Câmara do Turismo de Cabo Verde e a Cabo Verde Empresas contra recrutamento de mão-de-obra no país que “vai esvaziar os hotéis de jovens quadros”  

3/08/2022 23:00 - Modificado em 3/08/2022 23:00

Com a divulgação da Região de Turismo do Algarve sobre 5.000 empregos por preencher em Portugal e do apoio do governo e IEFP em instar os cabo-verdianos sobre esta “grande oportunidade”, a Câmara do Turismo de Cabo Verde e a Cabo Verde Empresas mostram-se preocupados com a saída de profissionais habilitados que pode deixar o sector turístico e hoteleiro nacional, despido de quadros.

A preocupação foi levantada primeiro pela associação da Cabo Verde Empresas, posteriormente pela Câmara de turismo do país. As duas entidades consideram que o fluxo migratório de profissionais vai deixar o país desfalcado de quadros qualificados e que isso pode corresponder a um grande problema que o país poderá enfrentar.

“ “Portanto, permitir que os operadores portugueses adquiram 2.500 trabalhadores será um desastre total para nós”, reiterou Andrea Benolli, para quem, os investimentos previstos para a época alta estarão em risco, não tanto em termos de quantidade, mas de qualidade, com repercussões, acentuou, na imagem do destino turístico e “com prováveis consequências” nas vendas da época 2023/2024.

Já Jorge Spencer Lima, presidente da Câmara do Turismo de Cabo Verde, em entrevista à Lusa disse que o que poderia ser um ato normal deixa de ser porque não foi preparado, por ser um processo que vai esvaziar os hotéis de quadros, sem alternativas. Porque o sistema de ensino que forma quadros em Cabo Verde ainda não está preparado para essa razia”, afirmou Jorge Spencer Lima.

“Pode criar problemas no funcionamento dos hotéis e na qualidade do serviço que é prestado. As pessoas são livres para emigrar quando entenderem e para onde entenderem. O que não faz sentido é o próprio Governo de Cabo Verde estar a apoiar esse tipo de recrutamento sem preparar o país para essa eventualidade”, disse ainda Spencer Lima, sustentando que a prioridade, deve passar por reforçar o sistema de formação profissional.

Nas redes sociais, como sempre, as opiniões divergem, entre os que apoiam esta iniciativa, e os que a vêem com desconfiança.

“Sinceramente não se percebe este pessoal, por anos trabalhadores Cabo-verdianos têm usado visto de Turismo e visto de estudos para aceder a este mercado de trabalho, agora que se apresenta oportunidade de jovens irem trabalhar com o trabalho garantido e situação documental regularizada aparecem artistas deste género”, crítica um internauta.

Outros seguem na mesma linha, e fazem referência “aos salários miseráveis” que estes profissionais usufruem, “bem como as condições indignas” a que muitos são submetidos. “Estão cientes das condições precárias. É por isso que estão preocupados, porque sabem que se os trabalhadores tivessem boas condições de trabalho e salários justos, não estariam nesta guerra de fazer pressão ao governo”.

“Falam sobre investimentos na área. Mas aproveitam dos investimentos feitos pelo governo e nem formação dão aos seus trabalhadores”.

Do outro lado, os que estão contra esta iniciativa portuguesa de recrutar pessoal nas ilhas. “A questão principal, preocupante é sem sentido nenhum, é o facto do Governo de Cabo Verde, apoiar o Governo de Portugal a resolver o problema deles, sem um plano de mitigação a esta escalada de saída que vai acontecer.

“Este tipo de emigração organizada por países europeus deve ser refletida. Não é um mar de rosas. Pode ser o mesmo sistema usado no tempo colonial, onde cabo-verdianos que foi contratado para Portugal, Angola, S . Tomé e Moçambique receberam metade dos salários que foram prometidos. O governo deve estar em cima e acautelar os direitos dos cabo-verdianos”, sustentou outro internauta.

O número de trabalhadores ao serviço nos estabelecimentos hoteleiros de Cabo Verde cresceu cinco vezes em 2021, para 8.400, indicam dados divulgados em junho pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) cabo-verdiano.

Segundo o Inventário Anual de Estabelecimento Hoteleiros divulgado, esses estabelecimentos empregavam diretamente 1.577 trabalhadores no final de 2020 (após um máximo de 9.417 em 2018), registo que assim subiu fortemente (432,7%) no final do ano passado, devido à reabertura progressiva das unidades de alojamento, após as restrições impostas pela pandemia de covid-19.

  1. Nelson Rocha

    Muita hipocrisia…por anos os operadores turisticos caboverdianos têm vindo a explorar seus trabalhadores, não lhes pagando um salário digno e não lhes permitindo criar vinculo laboral, pois muitos eram dispensados do trabalho antes do tempo estipulado para entrar no quadro efetivo da empresa. Nas ilhas do Sal e da Boa Vista, o grosso dos funcionários das empresas vivem em barraças ou bairros com mínimas condições de habitabilidades e mesmo assim sempre deram seu melhor para um serviço de qualidade. O governo também tem sua cota parte de culpa porque deveria exigir aos operadores turísticos, no contratos de conceção, que criassem habitações sociais para seus funcionários que não tivessem condições para tal.

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