As Olimpíadas dos Desportos Escolares que decorreram na ilha de São Vicente são, sem dúvida, um momento de celebração do desporto juvenil, da convivência entre estudantes de diferentes ilhas e da afirmação de talentos emergentes. Contudo, por mais que se reconheça o valor e a importância que o desporto escolar tem — ou deveria ter — na promoção e desenvolvimento do desporto nacional, importa olhar de forma crítica e realista para o modelo atual.
É importante dizê-lo sem rodeios: o modelo de conceção e organização do desporto escolar em Cabo Verde está longe de ser o ideal. Não existe um verdadeiro desporto escolar estruturado, em que o aluno passa por um processo contínuo de inscrição, treino regular (de outubro a abril, por exemplo), participação em competições regionais (de outubro a abril) e, finalmente, apuramento para as Olimpíadas Nacionais.
O que vemos, em vez disso, é um modelo assente em ações pontuais, muitas vezes improvisadas, que pouco ou nada contribuem para a formação desportiva dos nossos jovens.
No passado — e refiro-me aqui até ao final dos anos 90, especialmente em experiências marcantes como as realizadas no Sal (1995), Santiago (1996) São Nicolau (1998) — o desporto escolar desempenhava um papel central no desenvolvimento do desporto federado e na deteção de talentos. Era nas escolas que se identificavam os futuros atletas das equipas federadas e até das seleções nacionais, era nos pátios das escolas que os professores de Educação Física lideravam este processo com dedicação, seriedade e visão de futuro (ex: Djó Borja, Carlos Pudjim, Civy, Liliana, Jean Pierre, Djimba, Anildo Morais, Ruth Alhinho, Djony, Tonga, Eduino, e muitos outros).
Hoje, assistimos a uma inversão preocupante: são os clubes desportivos que formam os atletas para as escolas participarem nos Jogos Escolares. O papel estruturante que os professores de Educação Física desempenhavam foi, em muitos casos, relegado para segundo plano. Muitos docentes justificam-se com a falta de materiais, ausência de horários compatíveis ou falta de incentivos.
Mas, em vez de se acomodarem, por que não reivindicam com firmeza? Por que não exigem às direções escolares, delegações escolares e até ao Ministério da Educação e ao Ministério do Desporto as condições necessárias para cumprirem a sua missão?
Entretanto, enquanto esta realidade persiste, verifica-se um fenómeno paralelo e preocupante: tanto as escolas, como os professores e, principalmente, o Instituto do Desporto e da Juventude e o próprio Ministério, têm aproveitado estes dias para se autopromoverem nas redes sociais.
Publicações constantes, discursos laudatórios e fotografias cuidadosamente escolhidas preenchem os feeds institucionais, criando uma imagem de sucesso que está longe de refletir a complexidade e as falhas estruturais do desporto escolar cabo-verdiano. É fácil promover um evento. O difícil — e o que realmente importa — é construir um sistema.
A verdade é que, atualmente, os verdadeiros parceiros e financiadores ocultos das Olimpíadas dos Desportos Escolares são os clubes desportivos e os seus treinadores. São eles que, muitas vezes, pagam para usar os campos e pavilhões das escolas, com preços que podem ir dos 300 aos 1500 escudos por hora (300$ no Liceu Ludgero Lima, 400$ na Escola Jorge Barbosa e até os exagerados 1500$ nos Salesianos — tudo isso multiplicado por três treinos por semana), para preparar os próprios alunos dessas escolas para as competições escolares.
São os clubes que oferecem conhecimento técnico, horas de treino e motivação contínua para que os jovens possam representar condignamente as suas escolas. E, como se não bastasse, ainda se paga para o fazer (ABSURDO).
Pelas razões apresentadas pelos professores: falta de materiais, de condições e de incentivos — seria lógico e até estratégico pensar num modelo partilhado entre escolas e clubes.
A partilha de materiais desportivos (que muitos clubes possuem em quantidade e qualidade superior), o aproveitamento do conhecimento técnico específico de cada modalidade (que muitos clubes possuem em qualidade superior) e a eliminação da cobrança de taxas de utilização de espaços escolares poderiam criar uma base sólida para o verdadeiro desenvolvimento do desporto escolar.
Inclusive, esses mesmos materiais poderiam ser usados nas aulas de Educação Física, colmatando carências e enriquecendo a experiência dos alunos.
Em vez disso, preferem cobrar. Preferem manter uma separação artificial entre duas entidades que, se colaborassem de forma articulada (convém salientar que não tem havido abertura por parte das escolas), sairiam ambas a ganhar, e, sobretudo, ganhariam os alunos, que são os principais interessados e beneficiários de um sistema bem estruturado.
Mais importante ainda: se tanto as escolas como os clubes assumirem de forma plena e comprometida o seu papel na formação desportiva dos jovens, os resultados não serão apenas melhores — serão transformadores.
Teremos atletas melhor preparados, jovens mais disciplinados, talentos melhor acompanhados e, acima de tudo, um sistema desportivo mais justo, mais coeso e mais sustentável.
E, por fim, um recado direto ao Presidente do Instituto do Desporto e da Juventude e ao Sr. Ministro do Desporto: está na hora de acordarem. O país não precisa de discursos emoldurados com fotografias de medalhas. Precisa de estratégia, de estrutura, de visão partilhada.
O desporto escolar não pode continuar a ser apenas uma montra anual. O que estão a florir, nas redes sociais e nos palcos institucionais, não é um jardim — é um terreno por cultivar, que exige trabalho sério, planeamento de base e compromisso com o futuro dos nossos jovens.
Gostaria de expressar o meu profundo reconhecimento a um grupo de dedicados resistentes do desporto destas ilhas. Graças ao trabalho sério e contínuo que têm vindo a desenvolver nos seus clubes, foi possível observar, nas Olimpíadas dos Desportos Escolares, um nível de qualidade assinalável por parte de algumas ilhas. Refiro-me, em particular, a figuras como Zé Baía, Guelass, Mireille Mirianne, Hely, Heriberto, Sarda, Nelo Ramos, Rui Silva, Cely, Amílcar Lima (Micau), Djon Dongo, Baka, Hilton, Moche, Natcha, Samuel Campinha Lopes, Nhó Rei, entre muitos outros cujos nomes, infelizmente, não recordo neste momento.
Nas ilhas onde estes treinadores não estiveram “presentes”, a ausência de um trabalho estruturado foi notória na prestação das equipas (escolas).
As Olimpíadas dos Desportos Escolares merecem continuar, mas com um modelo reformulado, mais justo e mais coerente com os princípios da formação desportiva. Precisamos de resgatar o espírito do verdadeiro desporto escolar — aquele que forma cidadãos, educa através do desporto e descobre talentos. Para isso, todos os agentes devem assumir as suas responsabilidades: professores, escolas, ministérios e, por último, os clubes.
Sem esta mudança, estaremos apenas a organizar festas desportivas sem sustentabilidade, apagando lentamente a chama do desporto escolar que outrora brilhou com tanto orgulho.
Américo Lopes (Butcha)
Treinador e Dirigente Desportivo