Ajuste das tarifas de eletricidade – PREÇOS PELA HORA DA MORTE

8/09/2021 15:24 - Modificado em 8/09/2021 15:24
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O ajuste dos preços da eletricidade da Electra e da AEB – Água e Eletricidade da Boa Vista, está causando as mais preocupadas e iradas reações, tanto sociais, como políticas.

Àqueles que justamente se preocupam com o agravamento das condições de vida das pessoas, juntam-se outros elementos mais irados da agitação político-partidária que não hesitam em colocar as suas hostes em estado de prontidão combativa para “lutar contra os abusos do governo”.

Fazendo a soma das razões – boas e perversas, naturalmente – o facto é que não são poucas as questões e as angústias das pessoas face ao mais do que certo aumento do custo de vida.

Não apenas pelo aumento da conta da luz, mas sobretudo pela reação em cadeia que não deixará de atingir quase todos os produtos e serviços. Ou seja, o demónio da inflação a importunar a vida dos cabo-verdianos, sobretudo dos mais pobres.

Na mesma linha estão as empresas que estão sobrevivendo à crise pandémica, mas que estão bastante abaladas e nem seque passaram o período crítico de sobrevivência, para se poderem estabilizar e fazer a retoma, seja lá o que isso posso ser nas atuais circunstâncias.

Neste contexto, será bom lembrar que entre essas empresas também estão as de eletricidade – ELECTRA E AEB – que sofreram grandes rombos na sua faturação e que também tiveram que manter quase todos os custos de investimento e funcionamento.

De tão sufocadas e debilitadas que estão, seriam capazes de manter as suas operações ignorando o défice tarifário imposto pela alta dos combustíveis?

Por outro lado também há que ponderar o reverso desta medalha: o aumento das perdas por furto de energia costumam acompanhar a elevação das tarifas.

E sobretudo não esquecer que o furto de energia em Cabo Verde é uma realidade culturalmente tolerada e… sustentada pelo nacional-porreirismo de inspiração política eleitoral que sempre condicionou os dois partidos do arco da governação.

O facto é que nenhum governo mostrou coragem para fazer frente a este prejudicial fenómeno. E os tribunais muito menos, com casos e mais casos acumulados à espera da bendita prescrição. Daí que o estado da Justiça seja uma coisa realmente enrolada e com muitas pontas por onde pegar.

Neste caso, será que essas empresas de eletricidade vão conseguir cobrar o que vierem a factura?

Dada a situação socioeconómica resultante da pandemia, parece que a questão será sobretudo de calcular os ganhos e as perdas para depois se fazer o apuramento final resultante deste ajuste tarifário.

Mas, o maior problema é o risco de desequilíbrio da situação. Se estas empresas perderem condições ou capacidade de produzir, perdemos todos nós, pessoas e famílias privadas de eletricidade para as nossas casas.

E perdem também as empresas, pois sem eletricidade deixam de ter condições de continuar a trabalhar para se sustentarem e manterem os seus os seus postos de trabalho.

Na verdade, estamos perante uma situação complicada de resolver, certamente por causa da convergência de vários fatores e que é uma situação complexa na justa medida em que por mais apropriadas que possam ser as alternativas, ainda assim seria muito grande a margem de insatisfação e de falhanço.

Certamente que é justo e legítimo reivindicar a resolução dos problemas e na verdade não há quem posse ser contra isso.

Mas, uma dose de realismo não faria mal sobretudo à classe política e sua claque embalada em juízos e acusações como se tudo dependesse da vontade das pessoas, sem qualquer relação com as situações estruturais ou conjunturais que impões as suas regras e as condições para que tudo possa acontecer.

Assim, a questão que se coloca é a seguinte:

Desde há um ano, o aumento dos preços dos combustíveis no mercado internacional tem aumentado os custos da produção de eletricidade, custos estes que superam as tarifas em vigor.

Como é lógico, isto gera prejuízos. E os prejuízos levam à perda de sustentabilidade e condições para continuar a produção. É assim em Cabo Verde e em qualquer parte do mundo.

Desta real situação surge um dilema:

A manutenção dos preços da eletricidade defenderiam os bolsos dos consumidores, Mas colocaria as empresas em risco de não poderem garantir a sua produção.

Afinal, toda a moeda tem duas faces e não adiante tentar olhar apenas para uma que defenda as nossas razões.

Assim, quem condenar em termos tão absolutas este ajuste de preços, tem a obrigação de demonstrar alguma alternativa para que essas empresas consigam financiar a sua produção. Porque a quebra de fornecimento de eletricidade seria um mal muito maior que estes preços que estão, literalmente, pela hora da morte.

Mas, não há crise. Afinal, iludir a razão prática e lógica para elevar a emoção e as suas destemperadas e simples soluções para problemas tão difíceis, complexos, ou até impossíveis de resolver, é o que de melhor sabemos fazer.

Tozé Barbosa

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