Transportes aéreos: TICV/Bestfly – Uma boa notícia

17/05/2021 15:02 - Modificado em 17/05/2021 15:02

Os utilizadores cabo-verdianos das redes sociais têm-se ocupado exaustivamente, nas últimas horas, com a questão dos transportes aéreos inter-ilhas. Algumas opiniões e pontos de vista têm-se destacado pela consistência, e de entre elas escolhemos e publicamos a posição que se segue, do jornalista Orlando Rodrigues.

Finalmente, uma boa notícia no domínio dos transportes aéreos em Cabo Verde: o anúncio da permanência da Binter/TICV e a entrada da Bestfly nos voos inter-ilhas. É que, pela primeira vez em vários anos, o sector tenderá a explorar uma situação de concorrência, caso se confirmem as notícias hoje trazidas pela imprensa, de que, afinal, a companhia de capital espanhol não vai abandonar Cabo Verde.

 
Associada à já confirmada informação de que a Bestfly entra efectivamente no mercado, com voos para todas as ilhas e assumindo o papel de concessionária do Estado de Cabo Verde para o sector em causa, esta é uma das maiores boas-novas que a TICV dá aos cabo-verdianos em mais de 5 anos, depois de vários e desgastantes episódios de abuso de posição monopolista, desrespeito pela entidade reguladora, chantagem ao Governo, desprezo pelos cabo-verdianos e minimização da importância de um sector tão estratégico quanto vital para um país insular como o nosso.

O anúncio da permanência da Binter/TICV pode ter vários interpretações, mas uma das mais óbvias é que a empresa terá forçado, até conseguir, libertar-se das responsabilidade inerentes ao regime de concessão pública a que estava sujeita, embora sem que se saiba, até agora, se existe ou chegou alguma vez a existir, algum contrato nesse sentido com o Estado de Cabo Verde. 

A análise dos dados actualmente existentes sugere que a companhia, estando licenciada e dispondo de todas as certificações técnicas e comerciais necessárias para operar em Cabo Verde, pode agora fazê-lo sem quaisquer imposições ou obrigações de voar para este ou aquele destino, e sem necessidade de seguir uma programação de voos própria do serviço público, com todas as inibições e transtornos que isso implica.

Doravante, se estamos a interpretar bem o que ditou a estratégia da Binter/TICV, a companhia pode passar a explorar exlusivamente as rotas mais rentáveis, de ligações entre as ilhas de Sal, Santiago, São Vicente e Fogo, e só se aventurar para outros destinos caso alguém lhe pague, a preços de mercado, naturalmente.

Partindo ainda do princípio de que, com a circunscrição da sua programação às ilhas cujas ligações dão dinheiro, haverá maior disponibilidade de recursos, nomeadamente aeronaves, a companhia poderá, igualmente, explorar outros nichos do mercado cabo-verdiano da aviação civil, nomeadamente a valência regional (ilhas Canárias e Dakar), prestando um  serviço mais consistente ao turismo, sendo ainda certo que, trazendo passageiros de fora, poderá garantir, com os seus próprios meios, sem depender de ninguém e com garantias de previsibilidade, todos os seus voos de ligação doméstica. 

Neste cenário, teremos uma companhia a operar em Cabo Verde ao bel-prazer dos seus interesses comerciais, sem comprometer as necessidades nem desafiar a dignidade dos cabo-verdianos, e sem qualquer tipo de chantagem. Numa palavra: servindo bem o mercado sem ter de, episodicamente e a contragosto, fazer as vezes de empresa pública, coisa para a qual demonstrou já, decididamente, não ter vontade nem vocação. 

É caso para dizer, deixemos voar a Binter/TICV.

Um outro dado positivo da equação é a entrada da Bestfly no mercado cabo-verdiano. Mas para que essa solução resulte, deixemo-nos, antes, de embandeirar em arco pensando, como alguns nos querem convencer, que a companhia angolana será a panaceia para todos os males da nossa aviação civil. Não será, mas pode desempenhar um papel importante, ou, mesmo, importantíssimo, neste previsível cenário de dualidade operativa com a privada Binter.

Assumindo a concessão do serviço público como a principal justificação para a sua presença em Cabo Verde, a BF terá a responsabilidade de ir a todas as ilhas, minimizando as angústias e as incertezas de populações encravadas como as de Maio, Brava (em operações mistas aéreas/marítimas, tendo o Fogo como Hub), São Nicolau e também Boa Vista (apesar de estar ligada ao mundo, esta última ilha tem conexões bastante deficientes com o resto do país). 

Nada impedirá no entanto, muito pelo contrário, que a Bestfly explore, tanto quanto possível, a centralidade das rotas Praia/Sal/São Vicente/Fogo, mormente nos períodos de maior demanda (verão e fim de ano), onde o mercado garantirá, por si só, procura suficiente para o desafogo das duas companhias.

Dentro deste cenário, algum proteccionismo deverá ser dispensado à Bestfly, com o Governo a garantir que todo o serviço de transporte aéreo das instituições públicas seja adquirido, tanto quanto possível, à companhia angolana contratada como concessionária do Estado cabo-verdiano.

Só assim o sector cabo-verdiano dos transportes aéreos  funcionará com os equilíbrios necessários, garantindo um serviço público de ligações inter-ilhas ainda melhor do que no tempo da TACV.

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2021: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.