Pres. da CMSV na hora da renúncia – Onésimo, o Pedagogo

29/04/2021 20:38 - Modificado em 29/04/2021 20:38

Publicamos na integra esta entrevista, entre muitas, que fiz ao Dr. Onésimo Silveira. Estávamos em janeiro de1995 e Silveira anunciou a renúncia ao cargo de Presidente da Câmara Municipal levando à disputa de eleições intercalares. Nesta entrevista Onésimo mostra-se igual a si mesmo: frontal, destemido, culto.

Jornal JáAlguém disse que o Dr. Onésimo Silveira nunca levou uma missão até ao fim. Portanto seria natural que, também, não levasse até ao fim a missão como Presidente da Câmara de S. Vicente. É verdade que é o homem das missões incumpridas?

Onésimo Silveira – Isso é uma surpresa para mim. Isso é mais uma invenção sobre Onésimo Silveira. Tenho cumprido todas as minhas missões. As que me propus e as que me foram confiadas: fui estudante e cumpri. Estive como funcionário das Nações Unidas e cumpri todas as minhas missões. Portanto essa informação não tem fundamento.

Já – Se não é por essa característica, que lhe tentam atribuir, então existem outras razões ponderosas e válidas para não levar até ao fim a missão como Presidente da Câmara de S. Vicente.

O.S – Fomos obrigados a renunciar o mandato. Estou de acordo que é um acto grave. Mas, é um acto legal que se enquadra muito bem no exercício democrático. A renúncia é uma válvula de segurança democrática e como tal deve ser usada só em ocasiões excepcionais. E penso que estamos perante uma razão dessa natureza.

Não se esqueça que desde o mês de Julho, por vias discretas, com medida e responsabilidade, vimos colocando o problema nas diversas instâncias do poder. Infelizmente nunca fomos levados a sério. Isso é muito grave. Uma Câmara não deve fazer “bluff”, gerir uma câmara não é um jogo de “poker”. É um acto de elevada responsabilidade. Mas também gerir uma câmara sob afronta constante é altamente irresponsável e nós não queríamos vincular a nossa presença na câmara com acto de irresponsabilidade. Por isso pensamos que a renúncia colectiva era o único acto plausível. Devido à falta de reacção por parte das instituições ligadas à comunicação social do Estado, essa foi a única solução que nos foi deixada.

Senhor Presidente, para uns as suas razões são validas, para outros o desaguisado com a TNCV não era razão para tomar essa medida que o senhor considera grave.

O.S – Tem-se especulado muito, mas quero dizer que não existe nenhuma razão não revelada. A razão é clara: ela baseia-se na afronta da comunicação social do Estado à Câmara de S. Vicente.

AFORNTA Á DIGNIDADE

– Quer concretizar essa afronta?

O.S – Não é agradável estar a repetir isso. Mas quando um delegado de uma instituição estatal, não das menores, se atreve a insultar o Presidente da Câmara, nos termos em que o fez, é extremamente grave. De modo que pensamos que pensamos que se devia exigir responsabilidades às pessoas que estão à frente dessas instituições. Para não dizer um pouco mais de profissionalismo. Porque havendo profissionalismo há meio caminho andado para se atingir um bom comportamento. Havendo essa falta, há tentação de a suprir com atitudes políticas muito mais de cliente e de membro de partido político do que de cidadão ao serviço do Estado.

– Uma sondagem publicada neste jornal revela que 65% dos eleitores mindelenses consideram o trabalho da Câmara de S. Vicente como – Muito Positivo. Portanto não acha que a confiança do eleitorado mindelense, deveria sobrepor-se à afronta e ao desrespeito da comunicação social do Estado para com a Câmara de S. Vicente?

O.S – Na sua lógica está tudo certo. Mas na nossa lógica, infelizmente, não é esta. Primeiro não paramos o trabalho. Continuamos na Câmara a gerir os assuntos municipais; segundo, despoletamos pela renúncia e através dela, o mecanismo de eleições antecipadas.

A Câmara é afrontada e levamos por isso a questão ao julgamento do povo, uma vez que o governo se recusa a julgar. Não sendo desafrontada, o Presidente tem de dar uma satisfação aos munícipes e este é a satisfação que damos ao povo de S. Vicente. Aqueles que especulam e não querem ver a gravidade da situação, estão a dissociar o exercício político da dignidade que ela supõe e sem a qual esse exercício se tornaria absolutamente falseado, anti-ético e desumanizado. O problema é que em Cabo Verde achamos estas atitudes impróprias, já que fazemos democracia sem experiencia prática e com uma experiencia teórica pouco consubstanciada. Isso porque ainda não somos portadores de uma cultura democrática. É normal em democracia recorrer à renúncia e provocar eleições antecipadas. É isso que estamos a fazer.

– Volto a insistir na questão: para várias pessoas o problema não é assim tão claro e transparente como o senhor presidente explica. Afirma-se que a queda da Câmara se S. Vicente proporciona a Onésimo Silveira voos mais alto. Fala-se até numa “corrida” à cadeira do Presidente da República.

O.S – Nada mais falso. Um Presidente da Câmara que aspira a concorrer a um cargo tão elevado como o de Presidente da República não teria renunciado ao seu mandato. Não é nada disso. Estamos a exercer um direito democrático. Continuamos na Câmara até à eleição de um novo executivo camarário. Não há abandono. Estamos na Câmara para evitar o vazio administrativo e seremos candidatos. Vamos apresentar ao eleitorado as mesmas pessoas que receberam o primeiro mandato democrático.

CÂMARA/GOVERNO

– Aí é que já não entendemos. Segundo números publicados neste jornal o seu Movimento alcançaria uma nova vitória nas eleições autárquicas. Suponhamos que tal concretize e o Governo não muda a postura ofensiva da comunicação social do Estado em relação à Câmara de S. Vicente. Ganha e renúncia outra vez?

O.S – Não!

– Então o que fará?

O.S – Esse cenário deve ser excluído. Porque estamos num país onde a democracia, apesar de todas as suas fraquezas, está a fazer a sua caminhada. Muita coisa se poderá dizer deste governo, mas ele tem-se portado como um governo democrático, apesar de algumas fraquezas e deslizes, aqui e acolá, que são próprios de um regime novo como o nosso. Não penso que o governo estaria em posição de desafiar um resultado eleitoral que indicasse claramente que a questão da comunicação social deveria ser revista.

– Parece-lhe que o governo lhe daria razão numa altura em que se aproximam três eleições e mais do que nunca precisa de uma postura pro-governamental desses órgãos, pese uma vitória eleitoral que reflectisse a falta de democracia da sua política na comunicação social?

O.S – Contrariamente ao que as pessoas pensam as relações entre a Câmara e o Governo foram muito boas nos últimos tempos. Como também foram muito boas, e espero que continuará a sê-lo, as relações entre o Presidente da Câmara e muitos membros do Governo.

(…) Nós todos fazemos concessões política. A Câmara teria feito concessões como o Governo também as fez.

O nosso governo foi bastante difícil mas à medida que o tempo foi passando o entendimento começou a surgir pela simples razão de ser impossível a uma câmara viver em permanente conflito com o Governo central e vice-versa. Tem de haver cooperação e entendimento. Devo dizer que apesar de algum desentendimento, o entendimento acabou por imperar.

– …Quem diria…mas Senhor Presidente, parece que os factos apontam para um cenário contrário ao que acabou de afirmar.

O.S – Não. Não apontam. O que aconteceu de grave foi a comunicação social do Estado. A meu ver o governo não soube, ou não pode, sob pressão política do partido encontrar uma solução para esta questão. Penso que muita gente do MpD teria visto neste caso uma boa ocasião para de descartar completamente de Onésimo Silveira. Há mesmo gente da comunicação social que já anda a dizer que Silveira está politicamente morto mas, isso é mais desejo do que realidade.

– Dentro do quadro político Cabo-verdiano o dr. Onésimo Silveira contenta-se em ser apenas o presidente da Câmara de S. Vicente?

O.S – Sou um homem com cerca de sessenta anos. De uma certa maneira a vida ficou atrás de mim. Os anos que tenho à minha frente, e só Deus sabe quantos são, penso vivê-los como sempre vivi. Dedicá-los a Cabo Verde, é o que farei. O lugar de Presidente da Câmara é um lugar honroso. Dá-me a oportunidade de ajudar e contribuir. Mas, ajudar na dignidade e contribuir na dignidade e não na afronta. Quando fizermos a luta de libertação, estávamos a libertar o nosso território mas também a recuperar a nossa dignidade espezinhada pelo sistema colonial. Muitas pessoas deram a sua vida pela dignidade. A dignidade não é só um valor político, é também um valor humano, um alto valor moral. É por isso que nós assumimos uma posição de defesa da dignidade do munícipe. O munícipe sanvincentino é digno, por isso a nossa posição não é de modo algum irresponsável como alguns elementos da oposição; em jeito de deputados-de-aluguer, começam por aí a bradar, de forma muito eleitoralista e pouco reflectida politicamente.

“O LUGAR DE PRESIDENTE DA CÂMARA É UM LUGAR HONROSO. DÁ-ME A OPORTUNIDADE DE AJUDAR E CONTRIBUIR. MAS, AJUDAR NA DIGNIDADE E CONTRIBUIR NA DIGNIDADE E NÃO NA AFRONTA.”

– Mas houve sempre um divórcio entre o público mindelense e a TNCV. Muitas vezes houve queixas da falta de dignidade com que a televisão tratava os problemas do Mindelo. Em certa medida, desde o tempo da TEVEC que o mindelense se sente afrontado pela televisão do Estado.

O.S – Isso pode ser um deslize profissional resultante talvez da negligência de alguns profissionais. Mas no caso em questão trata-se de uma afronta deliberada, penso que mesmo teleguiada contra uma câmara e o seu Presidente.

LEVANTAR SÃO VICENTE

– Deu a volta a nossa questão e não nos respondeu se a sua meta final como político é continuar a ser Presidente da Câmara de S. Vicente. Deixe-me colocar a pergunta de outro modo: se alguns dizem que Onésimo Silveira está morto politicamente, outros dizem que Onésimo Silveira deveria ocupar um cargo mais alto dentro da política cabo-verdiana: não tem este sonho?

O.S – Não tenho esse sonho. Se tivesse que vir a ser chamado para servir o meu país num outro cargo não negaria. O que tenho estado a dizer e espero continuar a dizer, é que o país está bem servido com o Presidente que tem.

– E em ser Primeiro-Ministro, nunca lhe passou pela cabeça, sequer em sonhos?

O.S – Nunca me passou pela cabeça.

–  Sente-se bem como Presidente da Câmara de São Vicente?

O.S – Sim, porque estou a trabalhar para levantar a ilha e os resultados estão à vista e outros a caminho.

– Não aspira mais a mais nada?

O.S – Não!

– Não é um homem ambicioso politicamente?

O.S – Nós todos temos um pouco de ambição, mas eu sou mais realista do que ambicioso. Continuarei a bater-me para levantar S. Vicente, o que significa levantar Cabo Verde.

– “Levantar São Vicente” a frase mágica das autárquicas de 91. O senhor é suspeito para responder a esta pergunta, mas…. Nestes quatro anos S. Vicente levantou-se?

O.S –  São Vicente está a levantar-se com o contributo da Câmara mas também do Governo Central. Não há dúvidas que São Vicente de hoje é algo diferente de S. Vicente de há quatro anos atrás. E que esta tendência tende a acentuar-se cada vez mais. S. Vicente irá ocupar em breve uma posição privilegiada, de vanguarda no desenvolvimento de Cabo Verde.

S. Vicente está a levantar-se com o contributo da Câmara mas também do Governo Central… e irá ocupar em breve uma posição privilegiada, de vanguarda de Cabo Verde.

– Quais os indicadores que lhe levam a essa previsão optimista?

O.S – A infraestruturação da ilha; o investimento extremo; a formação profissional e, também, um pouco de esperança é componente do desenvolvimento do país.

– Tem dado grande importância à comunicação da ilha com exterior, como mola de desenvolvimento. Mesmo sem um aeroporto internacional em S. Vicente, uma das ideias chave que defendeu para o desenvolvimento da ilha, continua a acreditar no impulsionamento de S. Vicente.

O.S – O aeroporto vai ser uma realidade muito em breve. Já existe um projecto com resultados concretos como o financiamento.

Quanto a Comunicação, devo notar de passagem, que a comunicação social do Estado não deu a relevância que devia a uma revolução que se está a operar no país, em termos de tecnologia de transmissão. Vamos ter quatro das ilhas do arquipélago ligadas entre si por fibra óptica. Isto é um dos avanços tecnológicos qualitativos mais avultados registados em Cabo Verde nas últimas décadas. Se pensarmos que o futuro irá ser dominado, não pela indústria, mas pela comunicação, deveríamos aplaudir este governo, porque se trata de uma decisão com implicações profundas de Cabo Verde.

– Só um parêntese nos temas económico. Ultimamente não tem perdido uma oportunidade para elogiar o governo de Carlos Veiga: O que mudou na sua postura ou na do Governo.

O.S – Nós temos o dever de reconhecer o que está a ser bem feito e de criticar aquilo que está a ser mal feito. Há quatro anos atrás este governo tinha anunciado um certo número de programas, que não passavam de projectos. Hoje, à medida que os vai realizando, é preciso que ao menos os políticos tenham uma postura honesta em relação a essas realizações. O que nos autoriza a criticar o governo é, também, o facto de elogiarmos quando ele age bem.

ESPAÇO DEMOCRÁTICO

– Falemos do Espaço Democrático. Mesmo antes de nascer já era considerado o futuro partido de Onésimo Silveira. Criou-se uma certa expectativa, mas no entanto o ED não ata nem desata. Vai evoluir para partido político ou não?

O.S – Vou-lhe dizer que sim, só para o agradar já que não lhe posso informar. No entanto eu gostaria de lhe pedir do fundo do coração e da alma que deixasse o Onésimo Silveira em paz. Porque o Espaço Democrático não é só uma criação do Onésimo e sim, também, de cerca de duzentos cabo-verdianos que acharam por bem criar uma associação política. Eu sou o presidente desta associação como poderia ser outra pessoa qualquer do grupo. Esta associação tem um estatuto, e esse estatuto tem que ser obedecido. É normal que deixe a minha marca pessoal na maneira de conduzir o ED, mas os objectivos consignados nos seus estatutos serão alcançados por um trabalho colectivo.

– mas o senhor há-de convir que tudo o que passou pela sua vida, impôs a sua personalidade, e criou um carisma difícil de sobreviver sem ele. Portanto não lhe parece natural que o ED sem esse carisma passasse, por exemplo, de uma UCID. Que a Câmara de S. Vicente sem Onésimo seria apenas mais uma câmara, e a marca que deixou na literatura e…

O.S – Para acabarmos essa questão eu vou dizer-lhe que sim.

– Falemos um pouco de Onésimo Silveira. O que é que faz quando não está em “guerra”?

O.S – Em guerra?

– Entre aspas…

O.S – As pessoas têm cada uma seu carácter. Dizem e fazem as coisas de maneira pessoal e individual. Mas isso não quer dizer guerra. Trata-se mais de idiossincrasia do que de afectação de carácter no sentido negativo. Eu não faço guerra. Eu digo muitas vezes com veemência aquilo que penso que é correcto.

– Mas, o senhor há-de me dar razão que dá vontade de mandar às favas à indeossincresia, à afectação de carácter negativo, à veemência das palavras e dar socos quando se faz uma pessoa o que lhe fizera no programa “Impacto”.

O.S – Não. O programa “Impacto” foi simplesmente abjecto. Esse programa ficará na história da comunicação social cabo-verdiana como um fracasso descarado do nosso sistema democrático. É uma aberração do nosso sistema. Foi um acto fascista, totalmente gratuito.

– Aí dá vontade de brigar?

O.S – Quando vi o programa pensei que nunca pudesse ser engano dessa maneira. Que houvesse gente capaz de se comportar de forma tão vil e tão manhosa perante a sociedade cabo-verdiana. E é essa gente que nos vem falar de ética, de valores  e ameaçar-nos com processos no tribunal. Consideramos que o Presidente do Conselho de Administração da TNCV que utiliza tais artimanhas, é um fascista que nem sequer se preocupa em disfarçar-se em democrata. Dizemos muito candidamente, que ele é um naco de mentiroso, que até mente com imagens, e um bom pedacinho de fascista. Que vá a tribunal se quiser e leve a TNCV para casa se assim o entender.

“ESSE PROGRAMA FICARÁ NA HISTÓRIA DA COMUNICAÇÃO SOCIAL CABO-VERDIANA COMO UM FRACASSO DESCARADO DO NOSSO SISTEMA DEMOCRÁTICO. É UMA ABERRAÇÃO DO NOSSO SISTEMA. FOI UM ACTO FASCISTA, TOTALMENTE GRATUITO”.

– Mas voltando onde queria chegar. Que faz quando não está na câmara?

O.S – Jogo uri e leio todos os dias. Se não leio o dia está perdido para mim. Também levo diariamente para casa trabalho da câmara que me ocupa por vezes noites inteiras. Apesar de ter nove crianças em casa não lhes dedico o tempo que gostaria de lhes dedicar.

– Senhor presidente como estamos numa época festiva, uma mensagem para os seus munícipes.

O.S – Gostaria de agradecer a compreensão daqueles que viram na renúncia da nossa Câmara um acto legítimo; a única saída para nos desafrontar-nos da humilhação e do insulto. Àqueles que por ventura não foram ainda esclarecidos, que procurem a origem das coisas, com tranquilidade, sem nunca deixar de pensar que a política, num país pobre como o nosso, não pode ser dissociada da dignidade. Não agimos precipitadamente, mas reflectidamente, com responsabilidade, em nome da dignidade do munícipe mindelense que através da Câmara foi também ultrajado.

Eduino Santos

06.01.1995

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