Mortalidade indireta em África ultrapassará mortes da pandemia

11/03/2021 17:13 - Modificado em 11/03/2021 17:13

A mortalidade indireta provocada pela desaceleração económica em África irá ultrapassar, em 2030, a mortalidade por covid-19, sobretudo devido a doenças transmissíveis evitáveis, prevê um novo estudo das Nações Unidas sobre o impacto da pandemia no continente.

© Minasse Wondimu Hailu/Anadolu Agency via Getty Images

Oestudo, hoje apresentado numa iniciativa do Programa da Chatam House para África, analisa os impactos socioeconómicos da pandemia de covid-19 a longo prazo, em diversos contextos africanos, e incidiu sobre 10 países no continente, incluindo os lusófonos Angola e Cabo Verde.

“Com o tempo, muitas mais pessoas vão morrer ou porque não têm a acesso a cuidados de saúde primários, ou por causa das capacidades limitadas dos sistemas de saúde, que estão a ser direcionadas para a covid-19”, disse Raymond Gilpin, economista do Gabinete para África do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que coordenou o estudo.

A análise apontou que a covid-19 faz aumentar o risco de “mortalidade persistente” até 2030, bem como de efeitos económicos agravados até 2040 ou 2050.

“A covid-19 não é apenas uma crise de saúde atual, é uma potencial crise de saúde futura, porque mesmo que tenhamos a vacina, a imunidade de grupo e o controlo da pandemia, os efeitos nos sistemas de saúde persistirão por muitos anos”, acrescentou.

Num cenário otimista, em 2030, haverá aumentos da mortalidade em resultado da diarreia (+4%), malária (+5,4%) e infeções respiratórias (+4%).

Num cenário mais pessimista e de forte desaceleração económica, registar-se-iam importantes crescimentos na mortalidade por diarreia (+12,7%), malária (+15,8%) e infeções respiratórias (+12%).

O estudo prevê ainda que a mortalidade das crianças abaixo de 5 anos venha a ser responsável por mais de 80% da mortalidade indireta.

“Sem ações políticas, a covid-19 ameaça aumentar significativamente a mortalidade infantil na próxima década”, alertou o PNUD.

A abordagem do PNUD assinalou, por outro lado, a influência determinante dos parceiros comerciais nos impactos da covid-19 no continente.

“Os países mais integrados nas cadeias de valor globais tendem a ser muito mais vulneráveis e suscetíveis a impactos adversos, a longo prazo”, apontou, sublinhando que os efeitos imediatos da pandemia não estão diretamente relacionados com os níveis de desenvolvimento económico e humano pré-covid-19.

Cabo Verde e Maurícias, por exemplo, têm um Produto Interno Bruto (PIB) relativamente elevado [entre os 10 países analisados] e bons níveis de desenvolvimento humano, mas estão entre os países mais duramente atingidos em termos de queda do PIB e são mais afetados pelas reduções nos fluxos internacionais, referiu o estudo

“Podemos dizer que a África tem sofrido menos com o impacto da covid-19 em comparação com outras regiões em termos de vidas humanas perdidas, mas a situação não é menos dramática em termos de consequências económicas e sociais devido às suas muitas fraquezas”, disse, por seu lado, a diretora-adjunta do gabinete regional para África do PNUD, Noura Hamladj.

Noura Hamladj lembrou que apenas 10 países africanos representam mais de 80% dos casos de covid-19 no continente, destacando os “impactos particulares” sobre os países insulares, a “evidente” diferenciação entre as zonas rurais e urbanas e as implicações socioeconómicas que “revelam desigualdades de género”.

O relatório apontou, por outro lado, que a pandemia “é suscetível de causar uma mudança geral de direção de África para a China” e um afastamento da União Europeia (UE) e da Índia como principais parceiros comerciais.

Antes da covid-19, os principais parceiros comerciais destes 10 países africanos eram China, Índia, Estados Unidos da América e a UE27 e Reino Unido, com o comércio intra-africano a representar uma parte ínfima das trocas comerciais.

“A pandemia tem afetado as economias destes países, com os maiores declínios na Europa e Índia. A médio e longo prazo, isto resultará numa reestruturação de redes de comércio global”, salientou o estudo, acrescentando que esta tendência é válida para os 10 países, embora com variações importantes.

“Por exemplo, Cabo Verde e Quénia mostram uma mudança em direção ao comércio com a China, mas para Cabo Verde esta mudança faz-se sobretudo à custa da quebra do comércio com a UE27 e o Reino Unido, ao passo que para o Quénia está principalmente no decréscimo de comércio com a Índia”, sublinhou o PNUD.

A previsão apontou também que a médio prazo a quota de comércio intra-africano deverá aumentar, destacando o caso do Mali, que em 2019 era o país com a maior dependência das trocas comerciais dentro do continente.

O estudo estimou que os fluxos de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) para Angola, que já tinham diminuído para menos de 0,5 mil milhões de dólares em 2019, venham a contrair-se ainda mais devido ao duplo choque da pandemia do novo coronavírus e dos baixos preços do petróleo.

“A covid-19 é um multiplicador dos desafios de desenvolvimento. Precisamos construir uma maior capacidade institucional e governamental para ter economias resilientes, ao mesmo tempo que impulsionamos um crescimento económico a curto prazo”, defendeu Noura Hamladj.

Neste contexto, o estudo sublinhou a necessidade de aumentar capacidade de governação, o investimento na melhoria dos sistemas de saúde e em infraestruturas, sobretudo no acesso à água potável e ao saneamento, bem como no reforço no sistema fiscal dos países.

“Ajuda externa adicional, com perdão e reestruturação das dívidas públicas, deve ser assegurada pela comunidade internacional aos países mais vulneráveis para minimizar o impacto sobre o desenvolvimento económico e humano a longo prazo”, sustentou o estudo.

Por Lusa

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