VENDER FACILIDADES OU CRIAR DIFICULDADES?

3/11/2021 16:01 - Modificado em 3/11/2021 16:01
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As mais recentes declarações do PR Jorge Carlos Fonseca, na linha de prescrever medidas e evocar situações desejáveis, sem mencionar a necessidade e as dificuldades de para isso haver recursos, meios e tempo para a sua aplicação, foi algo que despertou, e muito, a minha atenção crítica.

O caso é que em termos lógicos e de utilidade prática, as prescrições constituem elementos mais ou menos programáticos com os quais se inicia um mandato, ou se dá início a uma nova geração de políticas exigidas por mudanças drásticas de conjuntura, como é o caso da presente crise económica nacional e mundial.

É importante ter em conta que para serem efetivas, estas prescrições têm sempre de ser viabilizadas através da mobilização de recursos, da organização das intervenções, com enquadramento e priorização porque mesmo a fiado o dinheiro não é elástico e sempre pode ter outras aplicações.

Ora, acontece que não consegui observar no discurso presidencial nenhuma ponderação sobre a viabilidade de tais prescrições, apenas a necessidade e uma problemática oportunidade a ser verificada ponderando a redundância ou não das medidas prescritas.

Na minha modesta opinião, a mensagem do PR foi uma coisa fácil de dizer, mas difícil de fazer. Aliás, este parece ser o modo mais conveniente, mas nada pedagógico, de acomodar as preocupações das pessoas, sempre dispostas a embalar o sonho de resolver, sem esforço e imediatamente, os seus grandes problemas.

Na verdade, prescrever coisas tão evidentes como atender às necessidades das pessoas, amenizar os impactos do aumento do custo de vida, aumentar os níveis de emprego e de rendimento, aumentar as transferências para os municípios, disponibilizar mais água para o consumo e para a agricultura e outras bandeiras das mais solidárias reclamações, são coisas que se fazem muito facilmente e que até constam do Manual da Demagogia, ou do populismo, se assim se quiser dizer.

Mas, é como fazer prognósticos só depois do jogo. Acerta sempre, mas não serve de nada. Ou seja, um caso claro de apresentar a solucionática, sem analisar a problemática.  

Daí as pessoas, na sua feliz ignorância, acharem que qualquer um pode governar mais e melhor do que os que claramente não estão tomando medidas para agradar o povo. Isto é, basta querer uma coisa e passar a receita para ela aparecer feita e resolver de raiz os problemas. Afinal, é do senso comum que um bom rosário de intenções e proclamações faz a felicidade de qualquer cidadão eleitor.

Se assim não fosse, pergunto eu: Como compreender que o governo anterior, nos seus quinze anos de glória,  tenha sido o campeão das políticas sociais sem ter feito crescer a economia?

Como foi possível fazer tanta política social, ou seja, distribuir recursos, sem antes criá-los?

Isto faz-me lembrar da história engraçada, até dizem que é real, de um patrício em França que ganhou um prémio na lotaria. Aberta a conta bancária, ele logo começou a resolver todos os problemas passando cheques. Até que a conta entrou no vermelho e o gerente do banco o chamou para resolver o problema.

– Problema? Perguntou ele. Não há problema, posso passar um cheque e tudo fica resolvido.

É, pois, contra esta forma caricatural de solucionar os problemas que me insurjo porque na vida real, soluções tão simples e simplistas não podem resolver problemas difíceis e complexos.

E mais ainda: às vezes, até com muito dinheiro não se consegue fazer avançar a economia e melhorar as condições de vida das pessoas. Disso temos vários exemplos consagrados na teoria económica como “investimentos de milhões, resultados de tostões”.

Não equacionar os problemas na sua extensão e profundidade, não considerar as soluções e as suas dificuldades de execução, afinal são atalhos da política para vender facilidades e criar dificuldades.

Falei e disse, penso eu.

Tozé Barbosa

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