Permanecer em Ribeira de Calhau por “amor e teimosia” requer soluções para os problemas

24/01/2022 00:39 - Modificado em 24/01/2022 00:40
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António Pires, criador de gado, recorda um passado longínquo de bonança, de muita fartura resultante de muita água proveniente da chuva, que outrora caía com alguma regularidade. Um passado diferente em que não era preciso estar a bater de frente com as autoridades. Hoje, a zona Ribeira de Calhau se resume a muitas propriedades de terra seca a clamar por água.

Quando tinha 4 anos de idade, a família de António Pires mais conhecido por Antone Djak, mudou-se para Ribeira de Calhau para extrair daquela “terra boa” todo o tipo de verdura e fazer criação de gado.  Durante a sua vivência em Ribeira de Calhau, Antone Djak presenciou o quão “maravilhoso e espetacular” era aquela zona que conhece há 62 anos.

“Era um prazer para os agricultores e criadores de gado oferecerem aos visitantes produtos agrícolas. Encher sacos de verdura para oferecer”, lembra António que conta com entusiasmo uma época de muita água e onde “gente de morada” gostava de passar os fins de semana.

Diante disso, para Antone só restava recebê-los de braços abertos e de regresso à casa uma bolsa ou saco de produtos dos “nossos pedacinhos de chão”.   “Produzimos com todo amor e carinho, porque criamos a praticar esta atividade. Está no sangue”, conta.

Este criador de gado relembra esta época de pessoas mais humildes e mais acolhedoras que recebiam de bom agrado todo e qualquer “cristão, filho de deus”. Conforme o mesmo, estas características desapareceram com o tempo, “infelizmente”.

“Dado um certo tempo ou com a evolução, com novas gerações, muita coisa mudou, mas para pior”, lamenta Antone Djak que responsabiliza os sucessivos governos e autarcas por não criarem condições para que os produtos locais pudessem ser escoados para outras paragens.

De regresso aos dias atuais com 66 anos de idade, seis filhos já crescidos, e aposentado este homem da terra, que reside em “morada” tem uma outra visão do lugar onde cresceu.  

É incansável para o mesmo regressar todos os dias à Ribeira de Calhau para cuidar dos seus animais, já que no ano passado desistiu de praticar agricultura.

Uma desistência provocada pela ausência de água em mais de metade dos poços do vale e que os seus também foram afetados.

“No ano passado, meus poços deram o que tinham para dar. Logo eu tive que pedir à minha vizinha que me alugasse seu poço que ainda possuía uma quantidade insuficiente de água para regar as minhas hortas. Mas para isso gastei muito para conseguir trazer água da minha vizinha para meu pequeno tanque. Infelizmente, já não há mais água e as minhas hortas estão às cinzas”, explica, acrescentando que os agricultores e criadores de gado estão invisíveis aos olhos do governo e da autarquia e que se chover, mais uma vez, toda a “água vai escorrer para o mar”.

O que restou dos terrenos de Antone Djak são apenas o material do sistema gota a gota ainda alinhados sobre a terra seca, sem nenhum vestígio de vida vegetal, bem ao lado do poço que clama por água.    

A falta deste líquido precioso tem gerado muitos gastos para continuar com a criação de gado, quando o mesmo precisa requisitar os serviços de carros auto tanque 4 vezes por mês, o que equivale a 20 toneladas de água da zona, que feito as contas vai custar 8800$00 por mês.

“Coloquei metade das minhas cabras para acasalamento, e mais tarde reproduzirem, mas infelizmente não dão leite insuficiente para alimentar, pelo menos, as crias”, indica o criador que diz que não é fácil desfazer dos seus animais.  

Das 14 cabeças de vacas, só lhe resta 5 e das 60 cabras adultas só lhe sobraram metade, uma situação que lhe forçou a tomar tais decisões, devido também à falta de ração no mercado, ou se houver, os preços são exorbitantes.  

Ainda em 2000, a zona não tinha energia elétrica, o que mais tarde acabou por se concretizar, e veio aliviar a população local e favorecer a sua expansão, com a construção de novas habitações.

No entanto, a falta de manutenção dos postos de eletricidade tem sido também um problema, principalmente para os “criadores que levantam madrugada para extrair o leite em baixo de pouca ou nenhuma luz”, mas mesmo assim “é-nos cobrado a taxa de iluminação pública” e sem contar que ainda inclui a taxa de RTC, quando se tem dificuldade em acessar a rádio e a televisão públicas. “Ribeira de Calhau já não é o mesmo de 20 ou 30 anos atrás. Há muitas anomalias”, finaliza António Pires que pede uma intervenção urgente.

AC – Estagiária

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