Jornalista guineense defende importância de notícias escritas em crioulo da Guiné-Bissau e em Cabo Verde

20/12/2022 17:07 - Modificado em 20/12/2022 17:07
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A jornalista e cantora guineense Karyna Gomes lamenta a falta de projetos jornalísticos escritos em crioulo na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, que considera serem “muito importantes”, porque “nenhum povo é livre quando não fala na sua língua”.

“Nos nossos países [Guiné-Bissau e Cabo Verde], faço jornalismo em crioulo, mas não se faz jornalismo escrito em crioulo. Eu acho que há todo um caminho por fazer”, contou.

Enquanto jornalista e falante de crioulo guineense e cabo-verdiano, lamentou que a sua língua materna não tenha maior expressão escrita, nomeadamente no palco informativo, e exortou os Governos a “despertarem”, uma consciencialização que disse ter “de acontecer para o crioulo realmente se estabelecer na escrita”.

Karyna Gomes defendeu que a “oficialização do crioulo é mais do que urgente” para que a língua possa ganhar um estatuto mais firme não só nos países de origem, mas também nos países onde se concentra uma grande parte da comunidade africana.

“A partir do momento que os crioulos se tornem línguas oficiais nos nossos países, nomeadamente, Guiné-Bissau e Cabo Verde, automaticamente, a geopolítica, digamos assim, vai acabar abraçando isso e vai tornar muito mais fácil o crioulo traduzido em jornais no caso de países como Portugal, que têm claramente uma comunidade muito expressiva que fala crioulo”.

A viver em Portugal há 11 anos, Karyna Gomes é coordenadora de um projeto pioneiro de jornalismo em crioulo no jornal online A Mensagem, que visa ampliar os temas da comunidade africana em Lisboa e elevar o crioulo enquanto língua.

“O jornalismo escrito em crioulo é muito importante”, reforçou.

A importância da escrita nesta língua está ligada ao facto de as comunidades africanas pensarem em crioulo, pelo que seria “importante” ver essa representação nos conteúdos lidos e não apenas em alguns programas de televisão.

“O crioulo é a língua que eu falo em casa. O crioulo é a língua que eu namoro com o meu marido. O crioulo é a língua que eu falo com a minha mãe. O crioulo é a língua da minha intimidade. É a minha língua de base. O português é uma outra ferramenta que é uma mais-valia na minha vida, que eu tenho muito orgulho de poder falar também, mas o crioulo vai estar sempre ligado à minha intimidade”, disse.

A artista contou que apesar dos países terem como língua oficial o português, aquilo que une verdadeiramente os seus habitantes é a língua materna. “Apesar de sermos um país de língua oficial portuguesa, nós temos a língua nacional que nos une a todos, que é a língua crioula”, afirmou.

A jornalista relembrou, neste sentido, que o jornalismo em crioulo seria mais inclusivo para a camada da população que nunca dominou o português e que, por isso, sofre de “lacunas linguísticas” que perturbam a compreensão das notícias.

“Há pessoas que não dominam, pessoas da minha geração, amigos meus, não dominam o português. Nem escrito, nem falado. E que conseguiram concluir títulos, inclusivamente, universitários. Mas que têm lacunas linguísticas por causa dessa questão de o crioulo ser uma coisa muito presente, muito forte em nós” afirmou.

Para Karyna, “todos os livros” podem ser traduzidos para o crioulo, e usa o exemplo da Bíblia da Igreja Católica, que “está toda escrita no crioulo da Guiné”.

“Eu sonho muito em poder ter o meu livro favorito traduzido para o crioulo”, confessou.

A jornalista reconhece, contudo, que já há “ventos” de mudança a soprar nos países e que têm permitido alguns avanços para que isso se torne possível.

“Nos nossos países tem de ser prioritária a questão da oficialização. Porque já se está a trabalhar para isso, a Guiné tem um vento que está a acontecer, que é a semana da crioulofonia, que era exatamente vários debates a ocorrer em torno da oficialização da língua crioula, da literatura da língua crioula, da música na língua crioula, tudo em torno da língua crioula. Em Cabo Verde nós temos já o ALUPEC, que é o alfabeto dos crioulos de Cabo Verde e que é oficial”.

A cantora, apesar disto, alertou que “já existem trabalhos feitos de base”, ficando só a faltar “a vontade política”.

Lusa

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