QUEM MANDOU ASSASSINAR RENATO CARDOSO? – Opinião por Maika Lobo

29/09/2022 09:58 - Modificado em 29/09/2022 09:58
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Hoje, 29 de Setembro de 2022, completam trinta e três anos do assassinato de Renato de Silos Cardoso. Ele nasceu em Mindelo a 1 de Dezembro de 1951. Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, desempenhou várias funções nos Governos da I República, com destaque para o de Conselheiro de primeiro-ministro Pedro Pires, e no momento do assassinato desempenhava a função de Secretário de Estado da Administração Pública. Foi autor de vários escritos, designadamente o livro: “Cabo Verde- Opção por uma política de paz”. Foi homem da cultura, músico e compositor, e é da sua autoria as baladas “Tanha, Terra bo Sabé e Porton d’ Nos ilha, etc”. Para além de político, governante, foi também diplomata de carreira.

Renato de Silos Cardoso foi baleado na zona de Quebra-Canela, no dia 29 de Setembro de 1989, entre 18:30 e 19:30 horas. Depois de baleado no interior da viatura, aonde estava acompanhado de uma senhora, foi socorrido e conduzido ao Hospital da Praia. Foi submetido a uma cirurgia, mas acabou por falecer.

Curiosamente, o primeiro-ministro Pedro Pires, que nessa noite seguia de viagem para os EUA, estando no aeroporto, ainda teve tempo para se dirigir ao hospital e ver o Renato Cardoso. Passados 33 anos do seu assassinato, ao longo do tempo, muito se tem dito e especulado sobre a origem do assassinato do meu amigo Renato de Silos Cardoso?!

Na montra do Djibla de S. Vicente ainda existe um recorte do jornal, que diz: “QUEM MATOU RENATO CARDOSO”! O certo é que vários expedientes foram usados e alguns disfarces foram materializados, para camuflar esse assassinato, começando pelo julgamento do “Badiu Boxero”, à vinda extemporânea de inspectores da Polícia Judiciaria portuguesa, que, no final, acabaram por concluir que os indícios de provas tinham sido desaparecidos.

Com estes e outros motivos, as dúvidas sobre o assassinato do Renato foram engrossando e até ao presente persiste-se a inquietação, o desassossego, sem uma séria e convincente resposta. Para Carlos Veiga, a morte de Renato Cardoso não teve motivações políticas. Para ele, a morte de Renato Cardoso “foi um azar”, “estava num lugar errado, no momento errado”. É uma opinião que se deve respeitar. O caso é complexo, não fosse algumas confissões…

Eu e o Renato Cardoso, através da apresentação que me foi feita pelo Jorge Carlos Fonseca, construímos uma sólida amizade. Convivemos muito na Praia e quando eu estudava em Lisboa, não havia vez que ele passava por aquela cidade, que a gente não se encontrava. E confesso que foi o Renato de Silas Cardoso quem acabou por convencer Pedro Pires de que eu era um cabo-verdiano, um cristão, e merecedor do direito a uma bolsa de estudos, direito esse que o próprio Pedro Pires e o Ministro de Educação Carlos Reis me tinham retirado em 1979, por razões políticas, na sequência de um duro relatório contra a minha pessoa por parte da maldita e satânica JAAC-CV!

Terminado o curso de direito, fui residir nos EUA. Porém, em Agosto de 1979, fui de férias a Cabo Verde por um período de três semanas. Como era natural, o encontro com o meu amigo Renato Cardoso era sagrado. Quanto mais não seja, para pôrmos a conversa em dia. Encontramo-nos numa festa de casamento na Prainha e então combinamos um jantar no dia seguinte em casa dele. Foi um longo e precioso jantar! E a conversa se prolongou até às 5 horas de madrugada. Foi nessa conversa que o Renato me confidenciou que iria haver em Cabo Verde a abertura política do regime e que se pretendia a instauração da democracia.

Ouvi com atenção as explicações do Renato, mas ele próprio me disse: “Maika, eu te conheço muito bem! Vejo que não estás a acreditar no que te digo”. “Mas, Maika, estou a falar a sério”. E na sequência confidenciou-me que estava a enfrentar alguns problemas internos: “Maika, há gente no Paicv que não vai com a minha cara. Ouvi uns rumores…mas, vou falar com o Presidente Aristides Pereira…”. Perguntei-lhe: “Mas, é algo que ponha em causa a tua integridade…”. Ele não me respondeu e mudou de assunto. Mais tarde, com a morte do Renato, vim a perceber melhor as reticências da conversa dele e o que ele não quis abrir comigo de forma mais clara.

No seio do Paicv e, sobretudo, na matéria de governação, a situação era péssima. Afinal, Aristides Pereira e Pedro Pires e outros camaradas dirigentes acabaram por perceber que a economia estava a se atrofiar cada vez mais, os problemas sociais se engrossavam e que o contexto internacional já não era favorável aos regimes de partido único. Concluíram que não havia outra solução, que não fosse a abertura política – deliberação que foi ensaiada antes, mas que foi chumbada no III Congresso do Paicv, em 1988, com Silvino da Luz e Abílio Duarte à cabeça, e suportados pelos jovens Basílio Mosso Ramos, Cristina Fontes, José Maria Neves e outros jovens da altura.

Todavia, paralelamente, Pedro Pires, a par da abertura política, conservava em segredo um projecto pessoal. Aliás, esse projecto do Pires ficou patente aquando da doença e evacuação de Aristides Pereira ( a doença da angina de peito), em que se temia que ele não ia se recuperar, assistiu-se a uma terrível competição para a sua substituição! Isto aconteceu em 1983. A esse respeito disse o Aristides Pereira: “Falou-se que eu estava doente e ía retirar-me do poder”.

E na altura Pedro Pires era um dos principais delfins, embora havia a ambição explícita do Abílio Duarte e também de Silvino da Luz. Aliás, Aristides Pereira fala sobre essa questão na sua obra com alguma mágoa! No Paigc e no Paicv as tentativas de golpes internos, de lutas pelo poder a nível interno, sempre foram uma realidade viva, mas bem encoberta e camuflada. Passado esse período, nunca Pedro Pires abandonou a sua ideia ou obsessão em querer ser o Presidente da República, querendo afastar e empurrar o Aristides Pereira. Feita a abertura, ele avançaria como candidato presidencial e o Renato Cardoso, no projecto de Pedro Pires, seria o seu primeiro-ministro.

Este projecto permaneceu trancado no maior segredo dos deuses, mas a pouco e pouco se transpirou para fora, chegando ao conhecimento de Aristides Pereira e dos outros dirigentes do partido. A partir daí os rumores se multiplicaram. E começaram a aparecer comentários e sinais de raiva e de descontentamento entre os principais dirigentes do Paicv, incluindo o grupo que apoiava Aristides Pereira. O grupo que não nutria simpatia ao Pedro Pires não ficou parado.

Foi um período particularmente agitado! Aristides Pereira afirmou no seu livro que “Pedro Pires era um animal político… e que nunca a sua liderança foi consensual”. Com essa desconfiança e descoberto o instinto golpista do Pedro Pires, com a crispação reinante e crescente no seio do Paicv, os rumores e as desconfianças contra o projecto de Pedro Pires e a pessoa de Renato Cardoso foram tomando corpo e também começaram as ameaças veladas.

Foi no meio desse complexo ambiente, que Renato Cardoso resolveu pedir uma audiência ao Presidente Aristides Pereira. Convém realçar que Aristides Pereira entendia que o Renato não o curtia. Não ia muito com a sua cara. Aristides disse no seu livro o seguinte: “…mas Pires agarrou nele e amparou-o. Eles é que trabalhavam juntos.”. Em relação à audiência, o Aristides Pereira, no livro de autoria do José Vicente Lopes, disse: “Recebo-o, e logo deu para ver que ele estava preocupado. Ele (Renato Cardoso) disse-me: “Eu tenho indícios, avisos, que se está a preparar-se algo contra mim”.

Depois de algumas considerações, Aristides Pereira disse: “Pessoalmente, não dei grande importância àquilo. …”, “achei que tudo não passava de mais uma intriga…”. Acrescentou o Aristides Pereira: “O certo é que no dia seguinte, coincidência ou não, mataram-no nas condições que todos sabemos”. Essas palavras de Aristides Pereira são complicadas para se perceber e o pior é como ele encarou, com ligeireza, a queixa de Renato Cardoso!

O que é facto – crua e nua – é que vinte e quatro horas da audiência com Aristides Pereira, o Renato Cardoso foi assassinado. Mas, antes do assassinato, Renato tinha indícios de que estava a ser seguido e que algo estava para acontecer. De resto, o Paicv sempre assumiu ser o herdeiro do Paigc, partido que conduziu a luta na Guiné-Bissau, com muitas peripécias relatadas por vários autores e que vieram a ser conhecidas, pouco a pouco, mais tarde. Também são conhecidas as lutas pelo poder no seio do Paigc, as contradições, as dúvidas que conduziram ao assassinato de Amílcar Cabral.

E depois da independência de Cabo Verde, as alas existentes no seio do PAICV e as disputas pelo poder no interior do Paicv… Aristides Pereira descreveu essas guerras internas de forma clara, as tentativas de golpes políticos no interior do partido, e até falou nas várias tentativas para o afastar. “Sabia-se que a liderança do Pedro Pires nunca foi consensual. Que Abílio Duarte não morria de amores ao Pedro Pires.

A mesma coisa em relação ao Osvaldo Lopes da Silva, as várias broncas conhecidas entre ele e o Pires”, a luta de boxe (via de facto) entre o Amaro da Luz e o David Hopffer Almada na reunião de Conselho de Ministros…”! As confusões entre os dirigentes e as alas eram frequentes e muito duras! A ala dura do partido, Silvino da Luz e Júlio de Carvalho e outros, que controlavam o Ministério da Defesa e Segurança, e que eram os opositores mais agitados e visíveis contra a ala de Pedro Pires.

No meio dessa luta de grupos, golpes e alas e numa tentativa de impedir e bloquear o projecto político de Pedro Pires, quem acabou por pagar com a sua vida foi o Renato de Silos Cardoso. Alguns dos ordenantes, mandantes, estão vivos e o executor do crime também está vivo e arrependido. É natural do interior da ilha de Santiago e é oficial militar na reserva.

Por isso e por outros motivos é que digo e repito sempre: NÃO FOI POR ACASO QUE O PAICV, EM 1991, NO MOMENTO DA SAÍDA DO GOVERNO, ROUBARAM E LEVARAM OS ARQUIVOS DA POLÍCIA POLÍTICA E NUNCA MAIS A REPÚBLICA CONSEGUIU SABER DO PARADEIRO DESSES ARQUIVOS, QUE SÃO PATRIMÓNIO DO ESTADO DE CABO VERDE! Ainda depois do assassinato de Renato Cardoso, para simular e disfarçar o crime vil, de madrugada, mandaram de barco o executor do crime para a Brava, onde permaneceu por cerca de dois meses. Que enorme tragédia! Vinte e tal dias depois de meu regresso aos EUA e do encontro com Renato Cardoso, recebo a notícia do seu seu assassinato! GLÓRIA ETERNA AO AMIGO RENATO CARDOSO!

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