Insurgência é uma das ameaças “mais nebulosas” de África – Estudo

11/09/2022 19:16 - Modificado em 11/09/2022 19:16
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Um novo estudo do Instituto de Estudos de Segurança (ISS Africa) e do Instituto de Formação Judiciária de Moçambique alerta que a insurgência armada no norte de Moçambique é “uma das ameaças menos compreendidas e mais nebulosas de África”.

“Pouco se sabe sobre a identidade, objetivos e ideologia do grupo” que há cinco anos ataca o norte de Moçambique, cujos militantes “não têm uma estratégia de comunicação clara” e isso “torna a resolução da crise ainda mais difícil”, refere o estudo.

As dúvidas sobre que está por detrás da violência levou os autores a procurar perceber junto da população “as causas profundas da crise” – atuar na raiz, pode ser uma solução, justificam. Assim, dirigiram um inquérito que abrangeu 309 pessoas e 28 “informadores bem colocados”, aos quais foi apresentado um leque de perguntas pré-definido para cada resposta.

Tal como sugerido noutros trabalhos, a descoberta de recursos naturais valiosos surge resposta mais escolhida acerca das causas do conflito. “Um total de 45% dos entrevistados disseram que a principal causa da insurgência foi a descoberta de rubis e gás natural”, outros apontaram a disponibilidade de armas ilícitas (13%), marginalização econômica (6%), ganância da elite (5%) e má governação (4%).

Segundo a opinião do ISS, as respostas sustentam a ideia de que o grupo militante Ahlu-SunnahwalJama’a (ASWJ), apoiado pelo Estado Islâmico em Moçambique, “foram facilitados pela chamada maldição dos recursos naturais: elevaram-se as expetativas da população, mas aumentaram as desigualdades”.

“Alguns queixam-se de terem perdido terras e meios de subsistência para as infraestruturas de gás construídas em terra”, duvidando que os projetos “reduzam a pobreza e melhorem os serviços públicos”.

Assim, “o que inicialmente era um pequeno grupo radical cresceu para se tornar uma grande ameaça que afastou grandes multinacionais como a TotalEnergies”, descreve o sumário.

Na pesquisa, apenas 8% disse acreditar que os insurgentes financiam as suas atividades com crime organizado. “Uma proporção muito maior (38%) mencionou fontes estrangeiras e 13% disseram que o grupo utiliza recursos próprios”, resultado de pilhagens. A etnia foi vista por apenas 2% dos entrevistados como motor da insurgência.

O papel de uma ideologia extremista e o recrutamento e radicalização da ASWJ “não devem ser negligenciados”, alerta o estudo. Cerca de 60% dos inquiridos “disseram que a religião desempenha algum papel na violência, embora muitos acreditem que a religião muçulmana está a ser instrumentalizada”.

“O estudo constatou que a radicalização ocorre predominantemente nas mesquitas e, em menor grau, nos mercados”, contrariamente à tendência global de radicalização “cada vez mais feita online e por meio de outras redes ilícitas”.

O estudo conclui que “há necessidade de diálogo e reconciliação entre muçulmanos e cristãos em Cabo Delgado”, mas “também entre muçulmanos” – e ações governamentais necessárias “incluem a parceria com organizações locais para tratar de queixas legítimas”.

O ISS Africa sugere ainda a criação de “uma comissão de inquérito sobre os impulsionadores do extremismo violento e o desenvolvimento de uma estratégia nacional para lidar com todos os aspetos da crise”.

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