Djodje de Onave” – metade de uma vida ligada a área naval em São Vicente – 31 anos como manobrador de navios

26/01/2022 01:01 - Modificado em 26/01/2022 12:10

Hoje, 31 anos após a remodelação da ex Onave, trabalham nos estaleiros de forma efetiva, três funcionários e “Djodje de Onave” como é conhecido é o único e mais antigo manobrador de navios do local, que por amor a profissão, e também a espera da reforma ainda persiste nos estaleiros.

“Tenho 60 anos de idade, 31 dos quais na ex Onave. Amo este local, a profissão que exerço. Mas já me sinto cansado, agora só aguardo a reforma”, refere este profissional que confessou em entrevista ao Notícias do Norte, que durante todos esses anos nunca teve férias. “Sempre fui útil aqui”, desabafa.

A vida profissional de “Djodje de Onave” iniciou na década de 90, quando foi recrutado para ajudar a subir o primeiro barco, após a reabertura do espaço. “Trabalhava na Interbase onde estive por 14 anos e cheguei aqui, como manobrador de carros,  depois do trabalho, através do português Vítor Barros, tive oportunidade de ficar aqui”, recorda.

No local trabalham vários indivíduos à volta da reparação de embarcações que aportam nos estaleiros e de dois construtores de embarcações de pesca, “Djodje de Onave” conta que aprendeu a profissão com o antigo manobrador, Domingos Xangai, um responsável desde dos tempos de “Wilson”, e que entre 1993/94 passou a ser o responsável.

O trabalho de “Djodje” é orientar as manobras e chefia a subida das embarcações nos estaleiros e trabalha, explicou, mediante a tabela da maré.

O aviso chega com antecedência. Munido de fato de macaco, luvas, “Djodje” se dirige ao local, onde chama de “Linha”, ao auxiliar as manobras de barcos na entrada e na saída dos estaleiros. Sua função é ajudar a manobrar o barco, com a ajuda de mergulhadores, livrando-o de obstáculos — como pedras submersas, partes rasas, pontes e fiações — até ao local, para ser guinchado, onde vai receber serviços de remodelação, ou desmantelamento.

“Deitamos o barco no mar, temos dois mergulhadores que colocam o barco na linha, quando o navio estiver alinhado e sentar, começamos a “virar”. Virar, quer dizer o guincho a puxar o barco”, explicou.

Acrescenta ainda que para subir um barco no local depende da hora, do dia e da maré. Nada é ao acaso. “Temos uma linha principal, que tem ao todo 500 metros, que é mais funda, com cerca de 8 a 9 metros de profundidade, onde subimos barcos de várias toneladas e outra mais pequena de 200 metros para embarcações mais pequenas ainda”.

“Djodje” já perdeu a conta de quantas manobras já realizou em embarcações, mas diz que são muitas e que desde os anos 90, até agora, vê o trabalho a decorrer normal, embora pelo caminho, admite ter surgido alguns problemas laborais, um acidente que cortou um nervo na palma da mão e muitas histórias para contar. Mas estes, disse que ficam reservados para um futuro livro de memórias e de ensinamentos, onde quer deixar suas experiências e ensinamentos.

Atualmente a Ex Onave está sob gestão da Associação dos Armadores de Pesca de Cabo Verde (APESC), e conta que o barco de maior tonelada, aliás dois, um de bandeira portuguesa e o atual navio de investigação oceanográfico “Islândia”, duas embarcações de mais de 100 toneladas, disse.

“Foi um trabalho colocar aqui em cima o navio português, custou-nos trazê-lo para cima. Este estaleiro não é adequado para o tamanho do barco. Felizmente tudo correu bem, e ele esteve um ano e tal aqui a ser fibrado.

Atualmente os mais pesados no local são os dois Catamarãs da Moura Company, que estão à espera para serem desmantelados, que juntam a dezenas de embarcações, outros que já foram e que “Djodje” é o responsável por colocá-los no estaleiro.

Este manobrador de máquinas e de barco conta ainda que antes, nos tempos áureos da Oficinas Navais de São Vicente, o local tinha um certo movimento. “Tínhamos oficinas de carpintaria e outra de mecânica. Mas depois, desmantelaram o local e deslocaram as oficinas para Lazareto e o Estado deu às pessoas que trabalhavam aqui seus espaços para trabalharem”.

“Tinha Funcave – Fundição Cabo Verde, que era privada, a Metalcave que era privada, Recorref que era trabalho de fibra e tinha outro espaço para carpintaria e outro de mecânica”.

O barco mais antigo no local, que está ali desde de 2000 é o barco “Adriano” conhecido por “Flor Bela”, com 80 anos de construção, que subiu nos estaleiros para ser recuperado, mas já deixou de circular.

Sobre o futuro do local, espera que um projecto que foi apresentado aos funcionários há vários anos venha a sair do papel e que recupere o local e o transforme naquilo que merece ser, mas que não foi aproveitado quando a oportunidade surgiu.

Mas o seu tempo como manobrador já está quase a terminar, isso após alguns problemas de saúde e com a idade de reforma quase a chegar.

Já trabalhei muito e já me sinto cansado, é que desde que comecei a trabalhar aqui, nunca tive férias. Trabalhei sábados, domingos e feriados. Sempre respeitei o meu dia-a-dia. No caso das férias, porque sou útil e quando vou de férias, paraliso o trabalho e sempre foi assim, mas retribuam as minhas férias”.

A rotina sempre foi a mesma ao longo destes 31 anos. “Sempre trabalhei com prumo, profissionalismo e diariamente vamos alcançando o nosso objetivo”.

“Quando for embora, vou cheio de lágrimas. Vou sentir saudades. É algo que está marcado na minha alma“.

Disse que manteve o ritmo, mas mostra-se penoso que o espaço não tenha sido mais valorizado ao longo dos anos, pela importância que teve e tem na indústria do país.

Elvis Carvalho

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2022: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.