Maria Gomes: No tempo que os sapatos faziam a diferenciação social na Praça Nova

22/07/2022 16:00 - Modificado em 22/07/2022 16:00
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Maria Gomes, nascida em 1927 e prestes a completar 95 anos,  recorda com carinho a sua infância. Uma infância feliz quando morava com a sua família perto da Praça Nova. Muitas rodas,  música,  gargalhadas e muitos passeios fizeram parte da sua vida na praça. Maria Gomes nasceu e cresceu na ilha de São Vicente, mais concretamente numa casa ao redor da Praça Nova,  no local onde hoje se encontra o Hotel Porto Grande. Ou seja, era questão de mais ou menos 1 minuto para chegar a Praça Nova.

Felizmente as suas idas a praça nunca foram condicionadas e poderiam acontecer a qualquer momento, desde que as tarefas domésticas fossem concluídas. “Meus pais sempre me deixaram ir à praça. Ouvia musica, passeava, as habituais rodas a volta da praça. Tudo era feito com os meus amigos”, contou esta senhora que lembra de tudo com uma enorme alegria.

A segregação social patente na praça, naquela época, é um dos momentos que nunca esqueceu. Sem sapatos ,  as pessoas  com menos condições financeiras podiam  fazer as suas voltas na parte baixa  da praça. Fica a parte de cima para os “ bem vestidos  e com sapatos”. Lembra Maria :

 “Eu sempre andava na parte de cima porque eu cresci  em casa de uma outra família. E essa família tinha uma menina da minha idade. Nós vestíamos as mesmas roupas e calçávamos  os mesmos sapatos. Crescemos como irmãs”, lembrou com entusiasmo.

O preço de um par de sapato , na altura  “ nem se fala.  Rondava os 15$00  “mas infelizmente nem todos tinham esse valor para obter um calçado”. E ter sapatos não era a principal preocupação dos mais necessitados , mas  sim “ levar a panela ao lume “ , Mas  quem podia  “com 15$00 dirigíamos ao senhor António sapateiro para comprar o calçado.

Com as vendedeiras ao pé da porta do Éden Park a venderem guloseimas como “açucrinha, doce de coco, bolacha, pão com qualquer coisa, entre outros”, tudo o que chamava atenção das crianças, dos jovens e dos adultos.

A questão do namoro tinha que ser mantida em sigilo, assim como a jovem Maria e as mulheres da época eram proibidas pelos país de sair com os rapazes. “Naquele tempo mesmo com namoradinho não se podia andar de mãos dadas. E havia sempre alguém de olho em ti para fazer queixinhas aos pais. Eu tinha namorado, mas não dava nas vistas”, confidenciou.

Os assédios sempre foram comuns e, na década de 1940, e disse lembrar de ver as tropas portuguesas chegarem a Cabo Verde, alguns com uma atitude inadequada para com as mulheres da época .

“Na praça encontrávamos alguns portugueses que gostavam de apalpar os seios das meninas. Achavam que seria normal fazer isso connosco”, disse indignada a senhora Maria. Esta mulher se considerava “desaforada” e que não aturava tais comportamentos. Em vários casos, ela via apenas uma opção: atacar.

“Alguns mereceram alguns bofetões e eu fazia isso sem hesitar”, era assim que diz reagir quando era “falta de vergonha”meter-se com a jovem Maria que já era conhecida pela sua personalidade forte.

Para ir a praça, era preciso estar bem vestida e com roupas que escondiam as partes mais sensuais da mulher. Por isso, as saias só abaixo dos joelhos, sempre, para além de outros cuidados.  

A partir de casa, os pais da senhora Maria controlavam o término das atuações da Banda Municipal porque era “hora de regressar à casa”.

Um pouco mais tarde quando teve o primeiro filho com 14 anos e de seguida mais 9, estes também começaram a fazer parte da vida na praça. “Todos os domingos era uma felicidade para mim e para minha filha que estava sempre com a filha da minha patroa. Era dia de os passear na praça”, conta com muita satisfação.

No entanto, esse hábito de levar os filhos a praça era feito por muitas mães que resolviam trazer as suas crianças ao local para se divertirem e as marmitas não ficavam para trás. 

Para Maria Gomes, as voltas na Praça Nova lhe marcaram a sua infância e a sua juventude.

AC – Estagiária 

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