EDITORIAL – COVID-19: O Governo abandonou a política de salvar vidas? Parece que sim!

4/05/2021 23:36 - Modificado em 4/05/2021 23:36

O Governo acaba de brindar o país com a declaração de mais um estado de Calamidade, obrigando os cabo-verdianos, mais uma vez, a readaptar-se a limitações de mobilidade e de convívio social, com fortes impactos negativos na economia, mais especificamente na produção das micro e pequenas empresas e nos rendimentos das famílias que vivem do pouco que retiram das atividades informais.

Normais e aceitáveis seriam estas novas medidas restritivas, não fosse o facto de serem motivadas pelo registo, nas últimas semanas, de numerosos recordes de casos de Covid-19 e do aumento crescente de pessoas que morrem dessa terrível doença, na sequência de mais uma campanha eleitoral em que o Governo não esboçou o mínimo gesto para obrigar os partidos políticos, nomeadamente aquele que o sustenta, a observar as regras e os comportamentos básicos para conter a propagação do vírus.

Muito pelo contrário, as instituições do Estado que seriam responsáveis pela imposição e pelo cumprimento de tais regras recolheram-se a uma total inação, deixando campo livre para os partidos políticos, com toda a impunidade, promoverem todo o tipo de ajuntamentos sem a mínima observância dos comportamentos prudenciais exigíveis em tais circunstâncias.

Os resultados estão à vista, com centenas de casos de Covid-19 a serem reportados diariamente, com pessoas a morrerem indiscriminadamente à vista das autoridades que nem sequer vêm a público admitir a sua impotência, quanto mais avançar soluções, com os hospitais a abeirarem-se do limite das suas capacidades de atendimento e de tratamento dos doentes, com a pequena economia a soçobrar e com muitas famílias a alargarem o seu ciclo de refeições, que é como quem diz, a comer menos vezes ao dia.

Em todo o lado, aumentam os lamentos, as manifestações de impotência e as invetivas contra quem devia dar resposta a este “verdadeiro Estado de calamidade” social que o país vive, mas em vão. A situação não melhora, pelo contrário. Não se vislumbram quaisquer perspectivas de dias menos angustiosos nem de uma situação mais desafogada.

E quem assim age é um governo legitimado pelo voto popular para continuar com Cabo Verde no caminho seguro. O mesmo governo que no início da pandemia tomou medidas corajosas para salvar vidas. Suspendeu de imediato os voos com origem na Itália. Isolou a ilha da Boa Vista com apenas dois casos de COVID-19. Colocou S. Vicente em quarentena sem nenhum caso de COVID-19. Isolou a ilha de Santiago. Com medo, aconselhado pelo pânico, sem rigor científico, mas tomou medidas: salvou vidas.  Os casos de COVID-19 estavam controlados ou em níveis aceitáveis. Foi duro, exigiu sacrifícios. Mas para governar Cabo Verde é preciso coragem. Muita coragem quando se trata de salvar vidas tão vulneráveis, ao longo dos tempos, perante a natureza e os homens.

Daqui por alguns dias, um novo primeiro-ministro tomará posse e irá ao Parlamento apresentar o seu programa de Governação e esperamos que tenha a coragem de aceitar que a situação é dramática e que levante de novo a bandeira do combate à COVID-19 assente na premissa salvar vidas e que tome medidas que parem as mortes por COVID-19.  Que tenha a coragem de reconhecer que é preciso ir mais longe do que o Estado de Calamidade ou que explique por que tomou medidas drásticas e dolorosas no início da pandemia, e agora com os casos e as mortes aumentado todos os dias não opta por essas medidas. O PM tem que explicar se abandonou o combate à COVID-19 tendo como principal objetivo salvar vidas. Se mudou de estratégia deve explicar aos cabo-verdianos. Deve explicar como vamos parar o aumento de mortes e casos de COVID-19 com um estado de calamidade que se resolvesse o problema nenhum país tinha optado pelo confinamento geral quando não consegui controlar o aumento de casos. Portugal é um excelente exemplo do que estamos a falar. 

Já tinha dito ao primeiro-ministro que uma janela com um vidro partido pode indicar uma casa abandonada, um dono descuidado. Essa janela com o vidro partido é um convite para atirar com uma pedra à janela do lado. E já são duas janelas com os vidros partidos. Duas janelas partidas não podem ser um acaso, pensa a terceira pessoa que atira uma pedra para outra janela. Três janelas quebradas são um convite a fazer uma pichagem. Uma pichagem leva a forçar a porta. Uma porta aberta leva a que se levem os móveis da casa e assim sucessivamente.

É nesta situação que a COVID-19 está a colocar o país. É preciso agir e não ficar à espera da próxima pedra. Não ficar à espera que morram mais cabo-verdianos por que tínhamos que fazer as campanhas eleitorais e não tivemos a coragem de adiar as eleições para que os eleitores pensassem que a situação do pais é normal. Mas, todos sabem que a situação é dramática e não é altura para se procurar culpados. O momento é de agir. As pedras atingem a janela e o país esta com os vidros partidos, parece abandonado e entregue a um dono descuidado. O momento é de ação e de solidariedade. De  salvar vidas, pois como se sabe o povo cabo-verdiano já mostrou ao longo da história que não tem medo de morrer: nascemos para não sobreviver à natureza madrasta e aos homens. E, como se sabe, sobrevivemos e mostramos ao Mundo que a pobreza não é uma fatalidade. Conseguimos isso com coragem, fazendo o que os outros achavam que não seriamos capazes de fazer.

Eduino Santos 

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