Artesãos destacam evolução da URDI e pedem um olhar mais aprofundado para os problemas da classe

5/12/2022 02:05 - Modificado em 5/12/2022 02:05
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@ Feira de Artesanato e Design de Cabo Verde, URDI 2022 – Foto Facebook CNAD

No balanço da sétima edição da Feira de Artesanato e Design de Cabo Verde, URDI 2022, os artesãos mostraram-se “extremamente” satisfeitos com a feira e destacam a evolução deste evento nacional, que ao longo dos anos tem conseguido dar oportunidades aos artesãos de apresentar os seus produtos.

Em representação dos 114 artesãos presentes na Praça Nova de São Vicente, Kwame Gamal Monteiro, não só elogiou o evento, mas também deu a conhecer os vários problemas, uns antigos e outros recentes que o sector enfrenta. Mas não foram só reivindicações. Cada problema, obstáculo, vinha com uma solução, que diz serem passíveis de resolução, basta engajamento e vontade política das autarquias e do governo.

O porta-voz dos artesãos, realçou o tratamento recebido na ilha, que segundo o mesmo, apesar de terem sido apenas cinco dias, mostra uma realidade diferente dos seus municípios. Gamal Monteiro, criticou a forma como os artesãos são deixados para trás e garantiu que na URDI sentiram-se mais bem tratados, que nos próprios municípios.

“Não nos trataram com muita dignidade. Então queremos falar que há um descaso com artesãos, principalmente das ilhas mais encravadas, onde existe problemas de transportes, o que deixa artesãos levar os seus produtos para outros locais”. Uma situação que, diz, tem deixado grandes profissionais de lado e que isso leva a que muitos sejam explorados.

“Encontramos artesãos de excelente qualidade com preços totalmente reduzidos e são obrigados a quase a venderem à força os seus produtos, porque muitos estão a procura de uma vida melhor. Então alguns colocam um preço quase indigno, que não valoriza os seus trabalhos. E isso é muito triste”, lamentou Gamal Monteiro que diz ainda que depois estes mesmos produtos são colocados à venda, às vezes quase seis vezes o preço pago aos artesãos”

“Nalguns municípios periféricos existe um drama no escoamento de produtos, encontramos muitos artesãos com produtos ali e não tem nada a fazer com eles. A população, não valoriza e quando os donos das lojas descobrem, compram por 200 escudos, mais ou menos e estabelecem os seus preços. Quem se esforça ganha menos, e é preciso ver isso”, evidenciou este artesão bijuteiro/joalheiro.

Reconhecimento com o cartão do artesão 

O cartão do artesão certifica e oficializa o artesanato como profissão, e desta forma estes profissionais, estão agora habilitados para também fazer parte do sistema de ensino formal e informal e ministrar formações por iniciativa própria.

Algo que, conforme Gamal Monteiro, trouxe algumas vantagens para os profissionais do sector, como reconhecimento em Cabo Verde e fora do país, contudo apresentou alguns constrangimentos. E pedem ao governo para deixar a inscrição no INPS e pagamento como condição para ter o cartão. E justifica alegando, que em muitos municípios, existem artesãos de qualidade que não acedem ao documento porque para eles, “é um susto inscrever no INPS, montar a empresa, pagar finanças, se não têm saída nos seus produtos e ficam com medo de irem fazer tudo isso e depois não conseguem pagar isso”, explicou.

Neste sentido, pedem ao ministro que reveja este ponto, já que muitos consideram, o pagamento do INPS e impostos “um encargo que muitos não conseguem dar conta e sentem-se intimidados”. Muitos podem achar 1040 escudos por mês , mas para quem procura diariamente conseguir 200 escudos para comer não é. Por isso é preciso reavaliar isso, e não deixar de lado estes profissionais.

Sobre os processos que ainda não estão concluídos devido às dívidas no INPS, sugere ao instituto o perdão das dívidas das pequenas empresas, já que muitas delas pertencem aos artesãos. E para sustentar as suas argumentações. lembrou que ao longo dos sucessivos governos, o INPS, sempre serviu de banco privado do governo,que quando precisava recorria ao INPS, tanto para saldar dívidas de empresas, fornecer apoios entre outros, por isso, questiona o porquê deste não ser usado para perdoar as dívidas das pequenas empresas. 

E lançou o repto ao ministro da cultura, já que acredita que o montante a ser usado nas pequenas empresas nunca vai quebrar a instituição e ainda apontou outras questões, para ultrapassar estas situações, como a criação de associações e de cedência de espaços públicos para artesãos

Cedência de espaços públicos para os artesãos

Diz que as autarquias e governo deveriam ceder espaços públicos para os artesãos da cidade, de se organizar e assim trabalhar mais próximo da população, de forma a ter um local melhor, lembrando que os espaços privados comerciais, como os chineses, são os maiores beneficiários de espaços públicos para montarem os seus negócios, o que deixa a concorrência quase impossível.  

Algo que Gamal Monteiro considera injusto, tendo em conta, que não conseguem competir com estes comerciantes por isso a sugestão de espaços na cidade onde os artesãos podem trabalhar e cita como exemplo a ser copiado, algo semelhante que existe em Dakar, onde são cedidos prédios inteiros aos artesãos para trabalharem, produzir e expor nas lojas.

Diz que os artesãos do meio rural que trabalham em casa, estes deveriam também usufruir de um espaço na cidade para que possam vender os seus produtos, para que estes possam ser valorizados. “Não há valorização destes produtos porque estes ficam escondidos”. E relembra que um artesão bem sucedido é mais que contribui para o desenvolvimento do país e menos um apoio quando as coisas se complicam.

Sugestão atrás de sugestão, Gamal Monteiro, aproveitou para mostrar que elas existem e que é preciso, seguir exemplos firmes e bem sucedidos que existem lá fora, como os esforços comunitários. “Existem maquinas que um artesão sozinho não pode comprar, mas se for adquirida, serve a vários artesãos”.

É neste sentido que pediu que, pelo menos, haja mais incentivos das autarquias e dos governos para adquirirem as máquinas , que poderão ajudar a todos nos seus trabalhos, o que segundo este joalheiro, iria facilitar a vida de muitos.

Os artesãos não produzem para o turistas – mas sim para nacionais 

Um dos maiores enganos, que tem acontecido nos últimos anos, salientou o porta-voz, é a crença que os artesãos produzem para o turismo, algo que diz ser completamente enganoso, já que, realçou, os turistas são os que menos compram nos artesãos. “Os turistas compram, principalmente, peças pequenas nos chineses, por isso, quando dizem que produzimos para o turismo, isso é uma miragem”, frisou.

Afinal, quem mais compra, de acordo com Gamal Monteiro, são os cabo-verdianos, os nacionais e emigrantes. “Os turistas quase não compram. Não levam nada de valor. Os turistas, se quisermos atingi-los, temos que competir com os chineses nas miniaturas. São baratas e práticas, mas são feitas com as tais máquinas citadas. Contudo, um artesão, quando e se for produzir uma peça do tipo, gasta tempo demais e não é rentável, mas com uma máquina, tudo seria mais facilitado”.

Diz que um artesão pode produzir apenas um em duas horas e com contrapartida, as máquinas dos chineses fazem centenas ou mais neste tempo. “Por isso, mais uma vez a necessidade de investir nas ditas máquinas”, completou.

Portanto, para isso pede apenas que haja vontade política e engajamento em cada município, algo que considera ser possível trabalhar para a aquisição deste equipamento, que faz muita falta à classe. “Assim os artesãos do município poderiam usar, quando necessário, com regras claras”. E desta forma, garante que cada um iria fazer o seu trabalho e consequentemente  colocar no mercado produtos para competir com os chineses.

Rede de distribuição nacional

À semelhança daquilo que o Centro Nacional de Arte Artesanato e Design (CNAD) faz, que é a criação de pontos de distribuição nacional de produtos de artesanato, diz que as autarquias deveriam seguir este exemplo, de desta forma trabalhar no mapeamento de cada artesão e assim, saber exatamente a localização de cada um, o que produz e o seu preço. E evitar que outros comprem dos pequenos artesãos e depois revender cinco, ou mais vezes, o preço adquirido”.

Em relação aos Prémio Djoy Soares, criado para homenagear o mestre-artesão ceramista, defensor e promotor de uma ideia de conjunto e partilha no sector, Renda de Dona Judith do Paul, Santo Antão, foi a vencedora da escolha feita pelo público, no Facebook e MArcelino dos Santos foi a escolha do júri do concurso.

EC

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