Carta da mulher de Alex Saab ao PM: “Escrevo com desespero e medo”

22/04/2021 13:06 - Modificado em 22/04/2021 13:06

A esposa do diplomata da Venezuela Alex Saab, preso em Cabo Verde desde desde Junho de 2021, acaba de endereçar ao primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva, uma carta em que solicita a intervenção do governante para ajudar a resolver a situação do marido e pai das suas duas filhas, cuja detenção classifica como ilegal, assim como o processo de extradição para os Estados Unidos, autorizado desde o início de Junho pelo executivo cabo-verdiano. Camila Saab chama a atenção para as condições “extremamente degradantes” da prisão do marido, na ilha do Sal, sem o apoio médico, face à sua condição de doente oncológico, e sem o conforto da família. A entrega da referida carta acontece poucos dias depois de Alex Saab ter perdido a mãe, vítima de Covid19.

Leia a carta na íntegra

Sua Excelência, José Ulisses de Pina Correia e Silva

Primeiro-Ministro da República de Cabo Verde, Palácio do Governo de Cabo Verde,

Av. Cidade de Lisboa,

Praia, Cabo Verde

correiaulisses@gmail.com

                                                                                                                                                             21 de abril de 2021

Vossa Excelência,

Não sei se esta carta vai ser lida. Escrevo-a como quando se coloca uma garrafa no mar. Escrevo-a com a mesma força de desespero que conduz um náufrago encalhado numa ilha a tentar, com a pouca energia que lhe resta, esculpir na areia um “S.O.S.”. Não encontrará raiva nesta carta. A raiva deu lugar à angústia, ao pesar e à dor. Mas lerá, através destas poucas linhas, sofrimento e angústia, tudo embrulhado num sentido de resiliência teimosa. 

Desde 12 de junho de 2020, Cabo Verde tem mantido o meu marido, Alex Saab, em detenção. Deixo aos juristas a tarefa de o convencer incessantemente da natureza arbitrária desta detenção, que está para além de qualquer dúvida. Estou convencida de que o senhor, pessoalmente, está plenamente consciente deste facto. Pois a arbitrariedade está no cerne deste caso emblemático de injustiça em que a dignidade humana de um homem é desprezada, a sua honra, a sua integridade, a sua vida, a sua liberdade, são ameaçadas, espezinhadas e violadas impunemente. E mesmo quando um tribunal de justiça imparcial, independente e internacional – como o Tribunal de Justiça da CEDEAO – é convidado a pronunciar-se, após um debate contraditório, e conclui formalmente que a prisão e detenção são arbitrárias e que a justiça elementar exige a libertação imediata de Alex Saab, Cabo Verde opta por negar a justiça e recusa-se a ouvir a razão. Compreenderá o desespero do náufrago que acreditava que a justiça seria feita e que a sua agonia terminaria. Mas também aqui, o arbitrário, o injusto, o irracional parecem esmagar qualquer perspetiva de justiça. 

Não estou a escrever esta carta com a tinta da razão, mas com a do desespero e do medo. O mesmo desespero dos olhos da mãe de Alex Saab, que morreu ontemsem poder ver o seu próprio filho uma última vez. O mesmo medo que os nossos filhos têm pelo destino do seu pai, nas mãos dos seus perseguidores. Esta carta é escrita com lágrimas de uma esposa que grita o seu sofrimento por ver o seu marido e o pai dos seus filhos tratado com tanta desumanidade e confrontado com um julgamento kafkiano em que o absurdo e a arbitrariedade se fundem. 

Esta carta é um choro, um grito, uma mensagem de esperança e desespero. Esta carta implora a sua humanidade e exige que se faça (e se respeite a) justiça. Privou o meu marido, Alex Saab, do último olhar da sua mãe, privou-o da sua família, dos seus filhos, da sua mulher, roubou-lhe a sua liberdade, a sua dignidade, a sua honra, negou-lhe o seu direito de acesso à justiça, a sua presunção de inocência, o seu direito à saúde, os seus direitos humanos mais básicos … O sofrimento é imenso, tão profundo e desesperado como este apelo à sua compaixão, à sua humanidade e à sua benevolência. 

Esta carta é também um pedido em nome dos nossos filhos, em nome da justiça mais elementar, em nome da dignidade humana, em nome da razão, para libertar Alex Saab sem demora e contribuir para pôr fim ao sofrimento que esta detenção arbitrária gera para ele e para os seus familiares.

Com os melhores cumprimentos,

Camilla Fabri Saab

 

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