Bispo cristão Felipe Teixeira, do movimento da Teologia da Libertação, não perde a esperança de ver Alex Saab libertado

8/06/2021 17:08 - Modificado em 8/06/2021 17:22

A denúncia das ilegalidades cometidas pelo Governo e pelo sistema judicial cabo-verdiano no processo de extradição, pedido pelos Estados Unidos, do Enviado Especial da Venezuela, Alex Saab, e o propósito de colocar em evidência as injustiças que estão a ser cometidas, trouxeram a Cabo Verde uma delegação de emergência de um Comité de Solidariedade Internacional, com a missão de tentar convencer as autoridades nacionais a rever a sua posição sobre esta matéria sensível e de interesse global.

Foi assim que o líder da missão, o Bispo Felipe Teixeira, detentor das nacionalidades angolana e cabo-verdiana e residente nos Estados Unidos, onde trabalha há décadas em regime voluntário a combater injustiças legais sofridas por emigrantes, inspirado na filosofia cristã da Teologia da Libertação – amplamente difundida na América Latina devido ao seu potencial de luta pelos mais desfavorecidos, mas mal vista e sistematicamente difamada pela hierarquia católica – enquadrou, em entrevista ao Notícias do Norte, a sua deslocação à cidade da Praia.

“Trata-se de uma missão de boa vontade que pretende fazer ver às autoridades cabo-verdianas as injustiças que estão a cometer contra Alex Saab, violando o direito internacional, ao acatarem os ditames dos Estados Unidos que querem julgar um homem apenas pelo crime de comprar e fornecer aos venezuelanos comida e remédios que não podem obter pelas vias normais devido ao brutal e ilegal embargo que sofrem às mãos dos americanos”, disse o prelado ao Notícias do Norte.

O grupo que se encontra em Cabo Verde e representa mais de mil personalidades signatárias, nos Estados Unidos, de um manifesto a favor da libertação de Alex Saab, é composto por quatro pessoas, nomeadamente o próprio Felipe Teixeira, que vem de Massachussets, onde tem feito muito  trabalho de ajuda à comunidade cabo-verdiana, e não só, sendo que as outras três são oriundas, respetivamente, dos Estados de Rhode Island, New Jersey e Califórnia.

“A nossa rede está presente em todos os Estados americanos, e a nossa atenção foi atraída para este caso pela sua identificação com os nossos propósitos de combater as injustiças legais e sociais, não apenas nos Estados Unidos como noutras partes do mundo, nomeadamente, agora, em Cabo Verde”, declarou o bispo cristão identificado com o movimento da Teologia da Libertação, de inspiração cristã mas de dimensão laica.

De acordo com Felipe Teixeira, que se identifica igualmente como membro da igreja católica americana mas a agir em nome pessoal, uma das finalidades é encontrar, pessoalmente, Alex Saab, que identifica como um “diplomata sequestrado”, para o confortar e ver como é que está a enfrentar toda a provação porque está a passar, e eventualmente “convencer as autoridades cabo-verdianas a regressar ao caminho da justiça, como manda a tradição cristã”.

“É o que a Bíblia diz: devemos proteger os nossos irmãos e irmãs e devemos ser os guardas e as sentinelas da justiça a favor dos que são oprimidos e marginalizados e dos que não têm voz”, garante o prelado, explicando que é nesses princípios e práticas que se baseia a Teologia da Libertação.

Felipe Teixeira assegurou que o seu envolvimento neste tipo de casos não acontece por acaso nem é de agora, uma vez que já desempenha estas missões há mais de 25 anos, em várias partes do mundo, o que também faria se fosse o caso de um diplomata cabo-verdiano a estar sequestrado no estrangeiro.

“Se fosse um diplomata ou qualquer cidadão cabo-verdiano sequestrado na Venezuela, o senhor Bispo ia lá falar com o presidente Maduro, e eu tenho a certeza de que ele ia abrir-me a porta e falar comigo. Pelo contrário, cá, que é o meu país, os responsáveis não tiveram ainda a coragem de abrir a porta ou de, simplesmente, atender os telefonemas ou responder aos e-mails”, apontou o religioso, para quem esta é uma situação de “muito cinismo”.

O Bispo Felipe Teixeira recordou que, quando vão aos Estados Unidos, os dirigentes cabo-verdianos fazem questão de estar com ele em encontros, almoços e jantares e a fazer fotografias, e lamentou que, nas presentes circunstâncias, “ninguém abre as portas para conversar”.

“Neste momento de muita dificuldade para os cabo-verdianos, estes não precisam de mais problemas nem de conflitos com outros países, e serei, se me deixarem, uma ponte válida para  o diálogo e o entendimento entre Cabo Verde e a Venezuela”, declarou o professante da Teologia da Libertação, que fala de Alex Saab como um “benfeitor dos venezuelanos” e um “bom samaritano que os Estados Unidos, ajudados por Cabo Verde, sequestraram e querem impedir de fazer a sua boa obra”.

Felipe Teixeira considera que Cabo Verde tem um papel a desempenhar na preservação das liberdades individuais, por também ter lutado para se libertar do colonialismo, pelo que não deve curvar a cabeça perante os americanos.

É que, conclui, “nenhuma promessa feita pelos Estados Unidos justifica tal postura, nem nenhuma dádiva é suficientemente compensadora, uma vez que o que os americanos tiram é sempre muito mais do que aquilo que dão.

A delegação chefiada pelo bispo Felipe Teixeira encontra-se neste momento na cidade da Praia depois de ter estado na ilha do Sal, onde lhe foi recusado o pedido de se encontrar com Alex Saab. O responsável da missão, que hoje entregou mais um pedido de Habeas Corpus a favor da libertação do diplomata venezuelano, diz, no entanto, que ainda não perdeu a esperança de ver o empresário.

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