Ano de 1993: quando a distribuição de água era rentável, deu escola a “minha família e agora dá mais despesas“

26/01/2022 00:53 - Modificado em 26/01/2022 16:35

Transporte de água por autotanque atualmente gera mais despesas que renda.

O primeiro emprego de César Santos foi em 1993, quando sem oportunidades de trabalho teve que dar continuidade a atividade do pai, fazendo a distribuição de água potável em carro autotanque. Hoje as despesas são muitas, os clientes diminuíram, os preços dos combustíveis aumentaram, mas a atividade, essa continua, mas com mais luta nesses tempos difíceis.

Desde às 8h, César Santos e seus colegas marcam a sua vez de chegada para encherem seus tanques de agua potável, na Zona de Dji Sal e que após abastecimento, colocam o pé na estrada, em direção as localidades distantes, como Baia, Calhau, São Pedro, Lazareto e algumas localidades nos arredores da cidade do Mindelo, São Vicente.

Um pouco antes do ano 2000, no já “longínquo” ano de 1993, após terminar o liceu, conta que as oportunidades de emprego eram bem escassas, e com a doença do pai, César Santos enxergou a necessidade de preencher esse vazio, dando continuidade a sua atividade que era fazer a distribuição de água no carro autotanque. O mesmo diz ter conquistado um bom numero de clientes, até certo ponto.

Contudo, hoje a realidade é outra, que para este condutor o acesso a água potável, através da rede tem suprimido muitos problemas no seio das famílias, mas por outro lado, sublinha, quem antes abastecia as famílias perdeu parte deste rendimento. “Nós que praticamos esta atividade acabamos por ficar penalizados”, já que segundo diz, os clientes diminuíram muito ao longo dos anos.

“Naquele tempo, tínhamos mais clientes e passavam quase 1 mês a espera de um camião de agua. Agora são questão de horas ou no mínimo meia hora”, acrescento Santos, que fala, também, em nome dos restantes colegas.

O mesmo relembra que, há uns longos anos, essa atividade era mais corrida, que até houve a necessidade de se colocar em fila logo cedo de madrugada junto aos colegas e aguardar a sua vez numa atividade que terminava o mais tardar às 23h.

 “Lembro-me que em um momento, às 1h da madrugada a polícia teve que intervir para pararmos com o barulho dos motores que bombava água para um tanque do cliente”, recorda com entusiasmo, algo que comparado com os dias de hoje, seria impossível, já que o serviço termina as 16h, porque os pedidos são poucos.

Apesar do camião ser velho, este “abastecedor” de agua, como se refere a si mesmo, reconhece que a viatura já deu muito, já que foi adquirido pelo pai em 1984 e que ainda funciona para o sustento da família. Esta viatura que diz ter um grande “afeto”, já andou todas as estradas da ilha, desde aquelas de terra batida, calcetadas, esburacadas, alcatroadas, mas sempre foi com ele que sempre ganhou o “pão de cada dia”, e por isso sem razão de queixa.

“O meu pai correu muito nesse carro, para que eu e os meus irmãos, pudessem estudar, alguns deles até conseguiram ir para Universidade”, reforça.

Para a mesma fonte, não basta falar somente dos clientes, mas também de outros aumentos, como é o caso do preço dos combustíveis.

“Levamos água, principalmente, às zonas que não são abrangidas pela empresa Electra e que são mais distantes”, sublinha este trabalhador, que refere os preços dos combustíveis que estão sempre a subir, e a isso, prossegue, somam outras despesas e da manutenção do carro autotanque.  

Em relação aos preços da água, o mesmo considera que ao longo dos anos têm oscilado e cada vez mais caro. “A Eletra aumentou os preços. Naquele tempo, cada 5 toneladas custavam 950$00, depois subiu para 1250$00, agora custa 2361$00”, adianta Santos.

“Essa atividade já foi mais rentável. Agora pagamos mais despesas do que outra coisa. Os carros autotanques são velhos e pedem sempre manutenção”, completa Cesar Santos, que diz mesmo diante dessas adversidades o importante é continuar na luta.

Recorde-se que, de acordo com os resultados dum estudo realizado pelo INECV em 2017, 67,9% dos agregados familiares residiam em alojamentos com ligação à rede pública de distribuição de água, ou seja, com acesso à água canalizada, contudo somente 66,2% têm a rede pública como a principal fonte de abastecimento de água.

Cerca de 11,1% dos agregados familiares abasteciam nos chafarizes, 7,2% recorriam a autotanques, 9,0% abasteciam na casa do vizinho e 6,4% recorriam a outras fontes (cisternas, nascentes, poços, etc.).

 AC – estagiária

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