos bairros de tambor sem agir? Que soluções mágicas irão apresentar os mesmos rostos, com os mesmos slogans, querendo manter-se no poder ou substituindo-se uns aos outros num ciclo de hipocrisia?

São Vicente, ironicamente, é uma das ilhas que mais contribui para o Produto Interno Bruto de Cabo Verde. E, no entanto, é também uma das mais esquecidas, com o maior número de barracas, o maior número de pessoas em situação de pobreza extrema. A desigualdade aqui é tão visível quanto a montanha do Monte Cara, mas o governo — local e nacional — parece ver tudo com os olhos semicerrados da conveniência política.

Esta tempestade deveria servir como um alerta. Mas temo que, como tantas outras vezes, será mais um evento tragicamente normalizado. Que as vítimas voltem a ser apenas números, e que a reconstrução seja mais retórica do que realidade.

Chega de discursos. Chega de fingimentos. Que esta tragédia desperte a consciência cívica, e que a memória das vítimas nos sirva de espelho e não de estatística.

Fotografia: Restos dos pertences de uma família após a tempestade, cuja casa foi construída com licença da Câmara Municipal de São Vicente, à beira da Ribeira de Passarão, alimentada pelas águas que descem do Monte Verde. Um retrato trágico de um crime urbanístico, fruto da má gestão na distribuição de terrenos — autorizada em vésperas de eleições.

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